12 de novembro de 2017

Por que Só dá Tu é a música do ano?


Imagem do clipe Só dá Tu - banda A Favorita

Se me perguntassem qual a música do ano, a favorita, responderia sem titubear: Só dá tu, imortalizada na voz de Rafaela Santos.

A canção consegue devolver ao pronome Tu o lugar no pódio que, há tempos, vinha sendo ocupado pelo pronome você.

A norma culta não permite o sabor de dizer Eu amo tu, porque Tu não pode ser utilizado na função de objeto, estando sujeito a ser sempre sujeito.

Mas, em Só dá tu, o tu, no auge de sua normatividade, é inquestionavelmente sujeito, mas uma espécie de inconsciente linguístico confere a ele (ao Tu) um sabor de transgressão como ocorreria se a Constituição permitisse dizer Eu amo tu.

Os integrantes do Movimento Sou Cultural, talvez não tenham notado que Só dá Tu significa um salto quântico dado pelo Arrocha, um dos afluentes do tecno-brega, em direção ao refinamento. 

A letra permite a quem canta exprimir com cores de infância a obsessão dos românticos malditos do século XIX.  O Byron que habita os versos de Só dá Tu prefere rir de si mesmo. Assim, o peso da obsessão se dilui nas ondas que o ritmo da música sugere.

Dick Farney, que imortalizou Alguém como Tu, se tivesse se lançado como cantor nos dias de hoje, não pensaria duas vezes: dividiria o palco com Rafaela Santos.

O pronome tu e a língua portuguesa agradecem por esta grande invenção sonora, que cinge o fado com a cadência da loa africana e os bits da música pop.

Quem prestar atenção direitinho vai encontrar em Só dá tu vestígios arqueológicos do blues, com suas síncopes costuradas por ondas, que fazem o corpo imitar o mar e, de contratempos em contratempos, ter aquela sensação de quem, prestes a adormecer, acorda-se assustado como se fora cair no abismo.

Algo, na composição de Elvis Pires, remete à ingenuidade das primeiras composições românticas de Elvis Presley.

Eu não teria vergonha de cantar no teu calcanhar do ouvido, anjo e/ou leão, o refrão Só dá tu.

Obs.: esse texto não busca ser irônico.


5 de novembro de 2017

Toda nudez, incluindo a da capa do disco de Karina Buhr, será castigada pelo Facebook?

Foto: Priscila Buhr


Até mesmo Kafka ficaria encafifado com os “community standards” do Facebook, particularmente no que diz respeito à nudez.

A premissa do Facebook para impedir a exibição de nudez é a de que alguns públicos da “comunidade global” “podem ser mais sensíveis a esse tipo de conteúdo”.

O Face admite que suas políticas de restrição de conteúdo “podem ser mais duras do que gostaríamos e restringir conteúdos compartilhados com objetivos legítimos”.

E por que esta rede social arrisca-se a restringir conteúdos compartilhados com objetivos legítimos?
Resposta: em nome de uma suposta justiça cujo lastro é a necessidade de “responder às denúncias rapidamente” com base em critérios que possam ser aplicados de maneira simples e uniforme.

“Tratar as pessoas de forma justa” com base na aplicação rápida de critérios uniformes é como abrir uma janela do computador pra Prometeu e outra pra Jurado.

A politica de restrição de conteúdo do Face acaba reproduzindo o comportamento que orienta os debates na timeline.  Com base num questionável impulso de “fazer justiça”, acionam-se padrões de “comunidade” (community standards) preconcebidos, e, ao mínimo sinal de ameaça desses padrões, os debatedores se unem para crucificar uma opinião, imagem ou outra forma de expressão.

Assim, “fazer justiça” deixa de significar o trabalho de mergulho nas contradições em busca da promoção do bem-estar comum (ou do mais próximo que houver disso) para se tornar a demanda por se ajustar com rapidez a padrões, contemplando de forma precipitada o impulso pela uniformização, entendida como uma triste equação onde em um lado figura a comunidade “justiceira” e do outro algum bode expiatório.

Aconteceu isso comigo. Alguém com intenções de quinta e que optou por deixar a roupa suja no cesto do quarto denunciou uma postagem minha (um vídeo do YouTube) pelo fato de trazer a imagem da capa de um disco onde a modelo aparece nua, com os seios à mostra.

