29 de dezembro de 2015

Ano Novo e o Capitalismo Utópico



Certamente talvez, me chamem de capitalista utópico, pois acredito que a moeda, em 2016, serão os inquantificáveis: gentileza, atenciosidade, comprometimento (que não é igual a compromisso), Otimismo e Pessimismo autocríticos: coisas que requerem tenacidade e precisam lidar com o risco do fingimento. O não-fingimento, então, será um insumo raro e preciosíssimo. E será necessário se desvencilhar dos delírios da década, a exemplo da ideia de que ser não fingido é dizer tudo, desreprimir-se totalmente de uma só vez e de forma concisa.

Saber quando dizer pouco ou dizer mais um pouco serão especiarias

E, como é sabido por quem bem o sabe, não se chega à terra das especiarias sem passar pelo cabo das tormentas. Mas, em 2016, é líquido e certo que a taxa de câmbio intercósmica fará cada tormenta valer o sétuplo em esperança. Diferente dos condimentos comercializados no século XVI, o calar e o falar no momento adequado são especiarias que não se poderão trocar por escravos.

Aliás, o lastro da moeda de 2016 serão corações livres e, portanto, complicados

O principal papel do Administrador, em 2016, será administrar mal-entendidos suscitados pelo Não, pelo Ainda Não. Pelos tirânicos sempres e nuncas que, secretamente se infiltram em nossos gestos, em nossas Faces, em nossos livros, redes e águas

Poder pensar errado em voz alta será um luxo muito mais acessível em 2016:
Sem que se corra o risco de reduzir tudo que a pessoa pode ser ao seu pensamento,
Ou ao que ela escreve o a qualquer tipo de gesto

A reciclagem de atos, palavras e omissões, sem culpa, fará surgirem muitos novos postos de trabalho no mercado porque quem não tem medo de ser jogado fora: só este abre a sela onde os tabus trancam a criatividade

Será preciso converter em investimento as moedas de 1 centavo dos arrependimentos
Porque a taxa de administração de sentimentos inúteis será altíssima

Dar o troco será perda de tempo porque a reconciliação ofuscará o brilho do ouro
Isso não significa que a prosperidade estará atrelada ao estupro da vontade: falo de reconciliação como quem fala da redescoberta do humano, do perdão que, em vez de apagar o que foi escrito, transforma os textos em palimpsestos. O perdão será, em 2016, uma nova e valorosa camada capaz de aposentar a cal e os sepulcros

A taxa de juros será reduzida a zero porque a sinceridade voltará a valer mais do que as promessas.
Ficar bem na fita passará a ser bijuteria de quinta. Os discursos funcionarão como carros a álcool: será possível começar com contradições, ir aquecendo, adicionando-se poesia e também silêncios, sem ser necessário vergonha, até o veículo dos afetos pegar.

O abraço ajudará a equilibrar o balanço contábil de quaisquer empreendimentos
E as crises serão motivo de alta na bolsa de valores porque estimularão a combinação dos inquantificáveis supracitados, adicionando à lista um bom papo e um porre mediano de tangirosca.

A antiga linha de produção será uma pálida lembrança diante do caminho de paz e de alegria que está por vir. Mais do que o carro ou o AP, as pessoas, em 2016, desejarão encontrar o seu eixo, o seu mar e reconhecer quando têm diante de si a alegria e a paz. Como afirma a fotógrafa Carolina Pires, 
é segurar no leme e ir, reconhecendo nossos mares e amares.

2016 será um ano onde os retalhos costurados com amor revelarão um novo tipo de riqueza: a riqueza caleidoscópica. Como dirá a fotógrafa Karla Vidal, o bom investidor no Ano Novo será simplesmente aquele capaz de descobrir novas formas de olhar. O descondicionamento/reinvenção da visão de mundo será o capital por excelência no ano que está por vir. Confira o esquema abaixo, referente ao investimento rentável no olhar caleidoscópico:



Confira aqui as imago-reflexões de Carolina Pires sobre seu 10 anos como fotógrafa

Confira também aqui a série fotográfica Caleidoscópicas, de Karla Vidal

27 de dezembro de 2015

Início da Restrospectiva 2016

Foto: Cláudio Eufrauisno


Retrospectiva
Por Linav Koriander

Lembrei  do poema que se reeescreve a si mesmo, toda vez que uma pessoa o visita.

Hoje, ele inaugura uma nova fase, tendo em vista que foi reescrito após ter sido visitado por mim mesmo. Meu 2015, que não me pertence, começou em 1980 e nos seus 365 dias couberam 35 anos e seis horas de treiler de vidas passadas nesta mesma encarnação.

Não foi um ano dos mais fáceis, mas aprendeu a me desassombrar. Me pôs de caverna a fora, com Platão e tudo. O espelho dos afetos se tornou convexo e projetou a imagem do amor no aparentemente destronado mundo real.

Desertei heroicamente das guerras ideológicas nas redes sociais

Morri um pouco, na tristeza de franceses e riodoceanos

2015 conseguiu também fugir-me da ditadura venezuelana, que me mantinha sob cativeiro, na capital de Cárdenas, há quatro anos. Se bem que o sequestrador, no caso, era meu próprio afeto afeito à ilusão, moldada em argila invisível.

Foi um ano em que meu eu líder aprendeu a abraçar meu eu subalterno.

Orei menos e amei mais, mas também experimentei mais fortemente o convite ao show da ira: não fui. Preferi encontros breves com a raiva passageira. Estou convencido de que em 2016 não irei à festa dos ódios, pois estou mais cansado de guerra do que Santa Tereza.

2015, deste-me a primeira pessoa que, me olhando nos olhos, disse-me que queria me fazer feliz.

E me deste a chance de encarar isso sem a expectativa de um romance rosa ou de eterno amor: como um gesto que me desreduziu das cinzas. Foi um ato de coragem porque querer fazer feliz este exilado da caverna de Platão não é fácil :). 




24 de dezembro de 2015

Anatomia da Estrela-guia


Caleidoscópica
Foto: Karla Vidal


O amor é capaz de transformar até as pedras em estrelas-guia.

