13 de abril de 2018

O 5º mosqueteiro,as muriçocas e o grito do rio Ipojuca no reino de Caruaru




O ataque das muriçocas em Caruaru é digno de causar inveja às pragas do Egito. Mas, o zunido das muriçocas é somente o eco do grito de agonia do rio Ipojuca, que corta a cidade. Este é o assunto do novo vídeo/desabafo do canal Acedia:


1 de abril de 2018

Ressurreição sem vergonha

Foto: Karla Vidal



A morte não pôde Te manter preso
Ela pôde se olhar no espelho quando a tampa do sepulcro pipocou
A morte, tão injustiçada e execrada,
Sentiu-se fazendo sentido

Vestiu-se de ponte
Os brincos eram uma pista de voo
Os ecos das maldições foram despedaçados

A maldição, que parecia beijar teus calcanhares,
Converteu-se em espuma de mar vertido da taça do crepúsculo

Uma voz interrompeu a Páscoa e me mostrou pessoas amadas sendo
Atropeladas por infratores alcoolizados,
Sendo executadas
Estupradas
Banidas de seus países
Muitas crianças feridas, fugidas, antes de aprender o significado da guerra sem sentido

A voz me pediu para ser eleita presidente
E tentou me comprar com um ramalhete de fuzis
De certezas efusivas
E me perguntou: e agora que é com você?

A voz acusou o beijo que ainda darei no meu grande futuro amor
De querer acabar com a família, a honra, com a ordem e o progresso
Com os raios fúlgidos do berço esplêndido

Era uma voz burra, porém convincente

A voz não se contentava de ver os mortos pregados na cruz
E lutava para convencê-los de que morrer não era o suficiente
Para aplacar o nojo que sua existência inspirava
A voz era baixa, porém gritante
E acreditava, impiamente, que, sob sua vigilância,
A blindagem do sepulcro era infalível

De repente o silêncio de Nossa Senhora
Comoveu a rocha sepulcral
E um anjo chamado Metatron
Retirou uma onda de sua bainha
Uma espada que ensinou todas as armas
A desferirem

O salmo 90 dedilhou um acorde nos raios cacheados
De um sol que andava em pé de igualdade com a lua
E um beijo livre para o amor de qualquer maneira
Caiu como uma pétala de luva

A antiga voz, sem se dar conta,
Sorria porque a tampa do sepulcro
Havia descoberto que desde o início
Era reticências sem jamais desde sempre ter sido reticente

Cristo ressuscitado fez todos os estupros,
Homofobias, execuções e guerras desmoronarem

Suas vestes alvinegras respiravam o aroma de seus cabelos,
Cujas mechas eram feitas da luz de reencontros
Pôde a esperança enfim brincar à sombra do inexprimível
Da palavra vulcânica

Ao lado do Ressuscitado, o futuro amor, futuro do presente,
Que não se pode apagar, de graça, me chama

31 de março de 2018

E se Cristo não votar nem em Lula nem em Bolsonaro, Facebook?

Crucifixion
Fonte: Monastery Icons



Foi durante a Revolução Francesa (1789), na Assembleia dos Estados Gerais, que a divisão entre esquerda e direita foi aplicada pela primeira vez com finalidade política. A nobreza sentada à direita do rei e o terceiro estado, a plebe, sentada à esquerda.

Daí por diante, os termos direita e esquerda vêm sendo utilizados para classificar posições políticas expressas por meio de ações e de opiniões.

Recentemente, disputas ideológicas nas redes sociais têm promovido uma estranha mistura entre posicionamento político e posicionamento religioso, retomando a imagem bíblica segundo a qual à esquerda de Deus ficam aqueles destinados à condenação: o joio a ser lançado ao fogo eterno. Já à direita, ficariam os condenados à vida eterna (calma, isto é só uma ironia, à moda de Mário Prata!).

A tal con-fusão entre política e religião corresponde outra con-fusão: entre conclusão e premissa.
Reza a “lenda”  greco-latina que a conclusão deveria ser fruto do debate onde o confronto entre argumentos, colocando à prova as premissas dos debatedores, aponta para a conclusão.

Mas, nas redes sociais, onde o pseudo-debate tem sido a bola da vez, os comentários aparecem como uma passarela onde desfilam premissas surdas ao contra-argumento, como se fossem herdeiras dos mandamentos gravados por Deus nas tábuas da Lei. Nas redes sociais, não falta quem alegue ser viúva de Moisés ou de algum profeta.

No debate sincero, as pessoas se permitem ouvir umas as outras, com os ouvidos da mente e do coração, e duvidar de suas certezas, com o coração e com a mente.

Li uma postagem no Facebook, falando sobre a intenção de Jair Bolsonaro, caso eleito presidente, fazer do ator Alexandre Frota ministro da cultura. Nessa postagem, um eleitor de Bolsonaro se posicionou contra a referida intenção. Logo apareceu um comentador insinuando que o eleitor de Bolsonaro seria a favor de exposições onde crianças fossem expostas à nudez (uma referência a uma polêmica exposição em que uma criança tocou o corpo de um modelo nu ).

