18 de abril de 2014

A cruz que espera um abraço

Cruz

Pensei se a cruz não seria
Um repositório de correspondências devolvidas
Ou, talvez, de sonhos selados
Galopes que tentam inutilmente galgar o impiedoso horizonte
A cruz, talvez, seja feita de madeira de Lei,
Mas está de braços abertos, com seu coração chagado
Chovendo sobre um rio de cartas às quais o mundo endereçou o anonimato
A cruz é feita, certamente, de portas na cara
Do rir que preferiu ser rir do outro do que rir com o outro
Disseram-me que poderia colocar aos pés da cruz tudo
Dores, odores, súpuras e até meus piores crimes, como a bendita coca-cola
Minhas piadas sem graça, e as desgraçadas também
Posso colocar até o que me foi roubado aos pés da cruz
Para que ela tenha o que calçar quando, no meio da noite,
Precisar se levantar para matar sua sede de tropeços
E também minhas ironias de ronin desengonçado
Minhas orações de cor de criança
Que nem sabia teu nome, mas já assobiava tua consolação
Trago aos pés da cruz as linhas apagadas, cheias de dívida
E de dúvida se devo
Ou se espero me adaptar às expectativas sádicas da oposição
E choro quando vejo Teu lábio ferido por uma esponja embebida em Maquiavel
Mas, a ressurreição me prova que existe quando te reencontro por acaso no shopping Recife
E me pergunto quando a ressurreição fará desmoronar a cruz
E quando as pessoas perceberão que o único motivo de a cruz permanecer de braços abertos

É que lhe falta um abraço apertado. 

16 de abril de 2014

Reflexões despretensiosas sobre o futuro do pretérito


Fonte: Stolpyka.pl

Os filósofos brigam há milhares de milênios para decidir se o passado
É algo que realmente passou
Ou algo que continua passando por nós
E não sei se somos como serpentes, que trocam de folhagem, mas não trocam de veneno
Ou se somos como árvores cujo coração é formado por incontáveis passados concêntricos
E não quero pensar que o núcleo de todas as circunferências é uma parada cardíaca

Passem os boa-noites não correspondidos
Os abraços devolvidos pelos Correios, pelos co-reios
Os abraços réus da distância que não passa
Do presente que algumas vezes é tão duro que faz de nós mesmos um passado perdido no tempo
Passe logo esse futuro do pretérito que se esconde em nossas ações para rir de nós
Confessaria, mas não confessei
Calaria, mas não calei
Amaria, mais e mais
Sorriria: dois risos presos num mesmo verbo

Sinto que tantos mal-assombros passam por mim e se despedem
E agoras cheios de “o suficiente” me saúdam em todas as estações que a esperança
Escreve ao longo das linhas tortas da mão de Deus
Sinto muito que não mais porque sentir tanto pelo que não vale a pena, nem o pássaro, nem o anjo e muito menos o voo
E os dois olhares que um rosto lindo me traz ficam em silêncio
Respeitando a chance de minha cegueira iluminar-se, ao beber do olhar-me que brota

Com radiante refrescância das pazes que estou aprendendo a fazer comigo mesmo e comigo outro

10 de abril de 2014

O sentir com asas de cansaço e coragem em chamas




Minha alma fica cansada quando tenho de dizer o que sinto
Não um sentir qualquer
Um sentir que está de pé
Disposto a ter a cara espanada pelo deserto
E calejada pelo risco
Mas, quão estranho é que o cansaço é feito fogo
Que me faz galopar em mim mesmo
Trazendo em minhas botas as estrelas como esporas
A esperança como colírio
A rosa de tempestade como co-lírio
Que me abrace logo essa nebulosa
Com cheiro molhado de galáxia
E quanto mais cansado
Mais a verdade do que sinto
Desmente meus braços em asas
E minhas pernas em corredeira
Sem vergonha
Sem medo, pero con toda la inseguridad do pólen sequestrado pelo beija-flor
Mas quero deixar a insegurança implodir no abraço que de um se faz mil e uma noites
Porque sinto que mereço
Sem que nenhuma propaganda me diga
Porque mereço que sinta
Mereço vagar na tempestade, sentir o deserto na cara
Mereço navegar nas águas do risco
Nadar nelas vestido com minhas asas de lança-chamas
Com o destemor da anti-guerra