Muita gente não sabe:
A Estrela-guia se move em homenagem às esperanças,
Às lutas e cansaços, e medos-coragem e quedas-reerguimentos que o ser humano mobiliza em sua caminhada

Amamos, nos iludimos,
Em regiões remotas da mente, cogitamos trair, mentir,
E esculpimos palavrões com chamas infernais
E, vez por outra, aquela preguiça de existir

Mas o amor ultrapassa a lama e o caos lançados sobre o rio doce da vida,
Vence as ambições desmedidas
Desmente as maldições
E paga o preço do resgate de nossas decisões

A Estrela-guia anseia por unir o nascimento de Cristo à visita dos reis e dos pastores
Por reconciliar o Não-é-possível e o Amém
O porquê e o Para quê
O silêncio e a canção nova
A queda e o Aleluia

Revelando o poder do amor de vencer as hierarquias e os poderes

Os mal-entendidos não resistirão diante da chegada-retorno do grande Justo
Nesse Natal, a ressurreição e o nascimento de Cristo se encontrarão para fazer Amor
Amor capaz de derrubar os muros de lamento que insistem em se erguer sobre os escombros das guerras

Não está longe o dia em que morarão no mesmo abraço o evangélico e o umbandista
O Hetero e  o Homo
O Céu e o Húmus, o Pão e a Palavra
Alfa e Ômega

Desejo que, neste Natal, a semente do reencontro engravide de coragem para vencer o impossível
Por obra e graça do Santo Espírito, de homens e mulheres

E que as crianças perdidas consigam escapar das terras do nunca
E reencontrem seus pais e irmãos
Pois o reencontro dos que se amam é a Terra Prometida que dispensa qualquer juramento

Está perto o dia em que não será mais preciso Correios e
O Papai Noel poderá tirar férias
Porque todos serão dignos de ter presente, de encontrar um lugar digno na hospedagem do tempo




Pecados de Natal: uma cartinha para o Bom Velhinho

Foto: Cláudio Eufrausino



Cartinha
Por Clistarco Sepúlveda



Resolvi cometer inúmeros pecados esse ano: pelo menos uns dez
Pra conseguir ninar o bom menino que não me deixa acordar em paz

Peco por luxúria interrompida
Será que é pecado o fato de meu olho te desejar ardentemente enquanto meu toque te remete escandalosa ternura tão somente?
Ou o quase infarto de meu abraço quando te encontra por acaso nos becos sem saída do destino

Peco por pedir desculpas por te achar bonito,
Por ter coragem de acreditar que tu achas o quase mesmo de mim

Peco, senhores, por não sentir preguiça de amar
Por marcar e comparecer
Por desmarcar e comparecer
Por não ir e comparecer: em espírito e verdade e meias verdades, tantas vezes talvez


Peço não ter medo de que fujas do meu Eu Te Amo
Ter coragem de acreditar que não tens medo de mim
Deve ser pecado também eu acreditar que posso te amar como quem te admira sempre
E, de quando em vez, dormirá contigo o sono dos que passam a noite em claro


Deixei a Estrela Guia pra ti no Zap e também o primeiro trecho de A Metamorfose de Mim
E pequei por te deixar sem palavras e ficar com raiva por teres somente visualizado a mensagem
Qual a penitência pelo pecado de reescrever a primeira pergunta desse texto:
Será que você é capaz de perdoar o fato de meu olho te desejar ternamente enquanto meu toque te remete caudaloso desejo tão semente?


Peço para começar a experimentar a sensação de não ter medo de me sentir desejado
Para desmentir o adjetivo de louco que afixaram no letreiro da minha luz
Peço, principalmente, para absolver o meu Eu Te Amo


Peco por entender que amar não é uma psicose
E que meu olhar insiste no alvo porque é uma metáfora do meu não desistir do amor
Peco por sair do asilo onde nunca entrei,
E por começar a encontrar o caminho de volta para que meu corpo dance africanamente

Ou dulcemente como uma valsa

Ou ousadamente como um tango entre dois homens, ou duas mulheres,
Ou entre um homem e uma mulher que não fecham as portas à diversidade

Peco por não mais querer sucumbir à repressão da pseudo-virilidade


Peço para acreditar que todos precisam de um bom Bom Dia e de um abraço apertado
E que o agora não começa depois de amanhã


Peco por acreditar que Cristo é um juiz nascido para não julgar
E cujo maior milagre foi mostrar que a existência humana é o verdadeiro milagre

E que dignificar uns aos outros é a ressurreição e a vida
Peço para acreditar (com chuvas ocasionais) quão possível é ao ser humano absolver a si mesmo


  
P.S.:

Pedi à Estrela de Belém de São Francisco que importasse
Dos aperreios de Deus a memória das travessuras do Menino Jesus:
Algum milagre descompromissado com a causa da salvação
Feito só para ver os olhos de Maria brilhando: não pelo milagre,
Mas pela existência de Cristo
Maria agradeceu tanto aos bois por emprestarem sua manjedoura de luxo para

Àquela criança refugiada.

Mas essa é uma outra história...

17 de dezembro de 2015

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Foto: Karla Vidal



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Por oiduálC oicélC


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Indiferença

Solidão

15 de dezembro de 2015

Quando Gregório Duvivier cogitou reativar sua conta no Face: quando percebi em mim sintomas do Fascismo


Cena do filme "Desculpe o Transtorno". Fonte: Folha de São Paulo


Calma, não achem que vou confessar ter sido cúmplice de atentados terroristas ou ataques a pessoas indefesas.

Estamos meio que acostumados a confundir o gesto de assumir a presença do mal em nós com assumirmos que somos o próprio Mal.

Como lembra Walter Benjamin, existem em nós, ao mesmo tempo, uma porta que se abre à redenção e uma porta que se abre ao totalitarismo (e, certamente talvez, a porta da redenção é mais estreita). O pensador alemão alerta (qualquer semelhança com o que Benjamin disse é mera coincidência): “Não ignoremos os gestos do outro, pois um gesto pode ser a porta que se abre para a chegada do Messias [representação alegórica da redenção].”.

Mas, voltemos aos sintomas do Fascismo, nos quais comecei a pensar depois de assistir a um vídeo de uma palestra da filósofa Marcia Tiburi sobre o Fascismo e o vazio do pensamento, do sentimento e da ação na contemporaneidade.

E cheguei a pedir perdão à Virgem por detectar tantas fagulhas de Fascismo em mim. Posto que, tantas vezes, sinto o desejo de cortar de vez o canal de comunicação. Mania de antecipar o que os outros vão dizer e mesmo pensar (se bem que isso, por vezes, é culpa de uma clarividência hereditária que me espicaça).

E cortar a chance de diálogo não tem tanto a ver com o medo da contrariedade ou da surpresa. Tem mais a ver com o receio de não saber o que fazer quando o outro descobre que descobrimos que o controle não nos pertence.