Outros comentadores poderiam ir mais longe e dizer que alguém contrário a Bolsonaro, mesmo que pontualmente, seria a favor da pedofilia e, portanto, de esquerda, com base na premissa de que a esquerda é a favor da dissolução da família.

Indo um pouco mais além, um último comentador poderia concluir que a pessoa que se posicionou contra a intenção de Bolsonaro não é cristã, por ser de esquerda, e, portanto, a favor da dissolução da família, da libertinagem, da pedofilia, da homossexualidade e etcs nada cristãos.

Perceba-se que a argumentação, cujo papel é questionar as premissas e oxigenar a reflexão, é substituída pela tortura asfixiante de uma determinada posição. E os instrumentos de tortura passam a ser premissas que acreditam ser conclusão quando, na verdade, são pressupostos que almejam o status de dogma.

Assim, se uma pessoa questiona uma determinada opinião de Bolsonaro, logo terá seu questionamento implicitamente classificado como heresia e condenado à tortura, a ser açoitado por pressupostos dogmáticos disfarçados de argumentação. E nessa “ágora” fascista, a fogueira das vaidades antecede o julgamento e reduz a cinzas o direito ao contraditório.

Nesta semana santa, descobri, no Facebook, que Cristo é de direita e é eleitor de Bolsonaro e quem questiona Bolsonaro é de esquerda e, portanto, contra a Bíblia e contra Cristo.
Mas, não me preocupei, porque o próprio Cristo foi considerado um anticristo por ter questionado se valia mais a pena guardar o sábado do que fazer o bem.

Cristo era a favor da igualdade, sentava-se com os considerados indignos e era a favor do desarmamento (“Aquele que vive pela espada, pela espada morrerá”, disse Ele). Sendo assim, Cristo discorda de um ponto central da plataforma de Bolsonaro. Por isso, seria ele de esquerda e, portanto, não seria cristão?

Cristo morreu para que sua mensagem não fosse reduzida a nenhuma plataforma política, mas, agora, a sua mensagem tem sido reduzida a pasto que alimenta o gado comandado por doutrinadores que mal esperam pelo momento de usurpar o lugar de Jesus à direita do Pai.

Fico pensando o que aconteceria se Cristo dissesse que não é contra humanos que se beijam na boca: mesmo que sejam do mesmo sexo.

Se isto acontecesse, Cristo seria condenado a não poder mais proferir bem-aventuranças? Seria a paz de Cristo considerada suspeita e jogada na masmorra? 

Se Bolsonaro for eleito, a cruz deixará de ter dois braços, sendo reduzida ao lado direito?

Se Cristo quisesse votar nulo, a Bíblia precisaria ser reescrita ou simplesmente algum supremo iria impedi-lo de retornar no dia do Juízo Final?

4 de fevereiro de 2018

Como se declarar a um desconhecido

Mandacaru by Karla Vidal


Quando eu te conhecer,
Será que serás muito outra pessoa?
O que me espera após atravessar esta serra?
Poderei ser contigo meu eu capaz de rasgar a vestimenta
Da própria nudez?

Quando eu me apresentar,
Não estranhe porque quanto mais doce é meu sol
Mais inflamável é meu sou
Talvez, isso te atraia porque ouvi dizer que nas horas não vagas
Gostas de apagar incêndios

Imagine que esta linha é uma das fileiras do cinema do shopping
E que nossas mãos fingindo ser bobas se olham
A linha do teu coração começa a sarrar com a linha do meu destino
Meu ouvido se rendendo ao calor da tua floresta de sussurros

Meus lábios cegos esperando que os teus, especialistas em braile,
Os traduzam na linguagem do silêncio: Ok, pode jogar fora essa metáfora cansada
E voltemos ao beijo

Existem no mundo milhões de pessoas que nunca conheceremos
E das cem que acreditamos conhecer, milhares se tornam estranhas
Quando a cerração ameaça os fantasmas do navio
Não entendo por que, diante de tantas páginas a céu aberto
Fico aqui sonhando uma estratégia de me perder em teus labirintos

O desencontro é vibrante nota da música secreta do mundo
Permita-me, nesse desencontro, chamado poesia, te conhecer intimamente
Antes de nos desencontrarmos, aproveito pra me despedir
Espero que possa te achar bonito
E redesenhar o trânsito da cidade
Para que os engarrafamentos te façam desaguar
Num jantar à luz de velas que preparei pra nós
E que tua profissão não te obrigue a apagar esta chama

Antes de pensar que sou um stalker,
Reveja Amelie Poulan
E desassine a Veja

Ficarei devendo o som da minha voz
No próximo desencontro, quem sabe?
Ou quando eu te acionar pra me reduzir
a cinzas, até que o “não tem mais jeito”  desminta o “ Agora parto”

E, com aliviante surpresa, possa me parir fênix
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...