4 de maio de 2012

Ilustres poetas desconhecidos: O nojo (que não era nojo) que Rosa Nor sentia por Cristo



Fonte da imagem: Blog Arte de Viver




Rosa Nor é uma poetisa dos Emirados Árabes. Chama atenção o modo como ela brinca com o horizonte de expectativas do leitor. É o caso do segundo poema trazido nesta postagem. Nesse poema, o eu-lírico sente uma grande paixão por Jesus Cristo, mas tenta disfarçar essa paixão, que, de início, parece ser nojo. É interessante perceber como a acidez dos poemas termina sendo um escudo para conter uma vontade enorme de amar em conflito com o desencanto.



1. O engano

O engano é uma peça de alfaiate
Feita, sob medida, para ser do tamanho de um mundo
Que não cabe dentro do próprio mundo

Aos olhos de tantos,
O engano tem o dom de ser uma doença
Capaz de alastrar seu contágio
Para antes do surgimento do micróbio
E para depois da vitória da vacina

O engano vira deixa
Para que os preguiçosos
Se esbaldem no lagar da precipitação
E exerçam seus dotes de inquisidor
Engane-se e veja, em plena luz do dia,
Vaga-lumes faiscarem nos olhos judiciosos
Nos olhares vagos que desejam crer
Que a sina de Gaia
É terminar seus dias
Amargando a ferida incurável do arrependimento
Diante do espelho-memória do engano
O engano, de algo humano e pontual,
É tornado tempestade
Ânsia sádica pelo eterno

Tudo não passa de um engano
Mas, a sede calcada nos desertos do medo,
Faz o engano se passar por tudo.

O que você quer com esse aperto de mão?
Quer dar uma pausa de piedade no nojo que sentes
Quanta preocupação com a etiqueta
Para alguém que se professa cidadão do pós-fim!
Pendure seu aperto de mão no pescoço
E só me procure quando a vontade de me abraçar
For capaz de deixar a hipocrisia vermelha de vergonha
(Vermelha como a pureza do fruto proibido)
Ou deixar roxa de raiva a preguiça de amar
Não preciso nem quero que uma pele
Calçada nas luvas da indiferença
Me venha roçar
Chega de restos de caça às bruxas
Disfarçados de carinho!
Chega, vem logo e me abraça
Mas, que seja um abraço
Daqueles que descem radiantes
Chegados de uma viagem triunfal
A bordo do vapor Liberdade
Venha esse abraço vestido de virginal lascívia
Como um beijo que assumiu a nudez de seus traumas
E pediu à serpente para seguir em paz
E a Deus para encher o carinho de desvazio, de destraição




2. Declaração de amor a Jesus

Tive de ter nojo de ti, Jesus
Tu convidaste minha cara ao escarro, pois
Teu nome está tão presente nos lábios falso-proféticos do joio
E fala tão baixinho no murmúrio do trigo
Tu me convidaste a oferecer a outra face
E eu ofereci: uma outra face atrás da outra
Como se fora um esquizofrênico
Fui obrigado a ter nojo de ti, Jesus
Porque teus altares me foram vendidos
Como o coração inerte de um boneco de ventríloquo
E tua eucaristia me foi lançada na cara
Vestida como se fora a pedra
Que não teve coragem de se atirar na mulher adúltera
Tu és a pedra angular,
Mas os construtores, nós, tão obtusos
Esperar o joio crescer para salvar o trigo
Isso me gera nojo, impaciência, um cansaço morno
Que nem para vomitar se anima
E, do insulto que preparo pra ti, Jesus
Da vontade que sinto de te culpar
Pelo meu sono, minha omissão e meu flerte com a obviedade,
Nesse insulto, está contido o mesmo destemor da esperança
No tabefe que preparo para ti,
Vejo a sede de fazer um carinho
De te levar ao orgasmo com toda a devassidão:
Todo o melhor vinho que a pureza guarda
Para o encontro final com seu amado, seu amigo
Então, esbofeteio-te com meu melhor beijo
Isulto-te com a mais sincera exaltação
Escarro-te com a força do milagre, do perdão
Com a água mais pura que posso achar
Na fonte de Siloé
Na memória de quando fizeste de tua saliva
A cura de minha cegueira. 



6 comentários:

  1. adorei a parte
    Pendure seu aperto de mão no pescoço
    E só me procure quando a vontade de me abraçar

    Parabéns, escreve muito bem.

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    Respostas
    1. Valeu, Gabriela! Brigadão pela visita. Abração ;)

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  2. Cristo eu creio no que tens de mais sagrado e bonito que sendo santo como és enoja a satanás o anjo decaído e pequeno,disforme ser insignificante que quer de qualquer maneira roubar a coroa do Rei dos Reis,que é Maior e expande resplandecentemente o amor do Pai,que é nosso Criador desde o princípio e pela qual sente inveja o príncipe das trevas,o derrotado,o enclausurado do inferno que sequer terá misericórdia,se encerrará em sua prisão funérea eternamente porque Jesus é o vencedor.André Francisco Gil,poeta e escritor.

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    1. Em resposta a seu comentário, escrevi a seguinte postagem: Eu quero ficar nu ou Resposta ao poeta André Francisco Gil, disponível para leitura no link: http://acediadepegasus.blogspot.com.br/2013/09/eu-quero-ficar-nu-ou-resposta-ao-poeta.html

      Agradeço pela opinião franca e pela visita a este blog. Abraço,

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  3. Olá. Gostei. Gostei muito dessa idéia de poetas desconhecidos que traz para a gente pensamentos novos e enviesados. Palavreados tortos que vão criando possibilidades infinitas.Abraços.

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    Respostas
    1. Muito obrigado, Déia. Que bom que gostaste. Também achei muito legal teu blog. Abraço grande pra ti e fico aguardando comentários para outras postagens (quando desejares)!

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