Trata-se da capa de um disco de Karina Buhr, que alude à representação de um orixá.

Lembrei da caça às bruxas, em Salém.  Bastava uma pessoa denunciar alguém por algo que de alguma maneira pudesse minimamente aludir ao oculto que essa pessoa podia ser convidada a fazer transfusão para a fogueira.

Karina Buhr foi lançada à fogueira do Face graças à denúncia de um (a) ocioso (a) descarado (a) e eu, como seu cúmplice, ainda fui “alertado” de que a reincidência neste “crime” poderia implicar o meu banimento das paragens facebookianas.

A ironia é que as restrições relativas à exibição de nudez têm como exceção a publicação de conteúdo “por motivos educativos, humorísticos ou satíricos”.

Então, se a capa do disco de Karina Buhr fosse uma piada, minha postagem não teria sido removida?  Ou será que, para escapar ao contemporâneo tribunal  de inquisição, a nudez de Karina Buhr precisaria arrancar gaitadas  dos censores sem face do Face? 


29 de outubro de 2017

Quando Kahlo desejou Feliz Aniversário a Karla

Ensaio fotográfico "Reflexos"
Foto: Karla Vidal


Acho que, passados 30 anos, e, apesar de estar lidando com uma escorpiana, ela já deve conseguir acreditar que minha admiração é verdadeira

Ela ama com ações e não com palavras, mas espero que ela não se importe com estes versos porque eu tenho o vício de amar por meio da palavra

Se eu acreditasse em reencarnação, pediria a Deus que renascêssemos como irmãos gêmeos novamente

Mas, esta vida e a vida eterna serão o bastante pra nós: estoy contigo, mana. Je suis avec toi pro que der e vier.

No futuro, quem ler a poesia de Cléciopégasus compreenderá que muito do seu significado se deve às imagens de sua irmã Karla Vidal

Muitos a chamam de Karla, mas pra mim é Gisele ou Minine

E ela também me chama de Clécio, apesar da mania insistente que as pessoas têm de me chamar de Cláudio. Mas, como diz a sábia Ivete Saint Galo, tá tudo bem!

Quando me acham parecido com ela, me sinto orgulhoso

E quando me acham diferente, também, porque isso não muda o fato de que somos gêmeos de alma
Afinal, o dia do aniversário dela é o dia em que, desde 2013, eu comemoro minha sobrevivência


Ela não é rica de dinheiro, mas no restante Deus caprichou. No coração, na alma e na mente dela, o Espírito Santo faz festa

Procurei a magia cá e lá, mas fui encontrá-la em Karla

Saúde, paz e prosperidade, Filha de Frida Kahlo, cores :)

19 de outubro de 2017

Oração de um aniversariante


Bola de gude
Foto: Karla Vidal


Agradeço a ti, Senhor, por mais um ano de vida
Agradeço por não ser filho do pai e não da peia
Agradeço por ter mãe e Mãe
Agradeço a ti, Nossa Senhora, por seres mãe de Deus e de nós

Obrigado, Senhor, por ter feito 37 anos e também 59, 25, 36, 34...
Obrigado, Senhor, por não enjoar dos amigos ou colocá-los na prateleira da conveniência
Obrigado, Senhor, por não dividir minha sala de trabalho entre heterossexuais e gays;
Entre servidores e terceirizados;
Entre jovens e velhos;
Entre dignos e indignos;

Obrigado, Senhor, por viver mais um ano sem precisar ser macho para poder ser homem

Bendito seja Deus, por poder ser Cláudio, Clécio, Pégasus

Sou grato por não precisar violentar ninguém com piadas escrotas
Por não precisar acrescentar, aos muros de vergonha que dividem o mundo,
Um que divida o mundo entre quem dá o cu e quem tem medo de dar e gostar

Sinto-me agraciado por preferir rir com os outros do que rir dos outros:
Isso também é dom de Deus

Jesus, obrigado por manter em segredo minhas identidades reveladas
Agradeço por ter recebido o dom de fazer trocadilhos perfeitos e irresistíveis

Agradeço porque a semente galáctica amarela não desistiu de ser eu
E por estar aprendendo a enfrentar, com paixão, o desafio de me desapaixonar,
Quando é necessário


Valeu, por ter frustrações e entender, cada dia um pouco mais,
Que não sou a única raposa do terreiro
E que a salada de frutas da existência não precisa ser feita só de uvas

Obrigado, por me perdoar a mim mesmo um pouco mais a cada dia
E por me tornar capaz de enfrentar guerras dizendo silêncios

Tanto pra agradecer que a eternidade por um instante parece pequena...