À amiga Iara

31 de março de 2014

Impressões sobre a poesia de Vitor Sousa

Fonte: GloboEsporte.com


E sinto que acontece, com alguma frequência, de as pessoas tratarem os outros como bala perdida para poderem extraí-los sem misericórdia de suas vidas e não correrem o risco de ver desmoronar a ilusão de que são pessoas ilesas e a ilusão ainda mais ilusão de que vivem cercadas de pessoas ilesas. E, percebo, que este movimento de extrair outrem sem misericórdia de sua vida não é orquestrado na poesia, mas sim no diálogo fútil de bastidores, que colhe veredictos antes mesmo de plantar julgamentos. Os poemas são lindos, mas são lindas também as rimas pobres, hesitantes e quebradiças das conversas descompromissadas sobre o que nos aflige-alegra, conversas que, com seus cacos de raiva, mas também com a inteireza dos sorrisos, não nos deixam, graças a Deus, sair ilesos.

Lembrei que, ao chegar ao doutorado, apresentei-me como Clécio, nome que me acostumei a compartilhar, pois me remete ao acolhimento que experimento junto a meus familiares. Mas, quiseram trocar meu nome e me chamar de Cláudio porque supostamente havia passado pelo departamento de Letras uma pessoa chamada Clécio e que teria atitudes que não correspondiam às exigências poéticas do Departamento. Sei lá, essa foi a conversa abestalhada que partiu da amiga que trocou meu nome. Bem, desculpe o desabafo, mas sei que serei compreendido, porque no fundo não importa tanto a distorção do que é dito, o que é decisivo é a distorção dos corações que ouvem. Só preciso  aprender a convencer a mim mesmo, para completar o pequeno desabafo, de que não cultivarei mais amizades com pessoas que rejeitam meu nome, pois, independentemente de que haja no mundo outros Clécios, ou Marias ou Josés, o que importa é o Clécio, a Maria e o José que o amigo é, pois suas lesões é que o tornam admirável e inigualável.



Interessa a viagem, 
pouco importa o destino. 
Gosto de me integrar, 
digamos, 
na intimidade dos outros.
Por vezes, 
acontece,
não temos muita sorte 
e extraem-nos sem misericórdia. 

Amputam-nos. 

Eu prefiro o aleatório. 
Tenho o direito de querer 
um coração que me aloje,
ou de me prolongar
na cabeça de alguém. 

[Tenho uma amiga 
que já fez um homem perder a cabeça. 
Isso, porém, 
não se faz 
nem me satisfaz. 
A minha técnica é mais subtil, 
mas o intento é o mesmo: 
quando entramos na intimidade de alguém, 
ninguém pode sair ileso. 
Se saírmos ilesos, foi inútil. 
Eu, felizmente, tenho estrias.]

Quando morrer, 
gostava de levar no corpo
o sabor de um estranho
a quem me dei em volúpia. 
Gostava de levar
aquele suspiro das insónias,
o eco de um verso inacabado,
o sangue frio da paixão,
os sonhos de infância,
ou o andamento 
lento 
de 
um
órgão 
reservado
a requiems.

[Esta bala foi vítima de um homem perdido]
- Vítor Sousa

27 de março de 2014

Insônia

Por Kevin Vásquez

Poema insone
Por Jose Luis Paredis


A poesia fez um silêncio diminuto
Pudera, sem ter teu ouvido por perto
Onde ela poderia recostar a cabeça?
Sem teu abraço apertado
Os versos livres tornam-se escravos
Sem teu rosto sério, me olhando do primeiro andar: da primeira estrofe
Cuidando de meu chegar na Aliança,
Sem teu rosto sério
A poesia não ri
Ímã sem polos
Rastro sem sol o
Luz sem Apollinair e
Paixão sem perda do ar,

A poesia não consegue dormir
Só consegue dor
Dói-me ir
O dedo mindinho ainda sente um campo de forças
Tentando uni-lo às forças de campo que saem do teu polegar
A promessa de nossos dedos entrelaçados
Rima com as estrelas
Rima branca, preta e colorida
A poesia perdeu a chave
É ouro perdido nas areias escaldadas pela solidão
Mas, quando te reencontrar
A perda do ar se achará
Será um cinema à ida
Com beijo a direito
E a torto

Com amora
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