17 de outubro de 2020

Sobre as gestas sem proeza e com sabor de framboesa


Foto - Cláudio Eufrausino


O sol do nosso sentimento às vezes parece se ausentar, 

Mas, como observa Santa Teresinha, ele continua, na verdade,

Brilhando entre as nuvens


Quando meu eu estiver meio que distante ou frio ou disperso,

Não se canse de esperar pelo eu que chegará sem nunca ter partido

Carregado de carinho,

De abraços e beijos cifrados em gestos cotidianos e gestas sem tanta proeza,

Mas com sabor de framboesa


Os dias de luta selados ao seu lado são um refrigério:

Pela luta e pela arte, mas muito mais pela existência do você que me lê

e pelo fato de essa existência me fazer companhia


Sinto seu calor quando estou descoberto

Pela colcha de atalhos e erros que me envolve tantas vezes

E desejo recostar a cabeça no teu peito

Pra tentar decfrar em quais batidas do seu coração

O motivo de você sentir orgulho de mim

Respira baixinho ou prende a respiração

Enchendo seus pulmões de desprendimento


9 de outubro de 2020

Sobre a lapidação da chama

Foto: Cláudio Eufrausino


Não busco uma metade

Porque o você que acho lindo

Pode ser fração própria, imprópria ou aparente

De qualquer forma, ele é íntegro e inteiro

No que faz e refaz


E me sinto à vontade sendo índice de indeterminação

Na companhia de um você que é doce, sério e transparente incógnita


Ele já faz parte da 

Feliz-turbulenta tentativa de viver nesse mundo

E desejo emprestar-lhe algumas falhas e bloqueios

Pra que ele, artífice, ajude a lapidar minha chama

E minha nudez


Eu não poderia desistir

De quem conserta minhas asas

E desconcerta os impossíveis 

Que fingem fazer parte de mim

Isso o faz importante de forma única

Sem rival


7 de outubro de 2020

Reflexão filosófica sobre o dar e levar um fora




Fote da imagem: Les mots clefs




Tentei ser sutil dando o que se chama de “fora”
Numa pessoa que disse que gostava de mim na rede social que, sem perdão,
Sempre mostra a outra face

O problema é que essa pessoa parecia estar por fora

De que ela não era o você que ajuda

Meu corpo-e-mente a encontrar sua verdadeira postura 


O fora saiu pra dentro de mim

E me olhou como um espelho

Que troca de lugar com o objeto que deveria refletir


Vestido de interrogação,

Pensei se não estaria sendo eu também

Um indiscreto mendigo

Fazendo malabarismos no sinal amarelo-vermelho

Com os ouros da paixão, amor, carinho, atenção, ternura

À espera de receber

Sem declaração ou imposto, a restituição do troco

Numa moeda que não precisa se preocupar em ser a mesma


Tive medo de que meu querido você

Se sinta mal com esse gostar

De que sinta vontade de que eu tenha ido embora

Antes de ele perceber que sente essa vontade

De que queira plantar a nota dó como uma mina

Entre as penas de minhas asas de Pégasus


Tenho medo que ele ache que sou digno

Somente de pena

Quando sou digno de pena e espada

De que ache que sou santo

Quando me quiser devasso

E ache que sou intruso 

Quando ele precisa estar recluso

Ou que sou medroso quando ele precisar da minha coragem


Tenho medo de que ele ache que pode me perder

De que a vontade de ele me abraçar em seu beijo

Se desencontre de mim

Como uma técnica marcial que se atrasa ou adianta

Pra o encontro com o maai (de ais)


Tenho medo porque perto do você que me lê

Não sinto medo

E perder esse não sentir medo

Ou esse estar perto de você

Apavora qualquer coragem


30 de setembro de 2020

Não há de quê

Foto: Cláudio Eufrausino

 


A resposta ao agradecimento

Poderia ser simplesmente: Por nada

Mas, de repente,

Minhas mãos tocam uma canção no vácuo

E despem a gratidão pra transformar em abraços e chêros

Toda precaução e reserva do você que me encanta 

Também quando me desencanta

Ou me decanta; banindo de mim

Tanto de não e de impossível

Que a vida deposita em meu subsolo;

Permitindo-me me permitir


Não há de que 

Ter mêdor

Pres(s)a, demora, receio, cobrânsia

Porque o nosso haver é verbo pessoal

O bastante pra flexionar os tempos imperfeitos

Inenarrar os tempos mais que perfeitos

E receber o que o presente tem pra dar

Onde nada em troca a haver é obrigado

 

Espero que a gratidão não seja 

Um modo de se preservar distante

Mas sim uma senha

Cifra do não medo

Da sincera calma

Que é ir fazendo parte da vida do você

Que meu querer não escolhido

Não cansa de colher

Onde quer que meu tato ame



28 de setembro de 2020

Energia potencial de retorno/energia cinética de reencontro

 

Foto - Cláudio Eufrausino


Essa semana, independente de ter havido quarta-feira,

A sexta-feira me revelou sua identidade secreta

E ela se chamava saudade


Em conformidade com o princípio da conservação de energia,

O meu não ter estado com você converteu-se

Em energia potencial de retorno à espera de virar

Cachoeira de reencontro

Respingando nos arrecifes a garoa de uma terra longe-tão-perto


O ridículo que existe em mim como contagem regressiva

Para o lampejo do sétimo sentido

o desengonço que fertiliza as asas de Pégasus

Essas coisas, sinto que, a despeito delas,

O você que lê minha técnica vai continuar

Me tirando pra dançar


O não ter o que dizer 

Com seu e meu cabelo assanhado

Pelo vento da precariedade e do limite

Também faz parte da música

Que acompanha o desencontro entre nossos passos

E o encontro entre nossos descompassos


O você que, sem termos escolha,

Quero junto a mim no perto, no longe, no interdimensional

Na hora que passa em um minuto

Ou no dia fora do tempo

Me esperará (espero) no aeroporto

Porque já voa-aterrissa comigo em meus diferentes tempos


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