Obrigado, Senhor, pelo estado laico
Obrigado, Senhor, pelo meu coração ateu 
Que não é refém da bancada evangélica

Obrigado, Jesus, por continuares violando os sábados
E sentares à mesa com pessoas de índole duvidosa
E não com pessoas que se têm certeza

Obrigado a mim por acreditar que o amor vale a pena
Quando da travessia dos vales de sombra

E por estar ciente de que as pessoas não são dignas de pena
Mas sim de ter dignidade

Obrigado, Senhor, por seres grato a mim por eu existir

Muchas gracias, por ter descoberto que Che Guevara foi um canalha:
Todo bolo de aniversário deveria ter uma vela apagada pra cada mito quebrado

12 de outubro de 2017

Nossa Senhora também roga pelos transexuais


Rodrigo_Soldon via Visual hunt / CC BY



Talvez, nunca antes na história, Nossa Senhora tenha sido tão atual.

Maria concebeu um filho por obra e graça do Espírito Santo, figura que, na Santíssima Trindade, representa a parcela indefinida da identidade de Deus: não é propriamente homem ou mulher.
Um dos títulos dados ao Espírito Santo é simplesmente Amor, visto como algo que Independe de gênero.

A concepção de Cristo no seio da Virgem Maria dependeu exclusivamente do Amor. O milagre não foi o fato de uma Virgem conceber, mas sim de o Amor, independente dos atributos que a história e as sociedades projetam sobre ele, ter sido gerado no ventre do improvável, do “impossível”.

A Imaculada Concepção rompe com o lema da cultura patriarcal de que só é digno de existir o “amor” que pode ser resumido ao encaixe entre pênis e vagina. Assim, contribui para acolher, no plano divino,  identidades culturais marginalizadas como os homossexuais, os transexuais e ass vítimas de violência sexual.

Na África, no Brasil, tem recrudescido a prática do estupro, baseada na ideia de que o corpo feminino está à disposição dos homens ou, mais especificamente, do Macho que ecoa no estupro os últimos e desesperados suspiros do Patriarcado.

O Sim de Maria, no momento da concepção por obra do Espírito Santo, inaugura duas realidades na história:

  • A de que a mulher tem direito sobre seu corpo
  • A de que, independentemente de gênero ou identidade, só o amor consentido pode ser porta de acesso aos corpos.

Falemos especificamente de Nossa Senhora  Aparecida, que carrega consigo até hoje um quê de ironia.

É a Mulher Negra que se torna sinal de libertação nos milagres que fazem do extraordinário a redenção dos que são vítimas dos poderes e das morais dominadoras.

Assim como desafiou o mito da supremacia branca, a imagem da Aparecida desafia o valor dado aos títulos de nobreza, como aconteceu em 1717, quando ofuscou a visita do Conde de Assumar, então governador da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, a Guaratinguetá.

Lembro de um debate, durante uma das disciplinas que cursei no Doutorado, em que Nossa Senhora Aparecida foi chamada sarcasticamente de Nossa Senhora da Lama, título relacionado ao modo como surgiu a devoção da Aparecida: resgatada das água do rio pela rede de um pescador.

Faz sentido.

Nossa Senhora Aparecida é Imaculada, porém vestida de lama: crítica alegórica da elite corrupta que, vestidos de luxo, pompa e circunstância, mergulham cada vez mais fundo na lama, a despeito de se refugiarem em jatos que voam no alto dos céus.

Nessa perspectiva, a figura de Nossa Senhora Aparecida é singular porque abre mão de um dos títulos honoríficos mais famosos de Maria: o de Mulher Vestida de Ouro de Ofir.

Não esqueçamos que a imagem de Aparecida é representada no auge da gravidez de Maria, aludindo às mulheres abandonadas e jogadas na lama após terem seus corpos invadidos pela corrupção de uma cultura desértica onde o Macho, e não o homem, é o jardineiro.
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