9 de maio de 2014

Filho, eis aí tua mãe: Nossa Senhora e a morte no estádio do Arruda


Fonte da imagem: blog Repare nisso


Mês das mães, mês de Maria
Agora mês da segurança no trânsito
Só não sei se para carros ou para pessoas vestidas de cofres blindados

Antes de hoje, foi dia do oftalmologista e também dia do silêncio
E como me recordo do olhar da jovem Maria, que, com apenas 48 anos
Virou Mãe da humanidade: que peso Jesus depositou sobre os ombros da Mulher:
Não bastavam as espadas furando a alma dela ,
Mas, fez isso Porque lhe tinha total confiança, o suficiente para sonhar que um mundo salvo e são
Não podia abrir mão de ter uma mãe

O olhar de Maria que, silenciosa, contemplava seu filho morrer na cruz
Para a mãe que perde um filho, todo dia daí pra frente é meio dia do silêncio

E quando Cristo disse: Mulher, eis aí teu filho
Nesse instante, todos os filhos perdidos apareceram como num filme diante de Nossa Senhora
Incluindo o soldador sobre o qual foi lançado um vaso sanitário
Por um indivíduo de uma terra que fez do bordão do Chaves desculpa para dar vazão aos instintos mais perversos temperados por uma piada sem gosto e desclassificada: “Foi sem querer querendo”. E assim, o homicídio culposo se torna medalha  e premia os crimes mais hediondos.
E Maria não conseguia compreender direito o riso de escárnio dos soldados e dos doutores da Lei
Porque esse sorriso foi sufocado por um grito organizado, criminoso, absurdo e ensurdecedor de torcida: de distorcida

Ao lado de Maria que viu seu filho morrer sem poder agir
Ajoelham-se todos os dias mães que preferiam estar cegas a ver seus filhos mortos por um maldito "sem querer querendo" falsamente disfarçado de revolta, ou de protesto: pretexto porcamente escrito pela crueldade escrota.

Soam os apitos, chamando os cavaleiros do Apocalipse, que não terão tempo de chegar ao estádio, diante da chuva, dos engarrafamentos, da falta de energia. E o soldador morto pelo projétil que lhe atingiu a cabeça
Não teve tempo para torcer pelos jogos da Canarinha e se juntará a outros soldadores que morreram atingidos por obras mal executadas

As Nossas Senhoras recebem em casa os cadáveres, sem consolo,
Quando eles não são jogados no lixo, sem direito a ouro, nem incenso, ou mirra
E Maria chorou porque não houve tempo de doar todos os órgãos de Jesus, com exceção do coração,
Que já havia sido doado em vida

E do olhar, que continua sendo doado até hoje

3 de maio de 2014

A quens amo: inspirado por Mário Quintana




Vesti um terno de sonho
E cheguei ao meu destino a bordo de uma carroça de branco
(Eu que tenho sido uma peça de á(i)s e branco num jogo trancado)
E atravessei o em vão, desviando de todos
E esbarrando em muitas solidões
A cada tropeço, o sol do meu caminhar queria se pôr
Senti saudade de calar em francês
Cada vez que ouvia tua voz
Vestida de porta fechada
Eu era um cavalheiro e seus segredos
Terno cor de névoa, terço de cristal no bolso
Tentando partir
Mas, a festa saiu antes de mim
E nos deixou a sós
Foi quando te apaixonaste por mim
Não do jeito que quis, sonhei ou pensei
Te apaixonaste por mim com toda a tua falta de jeito
E era isso justa e injustamente que eu buscava
Um convento esperava pelo retorno do meu vórtice cardíaco
Que deixaria cair um rosário por entre a fenda de mim partido ao terço
É difícil te esquecer porque teu rosto
Quanto mais ensaia o esquecimento, mais lindo se torna
Mais marcante: uma gravidade alada que caminha sobre mim calçada de luz descalça
Quando teu sorriso me tirou pra dançar
Todos os elogios se reduziram à timidez do teu olhar
Todos os meus rostos se resumiram a um Eu te amo e ao desejo de me esqueceres bem devagarinho


E pensando lá com teus botões de rosa: Faça o bem sem olhar aquém

1 de maio de 2014

Shakespeare! Saúde!: Quanto custará o amor depois do fim do Capitalismo?



The dead money
Fonte: ReverbNation

Ontem, em entrevista do Programa do Jô, José Garcez Ghirardi, especialista em Shakespeare, falou sobre como nossa época se parece com a do dramaturgo inglês. Segundo ele os períodos pré e pós têm mais em comum do que sonha nossa vã filosofia. Shakespeare está situado no pré-modernismo (entre Idade Média e Idade Moderna) e nós no pós-industrialismo (entre o Capitalismo e ?).

Apesar de o Index Librorum Proibitorum da Academia ter decretado que a discussão sobre prés e pós é algo ultrapassado, fica desta discussão um aspecto fundamental observado por Ghirardi: o de que vivemos um descompasso entre nossas atitudes e nosso repertório simbólico. O estudioso exemplificou isso com o rito do casamento. “Mesmo não sendo dada mais a mesma importância a questões como a virgindade e o código da Cavalaria, que pressupõe a mulher como subordinada ao homem, persiste a valorização do ritual matrimonial, com a representação clássica da mulher como dama virgem vestida de branco e à espera de seu cavaleiro no altar”.

Esse descompasso também houve na pré-modernidade, com Shakespeare. Eram homens e mulheres com uma subjetividade já moderna, ferida pelos valores do Renascimento, mas que estavam cercados do repertório simbólico do período medieval. Resumo da Ópera: os repertórios simbólicos da sociedade têm dificuldade de acompanhar as transformações da nossa subjetividade.