Sinto também vontade de calar como quem tenta fazer do isolamento um protesto antecipado contra uma tentativa de adiar um suposto inevitável: refiro-me ao abandono. É a falta de coragem de lidar com a dor de não ser querido em datas especiais como aniversários, natais, carnavais, sãos joãos, reuniões de acionistas, eleições, velórios... de cair da primeira divisão dos afetos amigos e também dos eróticos.

O receio de só ser querido no tempo do outro meio que me aflige muito, ou, talvez, aflija uma das ilhas da constelação fascista que emerge em mim. Meu amigo Igor estava certo quando me chamou atenção, numa madrugada bêbada às margens da Avenida Rui Barbosa (Recife-PE-Brasil-América do Sul-Terra), para o ditador que eu era capaz de ser. Mas, certamente, no céu do meu ser, as portas do Fascismo não hão de prevalecer sobre as estrelas. Que o Amém diga Anjos!

Outra característica que Tiburi descreve como peculiar ao fascista é não suportar que o outro se divirta e que sua sexualidade o faça ter momentos felizes. O fascista se deliciaria, nessa perspectiva, com o recalque, repressão dos afetos e da sexualidade. Isso porque amor livre implica descontrole, um tipo de anátema aos olhos do totalitarista.

Nisso pude respirar aliviado, sem ajuda de Vick Vaporub, pois a alegria alheia em nada (quase) me perturba. Ocorre que tenho tido medo de ser toda a alegria que posso, toda a ternura que minha potência Jedi é capaz de ser. Como se sorrindo ou abraçando ou dizendo da saudade que sinto ou visitando os outros inesperadamente, eu pudesse ser enquadrado em algum grupo de exclusão, tornando-me vítima dos holocaustos simbólicos que permeiam nossa cultura.

É bem difícil estar inserido em qualquer grupo como um divergente, um híbrido: sentindo-se alvo de olhares que te enxergam ora como digno de pertencer à turma, ora como digno de pertencer ao degredo. Como se os olhares contemporâneos buscassem abrir no outro, ao mesmo tempo, portas de inclusão e de exclusão. E, certamente talvez, a polinésia fascista de minh’alma muitas vezes teme sorrir e prefira pagar o preço ilusório da inclusão reprimida em vez de assumir o risco de dançar a alegre festa dos que assumem sua parcela de marginalidade.

Gregório Duvivier, em um texto recente, expôs as portas de fascismo abertas pelo Facebook. Mas, não esqueçamos as portas de redenção que também são abertas pelas bandas de lá: os reencontros que, fisicamente, seriam inviáveis; os lances de ternura explícita, de infantilidade reoxigenadora, de empréstimo gratuito de experiências e de curadoria recíproca extra-oficial (não só de imagens como de música e poesia). O Facebook, parece-me, também está cheio de gestos que funcionam como portas abertas à emancipação humana. É que as portas podem ser virtuais, mas o abrir e o fechar sempre são de carne e espírito.

No mais, fico feliz de ser capaz de seguir uma importante recomendação de Márcia Tiburi como antídoto ao Fascismo: beijar pessoas do mesmo sexo: não só na face e fora do Face!.



A Igor Bandim, Renata Vieira e Márcia Tiburi e Gregório Duvivier.




Leia aqui a crônica "Adeus, Facebook" de Gregório Duvivier (é preciso ser assinante da Folha, caso contrário, tente ler de alguém que postou o texto-pirata na timeline).







14 de dezembro de 2015

Um poético Foda-se

Fonte: Dygransoft



Foda-se

Por Linav Koriander

Uma mina de indiferença tua estava lá,
Vi, fui e pisei-a
Quem sabe a explosão fizesse teu telefone lembrar de mim
Quis mudar de estratégia e mandar você se danar
Você se foder mesmo (dizem que se palavrões fossem uva, mandar se foder seria um champanha da mais distinta safra)
Mas, o pior é que eu não queria que você se fodesse
Queria que você me...

Desse a chance de saber como é ser sentido falta

Desistir tão facilmente de mim não é nada charmoso
E por que perder a chance de domar meus insultos
E comprovar a tese de que seu cavalheirismo consegue excitar até uma estalagmite (porque as estalactites optaram por se derreter com os raios do teu soslaio)?

Será que só eu fui visitado pelo vírus da saudade?
O único vírus que pede licença para entrar
E nos obriga a sair
Vírus que produz a doença da cura irremediável

Sinto vontade de que nos mandemos embora pra sempre
Só até antes do Natal mais próximo
E experimentar nosso reencontro
Ao som do doce arrependimento recíproco
Desaguando numa atração incontrolável
Como a da Lua que não resiste à frágil força das marés
E se deixa eclipsar, enrubescida
Bochechas ardendo de timidez

A ponto de uma carícia tua,
Uma simples cócega profana
Fazer brotar uma falha geológica
Onde antes era mera planície
Uma falha que traga teu sobrenome
Despida de qualquer santidade

Topa carregar esta futura cordilheira nos teus abraços
E achar o mais alto de mim no nível do mar
Onde o risco de um beijo

Pode ser mais extático que escalar uma queda d’água

8 de dezembro de 2015

Por que Jesus chamava Maria de Mulher e não de mainha?: reflexões sobre a figura da Imaculada Conceição


Foto: Cláudio Eufrausino


Soa estranho quando, ao se referir a sua mãe, Maria, Cristo usa, diferentes vezes, somente a expressão “Mulher”. Algo que pode ser interpretado como um tratamento rude, machista e desdenhoso. Afinal, a cultura nordestina está habituada a reservar às mães títulos mimosos como mainha e, dificilmente, abre mão do pronome Senhora para tratar as progenitoras.

Os evangelhos relatam que, certa ocasião, Cristo foi avisado que sua mãe e seus irmãos estavam a sua procura, havendo indagado ao portador da notícia: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? ”.
Mesmo sem ser teólogo, arrisco-me a dizer sim à tentação de refletir sobre este aparente descaso e grosseria que o discurso de Jesus parece oferecer a Nossa Senhora.

Em um livro poético chamado Ofício da Imaculada Conceição – um texto escrito em latim, no século XV, pelo Frei Bernardino de Bustis – percebe-se que a Virgem Maria é, talvez, a figura bíblica à qual se faz mais alusões. Estas alusões não se limitam a referências pessoais. Abrangem remissões feitas a lugares e a objetos sagrados. Daí, a Virgem ser comparada à Arca da Aliança, à Porta do Céu, ao Trono de Salomão, a uma Cidade guarnecida de Torres, ao Lírio e também a estados corporais, como atesta um dos versos que a chama de “Saúde dos Enfermos”.

