24 de janeiro de 2017

Códigos e ética em salas de cinema pornô de Recife


Foto: Cláudio Eufrausino.


A reportagem, a seguir, é fruto de um ensaio escrito em julho de 2011, para a disciplina Literatura e Filosofia, que cursei durante o Doutorado em Letras na Universidade Federal de Pernambuco. Na época, sequer ouvira falar da obra de Laud Humphreys: Tearoom Trade: impersonal sex in public places.

Mas, mesmo sem conhecer este trabalho, ele é uma referência incontornável, até mesmo para que fique claro que os objetivos do ensaio não são os mesmos perseguidos por Humphreys, apesar de guardar com ele uma semelhança: o de ser fruto de observações in loco.

O autor de Tearoom foi muito criticado pela metodologia adotada em sua pesquisa, pelo fato de obter dados fingindo ser um mero frequentador do espaço que foi objeto de seu estudo. Mas, talvez este tenha sido o preço a ser pago para que o “rigor científico” não levasse os atores analisados a desvirtuar o ritual de conduta por força do peso das convenções sociais.

Contudo, esta deixa inicial é para esclarecer que o propósito desta reportagem/ensaio não é o de estudar o comportamento sexual, mas sim a relação entre o ritual de comunicação e a expressão poética, procurando entender como a arquitetura dos gestos e do espaço se estruturam poeticamente a fim de produzir rituais comunicacionais nas salas de cinema pornográfico de Recife, em Pernambuco. 

As coisas mudaram desde que foi escrita a primeira versão do texto, como foi possível constatar em um retorno aos cinemas em 2013. Um dos cinemas visitados foi interditado pela vigilância sanitária e, em seguida, foi apropriado por uma igreja evangélica. Hoje, não sei dizer o que esse espaço se tornou. Mas, na época em que se levantaram os dados para construção do texto, o cinema pornográfico, situado na Rua da Soledade, rivalizava com a Igreja Católica, distante somente alguns metros.

Outro cinema investigado, o da Rua Corredor do Bispo, mudou radicalmente. O espaço em que havia cabines para encontros íntimos foi destruído e tornou-se “livre”, aberto para encontros entre os frequentadores: a privacidade deu seu último aceno, a despeito da penumbra que continuava povoando o lugar.

Nas culturas antiga e medieval, o sentido não era cênico, mas sim obsceno. Apesar de ser uma palavra de origem obscura, o adjetivo obsceno, como lembra Paulo Bessa da Silva (2010), deriva, provavelmente, de uma modificação do vocábulo latino scena, significando "fora de cena".

O tempo e a cultura se encarregaram de travestir o termo obsceno do sentido de sem pudor, vil, entre outras imprecações. Esta carga pejorativa se deve a uma rede metafórica associando os órgãos sexuais, os bastidores (o fora de cena) e a vergonha.

Sallie Tisdalle, na obra Sussure Coisas Eróticas pra Mim explica: "a raiz latina de pudenda – os nossos genitais – significa 'envergonhar-se'. Ficamos divididos entre o pudor e os abençoados prazeres do corpo, vivendo em meio a uma proliferação de imagens sexuais que nos causam ao mesmo tempo prazer e vergonha".

A maiêutica, metodologia adotada por Sócrates para trazer à luz verdades recônditas, não é decididamente a estratégia mais adequada para procurar os sentidos expressos pelas simbologias presentes no cinema pornô.

Arrisco-me a definir o cine pornô como um espaço feito para estar na penumbra, como atesta a proibição de se tirar fotos lá dentro.


Chegando ao Cinema Pornô

Àquele que entra no cinema pornô cabe o destino dos guerreiros injustos: ser tragado pelo Hades, onde se torna um anônimo. E a forma contemporânea do portão do inferno é guardada pelo preconceito. Estranhamente, porém, a entrada neste Hades gera a sensação de segurança, pois, pior talvez do que o inferno é a ameaça de ser atingido pela primeira pedra.

Ao entrar, compreendi a interpretação dada por Walter Benjamin ao gesto de Adão e Eva. Segundo o pensador, ao comerem o fruto proibido, eles não tiveram acesso ao conhecimento sobre o bem e o mal, mas sim trouxeram pra si a responsabilidade de traçar as fronteiras entre o conhecimento e a dúvida.

Avivou-se no repórter a contradição que segundo Benjamin mora nas atitudes burguesas: em que se avizinham o sentido mesquinho do desleixo e o sentido maior da sabedoria.


No Interior do Cinema Pornô

Foto: KV


A estrutura básica da sala do cinema pornô é a do quadro Quadrado Preto Sobre Fundo Branco de Malevitch. Mas, lá o quadro está invertido: um quadrado branco sobre fundo preto. A escuridão da sala é mais pesada que a dos cinemas tradicionais. E se Giorgio Agamben estiver certo - ao lembrar que a escuridão não é a incapacidade de ver, mas sim o resultado da atividade de células da visão que, sensíveis à penumbra, produzem a sensação de escuro - existe algum componente de ordem imaterial que, no cinema pornô ressalta a capacidade das células ópticas.

