20 de maio de 2012

Sobre os impossíveis: a recuperação de Marie Fredriksson e o dia em que Roxette tocou o frevo Vassourinhas


Primeiro vôo do 14 Bis


À amiga Iliana Quidute (kitute), que convidou a ela e a mim 
para ir ao show de Roxette, no Recife


A Donna Sommer



A cantora e compositora Marie Fredriksson perdeu a habilidade de ler e de contar, além de ter perdido a visão do olho direito e parte dos movimentos do lado direito. Perdas estas decorrentes de um tumor maligno surgido em seu cérebro em 2002.

Estes limites vieram acompanhados de um misterioso deslimite. Marie segue cantando ao lado de Per Gessle e recentemente finalizou, com um show realizado em Recife, uma turnê pelo Brasil. É impressionante como a cantora mantém a memória das canções e se mantém no palco do início ao fim do espetáculo.

Embora a dosagem de agudos, e da agressividade rockesca, tenha precisado ser diminuída, o prejuízo foi mínimo, pois a presença maior de momentos de suavidade não afetou o lindo timbre da voz de Marie.

Entre 2002 e 2005, ela enfrentou o câncer e suas consequências e, agora, já não é mais necessário submeter-se a nenhum tratamento.

Quando Roxette cantou It must have been Love, um de seus maiores sucessos, foi acompanhada pelo público do Chevrolet Hall, que auxiliou Marie nos momentos em que seu agudo ameaçou falhar. Diante da cena, seu amigo Per Gessle declarou: “Tudo é possivel”.

Simbolicamente, a realização do impossível tem sido retratada de formas diversas. Mais do que contrariar a lógica vigente, o impossível tem um tom teimosia. Ele teima em dar como ganha uma causa socialmente dada como perdida. Assim ocorre com os relatos bíblicos em que mulheres estéreis conseguem, contrariando as expectativas, tornar-se mães em idade avançada (o caso de Santa Isabel). 

O impossível germina como a teimosia de plantar no deserto. Planta-se a terra prometida no deserto da Judéia; plantam-se crianças no deserto da esterilidade; planta-se visão no deserto dos olhos cegos, planta-se perdão no deserto da condenação.

Outra forma de o impossível se tornar realidade é quando a divindade, por amor, escolhe se arrepender. Assim ocorre quando Deus, diante da tristeza do rei Ezequias, arrepende-se e decide adiar o dia da morte deste rei, fazendo o tempo andar para trás. Algo semelhante acontece quando Cristo ressuscita Lázaro. No gesto de amor de Cristo, Deus permite-se arrepender-se.

O impossível também vem em forma de uma visita inesperada. Sabendo disso, o centurião romano aproximou-se de Jesus em busca de uma cura para seu servo à beira da morte. Este centurião achava impossível obter o que buscava por se achar indigno, pelo fato de ser representante do império que subjugava os judeus. Mesmo assim, disse a Jesus: “Não sou digno de que entreis em minha morada, mas se disseres uma palavra serei salvo”. E Cristo, mesmo de longe, visitou o servo doente e disse ao centurião que ele receberia o que procurava por força da fé.


Latona e os gêmeos
Vale lembrar também da visita de Nêmesis a Latona, mãe de Apolo e de Ártêmis. Latona, deusa da noite clara, foi alvo do ciúme de Hera. A esposa de Zeus fez que Latona fosse perseguida pela serpente Píton, não conseguindo achar um lugar na Terra onde pudesse dar à luz em paz, a não ser na  ilha de Delfos, erguida por Posêidon da fundura do oceano.  O deus dos mares havia se apiedado da jovem. Em Delfos, após parir, Latona chorou por não ter como alimentar seus filhos e clamou por justiça. Aparece, então, Nèmesis, deusa do ajuste de contas, e realiza o impossível, salvando a mãe solteira e seus filhos gêmeos, que viriam a ser dois dos principais deuses do panteão grego.

Em todo caso, o impossível é um trabalho de garimpagem, de busca da exceção no deserto da regra. O impossível sempre vem acompanhado de um sinal de pontuação híbrido, que mistura a interrogação com a exclamação: “Quem diria que isso aconteceria?!”

Quem diria que Christoffer Lundquist, guitarrista da banda Roxette, tocaria o frevo Vassourinhas no show, fazendo germinar Pernambuco no tempo-espaço da Suécia ou Suécia no tempo-espaço de Pernambuco?!

De alguma forma, existe um relógio em que impossível, improvável e inesquecível são horários vizinhos. O show do Roxette, em Recife, foi um ponteiro que visitou, com pontualidade britânica, estes três horários.

A seguir, vídeos do show do Roxette em Recife.


Vassourinhas – by  Christoffer Lundquist,  guitarrista da banda Roxette

Spending my time


Vassourinhas – by  Christoffer Lundquist,  guitarrista da banda Roxette

It must have been love


3 comentários:

  1. Adorei Cláudio! Perfeito! bjos e obrigada por dedicar a mim, o texto.

    ResponderExcluir
  2. Ainda fiquei pensando em ir, acreditas?

    ResponderExcluir
  3. Puts! Me obriga a ir da próxima vez! "It must have been love" tá demais! E eu chorei em "Spending my time" :õ)

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...