Maria é comparada, na obra do Frei de Bustis, a mulheres que tiveram destaque no Antigo Testamento, como Judite, conhecida por utilizar seus encantos para seduzir o rei de uma nação inimiga de Israel. Aproveitando-se do sono profundo pós-gozo do rei, Judite o decapita e, assim, liberta os hebreus da escravidão. De maneira semelhante, Maria consagra sua pureza a Deus, a fim de gerar a salvação do mundo, personificada pelo Messias.

Porém, as duas alusões mais interessantes associadas a Maria são o título de Estrela da Manhã e de Eva.

Estrela da Manhã, ou Lúcifer, era o modo pelo qual era conhecido o Satanás quando pertencia à corte celeste, antes de se tornar um anjo caído. Ao ser chamada de Estrela da Manhã, Maria redime a sombra demoníaca (a estrela caída) e devolve à figura da Estrela a potência imagética, associando-a um novo momento histórico: o nascimento de Cristo.

Maria também é comparada a Eva. Na verdade, ela será chamada de nova Eva, em decorrência de Cristo ser chamado de novo Adão, ou, em outras palavras, do Adão que deu certo, por representar a perfeita aliança entre Deus e o ser humano. Maria também sela a nova e eterna aliança do divino com o humano. “Esmaga a cabeça da serpente” e, por isso, ganha o título de nova Eva, nome que significa “Mãe de todos os viventes”.

É desta comparação de Maria a Eva que se pode extrair o porquê de Cristo chamar Maria de Mulher.
Na boca de Cristo, Mulher se torna um título honorífico. Maria é a Mulher, por excelência, trazendo a graça e as dores de todas as mulheres. Isso porque assumiu o risco de ser uma mãe solteira, foi uma mulher refugiada, como as mães que fogem com os filhos, tentando salvá-los de regimes totalitários. Foi também uma mulher mãe de uma criança perdida e, mais à frente, teve o filho preso e assassinado como as mães de filhos das ditaduras.

Votando ao relato dos evangelhos e à pergunta feita por Cristo: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? ”. Jesus responderá: “Minha mãe e meus irmãos são todos os que seguem a vontade de meu Pai”.

O aparente desdém com relação a Maria esconde outro elogio: a figura de Maria não se resume a um só momento histórico. Ela encontra reflexos nos gestos de homens e mulheres do passado e do futuro, que, assim como ela, assumem o risco de fazer escolhas que permitam nascer o amor e a luta pela emancipação humana.

É uma figura que não fica presa a uma só referência, mesmo que esta referência seja ela mesma. Por isso, Maria de Nazaré assume a feição de inúmeras Nossas Senhoras espalhadas pelo mundo inteiro.

6 de dezembro de 2015

Uma cantada quase pré-feita



Fonte: Labcriativo


Cantada
Por Cerevenise Stür

Passeando pela beira de um abismo, encontrei uma camisa gola polo e puxei conversa

- É lindo esse rapaz dentro de você. Sim, esse mesmo que não vai ter chance contra o meu beijo.

Acanhada, a camisa quis se deixar abotoar até a garganta de seu hospedeiro

Insistente como sou, perguntei:

- Você não poderia dar uma saidinha com esse Jeans antipático
E me deixar a sós com seu refém? Aproveita e desliga também o samba-canção
Pois nos bastarão os silêncios destemidos, de gemidos, os silêncios gêmeos.

A camisa, a calça e o samba-canção estavam apreensivos, pois à beira do precipício
Havia muitos perigos, dentre os quais o frio, a paixão e o principal: o perigo de alçar voo.

Um par de tênis alados fincou pé e não quis nos deixar a sós de jeito nenhum
Não tive saída a não ser colonizar o corpo nu daquele homem semi-precipitado
Isso porque com um breve piscar de olhos, ele revelou que eu era o donatário dos seus sonhos
E que só alguém como eu teria moral para capitanear sua hereditariedade nesta encarnação e na próxima

Aquele moço nu e calçado me disse ter receio de eu não saber
O momento de rezar a prece do ir embora e
E o de cantar a blasfêmia do retornar

Pense num cabra idiota:
Tinha asas nos pés
Um amor à sua frente
E ficava se preocupando com as roupas que partiram
E com os olhares vigilantes do céu e do abismo


Tudo que eu queria era armar uma cama flutuante
Mandar minhas roupas irem ver se a esquina estava lá em mim
E ficar nu em solidariedade à safadeza daquele par de tênis

Nisso, algumas questões me atormentavam:

- Será que dá trabalho transar voando?
- Será que fazia perigo de o orgasmo nos lançar na estratosfera?

- Será que estávamos sendo justos em desligar o abismo com o nosso fazer amor?

3 de dezembro de 2015

Aviso de despejo para Nietzsche, Dostoievski e Schopenhauer

Caleidoscópica
Foto by Karla Vidal


Tire, por favor, Nietzsche, Dostoievski, Schopenhauer e Pessoa do apartamento
Porque quero que estejamos a sós no mais recente capítulo da descoberta de mim mesmo
Não falte nessa festa porque preciso do teu silêncio introspectivo para fazer meu mundo dançar desavergonhadamente
E de nosso segredo para te embriagar, você que é o mais ilustre convidado a em mim penetrar:
Tu e tua sobriedade despudorada

Se estivesse frente a frente contigo numa luta
Trocaria qualquer zanshin por um abraço teu
E que bom seria se você topasse ouvir o quanto te desejo
Sem se sentir obrigado a me amar
Pois o erotismo que se acende em mim quando estás por perto
É acionado por tua liberdade, simplesmente

Não me cansa, duas ou três vezes três vezes por semestre,
Vencer teu impulso de acabar a conversa depois de 10 minutos e ir embora
Levando consigo o ramalhete de avisos prévios

Quero tanto ter a sensação de que minhas mãos, meu olhar e meus encantos
Estão no lugar certo e de que meu Eu te amo não te fará crer tolamente
Que quero fazer de ti um escravo
Mas, certamente talvez, a Lei Áurea seria reassinada por nosso abraço tímido e quente

Parados na esquina, entre a insônia e o acalento, nossos bateres cardíacos dançando de rosto colado
Ensaiando o sono dos justos em fartos clímaxes

E olhar tuas sobrancelhas disputando com teu sorriso o topo no pódio da lindeza
Liberta a angústia e a ansiedade dos meus eus
(Se bem que, tua inteligência faz o segundo lugar ficar o,99999999999999... nanômetros acima do primeiro)

Acho que poderia te amar em segredo a vida inteira
Pra não afugentar teu campo magnético que excita todas as pétalas do meu vórtice
Mas se meu beijo esquimó pudesse dividir o leito com a maçã do teu rosto por um quarto de hora

Meu mar desaguaria no rio, no choro, no sinto, no (re)vivo

25 de novembro de 2015

Navegar é preciso! Apaixonar-se é preciso?: a viagem de circunavegação de Fernando de França



Jardim Botânico de Recife
Foto: Cláudio Eufrausino


Viagem de Circunavegação pelo Jardim Botânico


Tortura agridoce esse Gostar que me visitou
Enquanto o Jardim Botânico estava descansando em mim
Me digam se não é fácil se apaixonar por alguém que se encontra
Numa trilha interditada a visitação!