Explorar o mapa de sinais em busca de conexões que traduzam a iluminação profana é o convite invisível que pulsa nos rostos, nas paredes, nas cortinas e em todo o resto: o convite da esfinge, com uma pequena adaptação: Decifra-me e te devoro.

A índole surrealista do local aumenta a energia de manutenção do enigma. Nesta perspectiva, nada mais moderno que o interior do cinema pornô. Nele, o modo como Benjamin descreve o surrealismo renasce: "A vida [na perspectiva surrealista] só parecia digna de ser vivida quando se dissolvia a fronteira entre o sono e a vigília, permitindo a passagem em massa de figuras ondulantes, e a linguagem só parecia autêntica quando o som e a imagem, a imagem e o som se interpenetravam, de forma tão feliz que não sobrava a mínima fresta para inserir a pequena moeda a que chamamos 'sentido”.

Feito para estar na penumbra, o cinema pornô faz da sombra um aliado da revolução. Apaga imperfeições e confere substancialidade a qualidades que, fora da penumbra, permaneceriam invisíveis.

As figuras que transitam no cinema pornô nos devolvem o imaginário que lançamos sobre elas, dando a ele uma dimensão quase tátil. 

No cinema pornô, a penumbra torna-se uma tecnologia que permite aos que estão lá se olharem e olharem o mundo ao redor com um olhar contestador do monopólio que a realidade hegemônica exerce sobre a vigília, sobre a “luz do dia”.

É um ambiente capaz de interpenetrar corpo e imaginação. Abriga o eco de vozes emudecidas de justiça, bem como vozes ancestrais de preconceito, fazendo com que certos repúdios sejam intensificados e outros que nem sequer existiriam do lado de fora ganhem intensa concretude.


O Cine Boa Vista – rua Corredor do Bispo

A poética da penumbra, no cinema pornô, é uma das etapas do impulso surrealista de integrar todas as coisas em contraposição à tendência moderna de fragmentação, individualização e isolamento. Esta ânsia reflete-se no Cine Boa Vista, construído com vista irônica e igualmente surrealista para a rua Corredor do Bispo.

Depois de algum tempo lá dentro, é possível desvendar algumas peças de seu código de ética surrealista. Um elemento norteador deste código é a presença marcante de regiões destinadas ao Decifra-me e regiões destinadas ao Devoro-te.

Este código é o que permite compreender por que a maioria das cadeiras da sala de cinema perdem sua função.  Sentado, o vazio contempla a tela que, na sala do térreo, exibe filmes de temática heterossexual e, na do primeiro andar, de temática homossexual.  As poucas pessoas que lá se sentam assumem o papel de enigma, estratégia de sedução voltada para os que ficam de pé nos corredores estreitos junto às fileiras e num pequeno pátio, localizado imediatamente atrás dos conjuntos de poltronas.

Os que ficam de pé neste pátio adotam como postura ética a dúvida. Sabem que estando ali estão dispostos a ser decifrados ou devorados.

A ousadia é permitida, desde que sutil: um toque rápido no órgão genital ou um toque mais demorado com a ponta dos dedos é o rito de passagem entre o decifra-me e o devora-me.  Se o toque é correspondido, a tendência é de o casal partir para regiões destinadas especificamente ao Devoro-te. Se não, cada pessoa segue um rumo diferente. A insistência é repudiada. Nisto, o código de ética é extremamente rígido: forçar o contato é proibido.

A troca de olhares é também outro dos indícios que preparam a transição entre o decifrar e o devorar. Mas, num espaço feito para se imperar a penumbra, o olhar fica em segundo plano. O toque é mais decisivo. Via de regra, as pessoas transitam dentro do cinema pornô sem se olharem, pois olhar, neste lugar, pode ser confundido com um convite para ser devorado. E, operando por indícios, as pessoas, neste ambiente, não querem sair frustradas em sua tarefa de detetives. Além disso, o olhar é evitado por ser um signo de insistência e, em última análise de violação: ambas proibidas.

Na sala destinada aos heterossexuais, a zona do Devora-me é restrita. É uma espécie de gineceu (parte de trás das casas da Grécia Antiga, reservada às mulheres) disfarçado de androceu (ou vice-versa), localizado atrás de um cortinado junto à entrada da sala de cinema. Neste lugar, a poética surrealista atinge o ápice. As individualidades se diluem e na treva total não é possível distinguir onde começa uma pessoa e termina outra. Este área, onde mãos vazam por todos os lados, é a expressão arquitetônica da pintura de El Greco . Estar aí é entregar-se ao instinto voluptuoso de Shiva, deusa hindu da transformação/destruição com múltiplos braços. Sente-se o toque, mas ele é um evento diluído na incerteza de sua origem e de seu fim.