A ternura não rima com loucura à toa
Ser terno é ser louco nos dias de sempre, traje ultrajante para o baile dos terráqueos
Ninguém é terno porque quer
O alfaiate do universo, que costuma nos pregar peças, é que nos escolhe para remendar
os desertos da existência.

Fique na sua, disse-me uma abelha africana intrusa na Mata Atlântica do Jardim Botânico de Recife
E comecei a entender que a paixão pode ser um erro
Pois, na hora de fugir, teus amigos, teus amores, teus compatriotas
Temendo tua paixão e tua ternura
Lançarão sobre ti um bloqueio mais continental que o napoleônico
Te deixarão em Portugal

Como ele era lindo
Seu sobrenome era De França
Os dois sóis, o do Jardim Botânico e o da Cidade Luz, quase entraram em curto quando ele passou diante do meu olhar
E o jardim refez todas as suas trilhas
E mandou um zap para o oceano,
Recomendando que ele refizesse, em solidariedade,
Todos os seus horizontes

Devo dizer que aquele Fernando de França, inspirado talvez pelo de Magalhães, circunavegou meu eu desprotegido
Ternura à vista, sussurrou ele com seus dois remos esquerdos!
E faltou pouco para este eu acreditar que desta vez seria colonizado

Mas, a minha poesia inútil
Só tem forças para me apaixonar
E como uma cientista cruel,
Depois prova por A +ou- B
Que sou um tolo, porque quis ir para o Brasil
Com meu amor, mas
Ele não me quis apaixonado
Tinha medo que o navio afundasse
Nisso, Maria, a Louca, levou vantagem,
Porque todos queriam que ela embarcasse
Mas, ela e sua paixão resolveram ficar em Lis não tão boa...

23 de novembro de 2015

Poema da Proposta Indecente

Jardim Botânico de Recife
Foto: Cláudio Eufrausino


Proposta indecente
Por John  Sedasphord

Medo quando tua proposta demora muito tempo a bater na porta
Da minha existência morna

Medo de que eu morra antes de chegar o momento em que possa esquentar meu ouvido externo
No teu colo

Meu ouvido interno no teu sussurro

Antes que possas acampar à minha porta dos fundos

Tenho coragem de descansar meu beijo nos teus lábios
E acreditar que não sou digno de nojo, enquanto tua sinfonia
Não me deixa esquecer que meu corpo espera ansioso que possas nele te acidentar

Não se afaste, pois me excita te ver suportando tão destemidamente
Meu orgulho e minhas cicatrizes coadjuvantes

Me parece que todo neurótico que se preza guarda na manga
Pelo menos uma proposta indecente

A minha é a de que me ajudes a acreditar que não sou
Indigno de ser

Percorra
As minas orgásticas plantadas na linha do meu destino
Que eu possa dormir meu cangote na tua carícia
E hibernar meu rosto no teu peito

Minha proposta indecente é que lembres de mim daqui a um ano
E não esqueças de mim nas próximas 24h

A indecência chove de meus poros ciosos pela tensão superficial de teu quase toque
Ela propôs rasgar a tradução juramentada do ouro em diamante
Só para ter o prazer de te amar gratuitamente
Sob o risco de tuas intempéries

É uma indecência que não consegue esconder o quanto te acha incrível

19 de novembro de 2015

Nossa Senhora da Lama, rogai por nós, d'accord?

Fonte: Youtube


Nossa Senhora da Lama,
Apareces em tantas pátrias
Abençoa-nos os párias, pois a indiferença nunca será páreo a ti
Tu que és linda, negra, loira, japonesa, holandesa, francesa, mineira, África, etc e também taribenha

Nossa Senhora dos amores que um dia foram desiludidos e hoje são ex nunc
O fato de seres Aparecida não te impede de seres de Lourdes
E consegues brotar tanto na primavera árabe como no inverno francês
Porque a sombra de Deus te reveste
E, por isso, tua luz é poliglota

Rio doce, quanto da tua lama são lágrimas da França?
Porque o Espírito Santo ouve a dor em todas as línguas ao mesmo tempo
E para a dor não existe campeonato: oráculo do Senhor.

Mãe Aparecida, onde chegas o sol brilha para curar
Desmentindo a onipotência das bombas nucleares
Aparece de um jeito que possa desmentir também os homens-bomba
E os bombados que se acham donos dos Vales e dos destinos
E que, já velhos, desdentados e com a boca abarrotada de dentes de ouro, brincam impunemente de Boca de Forno: “Seu Rei mandou vocês fugirem!”

Espírito Santo, tu que és a inocência do Deus-Menino,
A dúvida redentora do Cristo quando ele cogita afastar de si o cale-se
Inunda de águas vivas o lado negro da força cartesiana
Para que o ser humano não se torne descartável, rejeite preso às barragens de qualquer
Rio-Mar, do dessoriso, do só riso

Santa Maria, Mãe do Espírito Santo, rogai pelos nós: os brasileiros, os franceses, os islâmicos, por todos os nós

E que os nós possam se desatar, afastando o nós da tirania do eu, ajudando-o a se lembrar como é ser uma pessoa de primeira, plural



18 de novembro de 2015

O Homem-bomba que desexplodiu quando se apaixonou


Foto by Guto Noronha


O ex Homem-bomba
Por Absalon Sina-El

É lindo o teu jeito de não desistir de mim

Todas as vezes em que foste abduzido
Ou os extraterrestres explodiram tudo ao teu redor
Não conseguiram te fazer esquecer do meu nome invisível
E quando meu mundo de sonhos ruía, lá bem perto de onde o fim
Deságua no nunca mais
Lá, tu enfrentaste a correnteza do deserto
E me resgataste só pra me fazer respiração boca-a-boca, seu devasto

Eu te amo
Porque compreendeste quando eu ligava sem me identificar
Em busca do instante em que teria coragem de dizer que estava a fim e a reinício de ti
Coragem de arriscar te perder, te ganhar, antes de sequer ter me achado, me vencido

Minhas vergonhas e segredos inconfessos quase se ajoelharam diante da esperança fervente
Mas, o amanhã, que não precisa de súditos, perdoou os devedores que estavam escondidos em mim
Só não teve absolvição plenária o medo de não ser mais achado por ti
E o mais incrível é que não desististe de emprestar tua nudez e teus pontos fracos a este pecador

Que escreve com a mão que, em vão, tenta substituir pela escrita o desejo aprisionado de te tocar 

Com tua ajuda, meus eus que se auto-punem
Repetidamente, ao longo de uma linha do tempo minada por infinitivos,
Tem experimentado a conversão ao anti-terror
E uma bandeira franco-brasileira trêmula ao som de nosso insondável abraço
A Faixa de Gaza torna-se sala de baile, onde valsam nossos beijos,
Que já não se lembram mais de qualquer vestígio de muros ou lamentações.

Foto by Karla Vidal


12 de novembro de 2015

Dando férias à poesia


Frida Kahlo - Paul Lovering


Talvez, alguns sistemas solares achem descanso
Com as férias de minha poesia
E por que sinto que, quanto menos o amor trabalha, mais cansado se torna o amanhã?

Minha poesia é ridícula, radicularmente ridílouca
Não a culpo, ela somente luta pra sobreviver a uma reforma
Que a fará deixar de ser sala de espera

Poesia que prefere não se enganar
Mas, soa estranho aos olhares prosaicos ler uma poesia desenganada, porém revivescida

Sinto esse poema tão igual a tantos outros tantos
Mas, o sol se parece tanto com ele mesmo todas as manhãs
E, nem por isso deixa de ser absurdamente incomparável

Os poemas costumam ser propostas indecentes
Vândalos que pedem licença para entrar
Mas jamais são estupro

Depois das férias,
Minha poesia órfã apagará o nome de Alguém de suas linhas viúvas

Queria perguntar a quem lê se é muito criminoso tomar a iniciativa:
Ligar para quem não atende;
Escrever para quem não liga;
Marcar com quem espera que caia do céu algum imprevisto para não comparecer ao encontro
Mendigar para quem só dá o que tem

É uma arte perceber que a chatice não opera sob o regime de monopólio
Assim, diminui a culpa de quem, no fim da visita,
Isto é, logo depois de tocar a campainha, sente-se inoportuno

Mas, saiba:
Posso dizer agora que desejo que nossos humores se misturem
Sobre a tela de nossos corpos nus e envolvidos
Mas entre o dizer e o fazer, a valsa do querer recíproco (ou tricíproco, ou quadricíproco...) será sempre o liame
Pois a poesia pode tirar férias, ser ideologicamente falsa, perder a memória,
Mas, o impulso da lealdade continuará correndo en mis venas

Sabendo quem é e de qual veio veio.


6 de novembro de 2015

Com vocês, a nova Barbie: feminismo aberto ao contraditório



Uma provocação inteligente é suficiente para me retirar da inércia. Assim foi com a nova campanha publicitária da boneca Barbie.

O anúncio traz meninas em posição de liderança profissional (fazendo às vezes de médica, mulher de negócios, técnica de futebol, guia de museu), exibindo uma mistura de fofura e autonomia. Depois, estas crianças aparecem brincando com a Barbie, numa espécie de ensaio para seu futuro de mulheres autônomas e bem-sucedidas.

Trata-se de uma campanha onde atua o fenômeno da redução mítica, identificada pelo filósofo Umberto Eco nas histórias em quadrinhos da turma do Charlie Brown, escritas por Schultz. Nessas histórias, os mitos (entendidos, aqui, simplesmente como narrativas que estruturam a sociedade e têm caráter recorrente ou cíclico) ligados ao universo adulto, a exemplo do mito do homem de negócios, são revestidas de atributos do universo infantil (e redução, nesse caso, significa transposição). E essa coexistência contrastante entre o adulto e o infantil estimula, na opinião do pensador italiano, a reflexão crítica no seio da cultura de massa, que tenderia a solapar a criticidade.

A nova campanha publicitária da Barbie é uma proposta feminista que não escapa da tradicional receita patriarcal da garota que precisa ensaiar para ser mulher.

26 anos atrás, bem antes de Simone Beauvoir ser convidada a se tornar tema de redação do Enem, Yoná Magalhães representou, na TV, uma das personagens da novela Tieta, adaptação de Aguinaldo Silva para o romance quase homônimo de Jorge Amado (Tieta do Agreste).

A certa altura da trama, a antes maltratada e subserviente Tônia, recém-viúva, regressa do Rio de Janeiro para as dunas de Mangue Seco, desfilando uma incrível transformação, cujo pano de fundo era a música Uma Nova Mulher, de Simone. Com mais de 50 anos, Yoná Magalhães ilustrava uma canção cuja letra falava no desejo da mulher de poder sair das sombras e colocar no coração dos homens a sede de paixão, com segredo e malícia.

Em contraste com esta vocação feminista, o vestido azul de Tônia remetia ao dogma da Imaculada Conceição. Ou, talvez, o contraste seja aparente, tendo em vista que a Virgem Maria assumiu riscos/voos tipicamente feministas há mais de 2 mil anos.

Uma fórmula do feminismo resumida no apelo: “Deixe-me ser livre para o amor”. Passado tanto tempo, esse apelo, hoje, ganha voz entre homens e mulheres. Afinal, parece-me, 26 anos depois da queda do muro de Berlim, a (falta de) liberdade de amar continua sendo utilizada como muro para separar homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, dentre outras dicotomias que surgem pelo caminho, a exemplo de fiéis versus infiéis. ´

Do enfrentamento de preconceitos contra a mulher, creio eu, nasce potência para o enfrentamento de preconceitos relacionados a outros grupos sociais, assim como do enfrentamento do preconceito contra os negros.

O que parece que estou querendo dizer é que o enfrentamento de um preconceito é uma flecha capaz de atingir diversos alvos ao mesmo tempo. Nenhum preconceito está sozinho como nenhum enfrentamento é unidirecional. E não cabe no enfrentamento do preconceito o fingir que a contradição deixou de existir.