No primeiro andar, “destinado ao público homossexual”, o espaço do Devora-me é mais amplo. É uma espécie de galeria, um pequeno labirinto em que entrada e saída coincidem. Para quem entra, é possível optar pelo caminho da direita ou da esquerda, mas, ao fundo deste ambiente, esta opção revela-se ilusória, pois os dois lados se comunicam, sendo possível dobrar de um lado a outro.

De cada lado desta ilusória divisão, ficam cabines onde cabem duas pessoas e uma cama com pouco menos da metade da extensão de uma cama de solteiro. Na galeria, há luzes esmaecidas e dentro das cabines, a luz de fora ecoa, por baixo da fresta da porta, restaurando a atmosfera de penumbra.

Estas cabines ficam abertas à disposição de quem quiser entrar lá. Diante de algumas delas, alguns homens ficam parados à espera de alguém que os toque ou os chame com o olhar, oferecendo a senha de entrada para o Devora-me. Estes homens misturam no olhar e na postura a esperança de quem aguarda uma rendição messiânica e a desesperança de saberem que muitos “anjos” passarão diante deles sem querer feri-los com o toque, isto é, ignorando-os.


O Cine Mix – Rua da Soledade

Foto: Divulgação Cine Mix


O Cine Mix é outro cinema pornô do Recife, cujo nome já traz a ânsia surrealista por integrar e miscigenar. A ironia surrealista se revela na sua vizinhança, visto estar localizado no início da rua da Soledade, tendo a pouco metros dali, no fim da rua, a Igreja da Soledade.

Ele também possui uma galeria de cabines destinadas ao Devora-me. Mas lá, elas estão incrustadas nas paredes, parecendo as antigas covas que havia nas paredes das igrejas do Brasil colonial e descritas por Gilberto Freire em Casa Grande e Senzala.

Porém, as diferenças são grandes.  As covas descritas por Freire eram destinadas à elite que queria se enterrar dentro da Igreja tanto para se diferenciar dos pobres quanto para se refugiar das chamas infernais que lambiam seus calcanhares.

Já as cabines-lápides do Cine Mix não fazem acepção de pessoa. Quem puder pagar por elas, pode usá-las. E também não fazem questão de manter afastadas as chamas do inferno ou de aproximar o Céu.

Esta indiferença é confirmada no bar, localizado após a galeria de cabines. Neste bar, onde as luzes se acendem, contrariando a natureza de penumbra do cinema pornô, convivem frente a frente dois afrescos: um representando uma cidade imersa em nuvens e outro uma cidade imersa em chamas. Mas, ambos os afrescos parecem ser ignorados por quem está no local.


O Cinema Pornô e o conflito entre igualdade e diferença

No Cine Boa Vista, a igualdade é mais igual que no Cine Mix no que se refere ao acesso aos espaços do Devora-me. Lá, estes espaços saem de graça para os frequentadores, tornando possível romper com os privilégios de classe do ancien regime, de forma que a revolução fracesa nem sonhou em fazer.

Em contrapartida, o Cine Mix é mais igual na paisagem de gênero: lá circulam mulheres, assumidamente prostitutas.

Não há como fugir da igualdade no cinema pornô e não há também como fugir do questionamento que Norberto Bobbio (1995) atribui a Tocqueville e que pode ser parafraseado da seguinte forma: Como é a igualdade quando tira a roupa do ideal e veste-se de realidade?

Quem entra no cinema pornô é igual aos outros porque, seja física ou simbolicamente, a eles se mistura. Todos os que entram lá são em parte heterossexuais e em parte homossexuais, em parte prostituta e em parte clientes, em parte santos e em parte depravados.  Foi possível descobrir isso, quando vi uma figura semelhante ao Quasimodo circulando pelo cinema e vi que não tinha força nem autoridade para fazer-me diferente dele.  De algum modo eu era parte dele e ele parte de mim. A distância é permitida no cinema pornô, mas não os muros.

A penumbra do cinema pornô esforça-se – muitas vezes com sucesso - por desfazer oposições que, do lado de fora, são tomadas como irreconciliáveis, a exemplo da beleza e da feiúra.

A individualidade - nesse contexto que mistura relaxamento e urgência; sedução e indiferença - parece, em alguns momentos, perder a função. E o indivíduo converte-se em montagem de referências históricas (estereotipadas ou não) que conseguem escapar por entre as brechas da penumbra.

Diante desta reflexão, é preciso reformular o que se entende por decadência.  A decadência é emprestada por um olhar que, da luz, mira a penumbra. Não mora no ambiente ou nos freqüentadores, em si, mas na ameaça que a penumbra instaura sobre a auto-suficiência de nossa individualidade.  Achar algo decadente é expressar o medo de que nossa suposta auto-suficiência seja, de algum modo, violentada pela miscigenação.

Estar no cinema pornô é refletir sobre o preço da igualdade, o que não deixa de ser refletir sobre o preço da diferença. 

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