Até mesmo a Barbie, tradicional reduto simbólico da verve machista, tem direito a abrir seu flanco para acolher o enfrentamento da tirania. Mas, a mesma Barbie nos adverte que enfrentar preconceitos sem assumir as contradições só gera idealismo ingênuo, terreno fértil para recaídas reacionárias e retomadas triunfais de preconceitos, que nunca morrem: só hibernam.

28 de outubro de 2015

Crônica do amante amigo

Foto by Kotaro Kawano


Crônica do amigo amante
Por Clistarco Sepúlveda

Amante de minh’alma:
Parece que era assim que os santos em êxtase se referiam a seu amigo Jesus
Permita-me, Senhor (permitam-me, senhores)
Usurpar farpas desse elogio à divindade
E aplicá-las a um amigo terreno, tão querido
Isso antes de o corretor ortográfico ou a timidez resolver confiscar minhas palavras

Uma coisa é certa, por mais fora do padrão que possa parecer
Eu faria amor com você
Se você prometesse que não deixaria de ser meu amigo depois
E prometesse não jurar, porque o juramento é antessala da mentira

Eu mergulharia no teu abraço como uma pérola
E ensaiaria o paradoxo de te ter dentro e fora de mim,
Mesmo sabendo que estás no meu megalopolita interior,
Antes d’as portas terem sido abertas

Faria amor com você, amigo amado
Se isso pudesse ser um segredo a três
Porque por mais que o céu do teu colo me seduza
Quero continuar sonhando em ser padrinho do teu casamento

Quando teus silêncios me contaram que querias achar uma palavra para me fazer feliz,
A beleza se deu uma nova chance no meu rosto

Teu carinho intima os amores platônicos a se libertarem de minha gaiola de ventos
Meus ventos a se desalgemarem das culpas
E meus confessionários a se converterem em salão de festa

Sou tão grato por compreenderes que o espetáculo da nossa amizade
Não precisa ter medo dos intervalos de excitação, de hesitação
Do desejo de fazer sexo com tua companhia
Enroscado nas dobras de teu magnetismo
Peito aberto a teu beijo de falésia

Amigo, não me impeça de me sentir atraído por você
Do intelecto aos pés
E que possamos seguir juntos
Ignorando os futuros que possam querer interferir
Até que a última fileira de combatentes do xadrez
Anuncie nossa velhice e denuncie nossos abraços semi-apertados
Em respeito à ação proustiana do tempo sobre nossa ossatura recíproca





18 de outubro de 2015

Poema do Horário de verão

Foto de Luci Correia



Horário de Verão

Por Linardo Kleto

É véspera do dia em que nasci
O horário de verão (ou de outono, dependendo do hemisfério) redesenhando as linhas do destino
No cosmos, no meu rosto, nas mal traçadas palmas de mi manos

Na fila dos amores, tu és o primeiro
Ao mesmo tempo segundo (sol)
E terceiro (dia): ressurreição

O seguinte da fila está a muitos anos-luz daqui
Onde em lugar do meu coração, bate o tédio
Em marcha morna

Só tua arrogante presença, em carne, osso ou perfil facebookiano
Pra fazer a luz valsar, caligrafando os sonhos manuscritos por este rascunho chamado alma

O arrogante mais lindo que a face oculta da doçura já inventou (És)
Teu colo é refúgio para minhas folhas caducas

Descobre em mim, amor
Como o dizer, aparentemente, a mesma coisa (ato falho?)
Pede emprestado à poesia da lua cheia
A inesgotável novidade do eterno retorno

Tu me és tão presente
Te amo em teus 25, 26, 27, 28, 29, 30
E espero que a prorrogação continue
Pois te ver lindo a cada ano que passa
Enche-me de vida súbita

Será que, agora, aos 35 do primeiro tempo
Você vai achar um tempinho pra me amar do teu jeito
Displicente, nômade, ariano?

Quero te dizer que o laço do presente, este ano,
São teus primeiros fios de branco
Charme que seduz o futuro nas linhas de minha mão

E ensina meu cafuné a ler em braile

12 de outubro de 2015

Carta sem remetente a Nossa Senhora

Nossa Senhora
Fonte: Ave Luz


Costumo falhar quando o assunto é fazer chegar minhas correspondências às pessoas que amo
Perdoe-me, Baudelaire!
Perdoe-me, Maria, pelas flores do mal que meu corassão sementeia a teus pés

Minto a idade, assisto pornografia esporadicamente, talvez,
Julgo precipitadamente (mas guardo os veredictos no compartimento secreto de meus bolsos)
Deposito poemas secretos na timeline do Facebook
Insisto em ter esperança de que serei amado por quem amo

Não sei como, diante de tantos senões, sinto-me convidado pela Senhora da Luz a
Cantar para ela
E quando eu canto a Salve Rainha, minha mãe te vê dançando, Nossa Senhora
Que honra sem tamanho,
Pois quero poder te presentear com a leveza da dança e ajudar teu coração imaculado
A esquecer por um minuto que seja as dores das espadas, o peso de, por amor,
Fazer-se nossa intercessora

Há quem dirá: “Diga Adeus aos intermediários”
Eu digo: Deus me livre e guarde
Obrigado, Mãe, por interferires com teu silêncio glorioso
Nos rumos da minha oração
Contigo, aprendo sempre que o silêncio orante é o supremo alicerce da poesia

Tenho certeza de que Deus não se importa de seres chamada Mãe de Deus
Porque ele não é tacanho e ele quis que os seres humanos fossem co-artífices da redenção
E tu és sempre tão humana, errante, peregrina, mais que padroeira, refugiada em tantos países
Chorando com as mães os filhos mortos paridos pelo mar sem fim
E os desaparecidos ocultos neste fim sem mar

Rainha, tu que vences o dragão, intercede para que nenhuma Drag Queen seja assassinada
Por algum infeliciano
E para que nenhuma criança seja apedrejada por, em vez de te chamar de Maria, te chamar de Iemanjá
Rainha do novo mundo,
Tu, que aceitaste o risco de seres chamada de prostituta e apedrejada
Para que chegasse à terra Aquele que ensinaria a esperança a germinar dos corações
Rainha porque teu manto recobre virgens e putas e divorciadas e transexuais: homens e mulheres: humanos

Sempre soube que existias, antes de saber quem eras
Porque ajudaste os tiros que, sem pedir licença, entravam em minha casa,
A desistir de nos matar
Intercede, mãe, pelas futuras vítimas de balas perdidas
Pelas crianças perdidas
Por Peter Pan

Agora e na morte de nossa hora

10 de outubro de 2015

Presente de a(d)niversário antecipado


Futuro do presente

Por Jose Luis Paredis

Perguntado por Iara sobre contra quem estava apaixonado, respondi que estar apaixonado é como esperar um presente de aniversário do seu adversário mais querido. Mas, como é sabido por quem bem o sabe:

O melhor presente de a(d)niversário é o que damos a nós mesmos

Escolhi me dar de presente continuar amando-o
Sinto muito, mas a linha do tempo
Tornou-se prateleira e estava nela exposta o novo perfil dele: depois de ter baixado a guarda
De seus óculos escuros
E a face da terra se renovou olhada pelos teus olhos castanhos

Era um presente dentro do outro e eu já não sabia
O que era mais presente: se tua beleza ou tua
Felicidade ou a promessa de voltares ou a profecia
Que antevê tua chegada em primeiro lugar
Como quem ganhou a corrida só pra poder
Estender a mão e salvar a vitória de cair para cima
Sim, meu anjo, teu rosto sereno livra o abismo
Da obrigação de ser “de profundis” e o céu de ser cume

Pensei em pedir a cura pra minha loucura,
Mas as palavras são só partitura do meu carinho à
Distância e, hoje, chego a entender que
Minha única doidiça é não ter vergonha desse gostar suturado: gostar sem ser correspondido

Todos os além-do-tempo que me dás, embrulhados numa só embalagem: a graça do teu existir

Me dá a honra de dançar contigo a valsa da distância por mais um ano?
E assim não perder a coragem de rezar por meu próprio coração
Mas, se quiser deixar um selo de troca no presente, posso trocá-lo por tua presença
Ou, talvez, pela chance de

Dormir abraçado com teu sonho e acordar teu beijo de Bom Dia!

30 de setembro de 2015

Sobre o sentimento, a espada e as crises de falta de ar de Guilherme Tell

Gravura ilustrando o arqueiro Guilherme Tell




Aula de Katana com Guilherme Tell 

Por Kleto Vide


Ao teu lado seria um ótimo lugar para o sinto-me estranho ficar à vontade
Treino com espadas que martelos de vento e lágrima não param de forjar
Afinco em aprender a arte de tornar-me indefeso

Foge-me o ar neste exato agora
Que teu abraço me embainhe e teu beijo me desafie
Só quando sou desafiado por tua companhia
Torno-me capaz de abalar as cortes

Mesmo sendo corte cego, em ti confio  

Teu sorriso tímido tenha força para cultivar a descortesia
O suficiente
E assim trazer oxigênio para o atrofiado pulmão da conveniência
Vontade de vento, afinco. Agora me desafie

Só tu és capaz de me abalar
De reinaugurar minha respiração
Mais profunda, a fim de furtar a camada de ozônio
Para mobiliar o fôlego dos anárquicos

Mas, antes da mudança chegar
Empresta-me teu fazer amor
E embala-me em teu abraço concha
Até eu esquecer o máximo que for possível
Que os alicerces dos sete mares ruíram

Teu Até Segunda me protege

E, graças a Deus, o futuro sem ti está por um fio


20 de setembro de 2015

Por que deixaram Bridget Jones viúva?

Cena do primeiro filme da série Bridget Jones

Amor, tu conheces Bridget Jones? Às vezes, eu pareço muito com ela e te acho parecido com Mark Darcy, seriamente lindo. Em vez de usar uma camisa com uma rena de natal estampada, você costuma (costumava) usar uma camisa com a logo Star Wars e futuramente usará uma camisa do Hulk, que lhe será dada por mim. Mas, diferentemente de Darcy, não precisas ser advogado, nem mestre e me fazes descobrir o significado de amar alguém como ele é e será.

Por que Helen Fielding assassinou Mark Darcy? Qual terá sido o prazer sádico de destruir a história de Bridget Jones? Bem, descobri que Darcy morreu só agora, dois anos depois.Venceu o prazo de validade do luto, porém são imprescritíveis as lutas interiores contra a decepção. Nada que uns bons coups de vent e de saudade não abrandem.

A úlitma parte da trilogia de Bridget se passa cinco anos após a morte de Mark Darcy, quando a personagem, aos 51 anos, supera a dor da perda depois de se apaixonar por um jovem vinte anos mais jovem que ela. O livro não recebeu boas críticas, tendo sido classificado por alguns jornais como decepcionante, sem o humor dos anteriores. O "The Guardian", por exemplo, considerou escandalosa a morte de Darcy.

Assim como descobri tardiamente a morte de Darcy, descubro todos os dias, há 4 anos, que permaneço capaz de amar à primeira vista quem me ensinou a me comunicar em Francês: não com os franceses, mas com minha alma analfabeta.

Mas, diferentemente dos livros, na minha vida, Mark Darcy não morre e divide comigo sua felicidade cheia de altos e baixos e disposta a me dar uma carona com as bênçãos de Clio.

O maior P. S. já escrito

Quero pedir licença a Godard para te sequestrar de um de seus filmes, te contrabandear de Paris. Paris passará a ser uma cidade à meia-luz. Mas, hoje, sou capaz de me dar ao luxo de tomar uma taça de egoísmo tinto, safra 1980, e me embriagar de presença tua. Dane-se, então, Paris e sua crise de abstinência, posto que quem te tem por perto não consegue esquecer a sensação de ficar saciado bebendo sede de justiça.

Se quiseres, faço da minha cama uma encruzilhada onde nossas nudezes se chocarão com tanta veemência que as feridas de nossas almas fugirão assombradas. O impacto do acidente será tanto que fará os pacientes de hospitais, asilos e manicômios terem alta num raio de distância de pelo menos 777 milhas oceânicas.

Fiz um curso de cerimonial e aprendi a montar um jantar à francesa e senti tanta vontade de ligar pra te contar, mas ainda não tenho teu telefone, nem sei teu endereço. Mas, me sinto tão ligado a ti como se os beijos e abraços que ainda daremos me fizessem esquecer como é viver sem ternura.

Problema da jovem que foi perturbada por um bêbado naquela ruazinha parisiense. Fiz questão de desembarcar no teu passado para te roubar daquela sonsa. Duvido que ela saberia, como eu, deixar excitados além do teu corpo teus silêncios, teus até logos, teus agora-nãos e teus Pour-quois-pas?
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