Esse preâmbulo foi um atalho pra chegarmos nas pesquisas de Jeremy Rifkin, que acaba de publicar seu novo livro "The Zero Marginal Cost Society" ("A Sociedade do Custo Marginal Zero"). Nesse livro, Rifkin discute sobre como a intensificação da produtividade e o desenvolvimento de novas tecnologias e das novas formas de interação humana mediadas por tecnologias, tende a tornar o Capitalismo desnecessário.

Num futuro não muito distante, algo por volta de 2040, cerca de 80% das energias serão renováveis. A Internet e as tecnologias comunicacionais tornam a difusão da informação cada vez maior, a um custo cada vez menor. O compartilhamento de bens, como casas e carros, cresce em ritmo acelerado. O que o pesquisador chama de Internet das Coisas, referindo-se a como a infraestrutura produtiva se torna inteligente por meio da integração das coisas através de circuitos e softwares, tende a ser uma cura (ou doença) endêmica num futuro próximo. Tudo isto representa um tiro certeiro no custo marginal de produção, culminando com a transformação do próprio trabalhador em algo obsoleto (coisa já prevista por Hanna Arendt em seu livro A Condição Humana).

O Capitalismo, nessa perspectiva, tende a perder espaço para outras relações de produção em que o acesso aos bens é mais importante do que a posse do bem. Rifkin avalia que o contexto em que estamos inseridos é semelhante àquele da transição da transição entre o Feudalismo e o Mercantilismo (período de esboço das características que viriam a dar forma ao Capitalismo). Esse tipo de transição gera medo porque não conseguimos, em termos simbólicos, conceber o que vem pela frente, embora autores como Manuel Castells já prevejam novas formas de dominação do homem pelo homem, baseadas não no controle da propriedade, mas sim no controle da interatividade (no domínio sobre determinados sistemas de interação mediada tecnologicamente).

Esta introdução foi outro atalho para chegarmos ao questionamento que convidou este texto a ser escrito: como será o amor quando não tiver Capitalismo? Ou Como vai ficar o repertório de símbolos associados ao amor com o fim do Capitalismo?

De alguma forma, já comecei a refletir sobre isso em outra postagem. Mas, não custa nada perder um pouco de tempo com reflexões esparsas...

Talvez, certamente, os sintomas da transformação do repertório simbólico do amor já estejam no ar. Um deles é a dificuldade de administrar as réplicas do amor.  Ex.: Alguém te manda flores... Conforme os antigos repertórios do amor, um gesto meio que acionava uma rede de expectativas relativas tanto ao passado quanto ao futuro. A intimidade nutria a expectativa de que o passado e o futuro precisariam ser compartilhados cada vez mais intensamente entre aqueles que intercambiavam gestos. Esse compartilhamento incluía forçosamente a DR (discussão de relacionamento) periódica.

Parece que o indivíduo pós-industrial está encarando esta rede de expectativas associadas ao gesto como algo no mínimo tedioso e no máximo torturante. O problema que surge é que não queremos mais nos inserir em redes de intercâmbio de expectativa, mas não inventamos ainda uma forma de, abrindo mão disso, cultivar a reciprocidade. Isto quer dizer que fica difícil viver intensamente momentos com uma pessoa (seja a amizade colorida ou incolor), extrair, em seguida, essa pessoa de nossa rede de expectativas, e depois querer retomar um contato intenso, de intimidade. Uma pergunta do nosso tempo: Como fazer quando, tendo excluído uma pessoa de nossa intimidade, sentimos saudade e, arrependidos, queremos retomar a intimidade com esta pessoa?

Outra pergunta destes tempos pós: Como faço quando, após romper com a rede de expectativas que me une ao outro, quero buscar nele uma reciprocidade pautada pela memória da intimidade que eu mesmo fiz questão de minar?

As redes sociais dão dicas de como nossa subjetividade está tentando enfrentar, aos trancos e barrancos, esta modificação do repertório simbólico do amor. Nossos “amigos” de redes sociais são pontualmente (pontualidade associada a um comentário, foto ou compartilhamento) encarados como irmãos unidos a nós por códigos de honra da Grécia Antiga ou da Cavalaria Medieval; logo depois, a “amizade” é preenchida por intervalos de distanciamento completo em que a presença do “amigo” é reduzida a um vulto, um fantasma, uma foto de perfil descarnada e inerte (e nessa frase não vai juízo de valor particular). E assim, o ciclo se repete. O problema do nosso tempo será: vamos conseguir transferir esse padrão esquizofrênico de amizade para as relações presenciais, pois, acredito eu, no contexto presencial, ainda é motivo de mágoa e decepção quando um “amigo” nos enche de carinho e de intimidade, para, em seguida, nos lançar no ostracismo. Sei lá, talvez sejam resquícios do antigo repertório simbólico do amor: talvez.

Quem sabe o novo padrão de amizade seja caracterizado por encontros de ex-amigos entre os quais se instalam grandes intervalos de descaso e distância. E, como comumente ocorre, os encontros de “amigos” passem a ser pautados pelo culto nostálgico ao antigo repertório simbólico do amor: quem sabe?


Mas, é certo que sempre haverá o movimento de resistência: daqueles que não abre mão, por convicção ou seja lá o que for, de seu repertório simbólico, e estão dispostos a enfrentar, sob o risco de parecerem ridículos ou loucos (na pior das hipóteses), o risco de não deixar o “passado” morrer à míngua. E, assim, Shakespeare continuará sendo redescoberto e não se tornará, como reza uma piada de mau gosto, onomatopeia do espirro.

Leia sobre o livro "The Zero Marginal Cost Society" aqui
Assista à entrevista com José Garcez Ghirardi, especialista em Shakespeare, aqui

23 de abril de 2014

As Confissões de Aristóteles: Entre o amor e a amizade... Entrem e fiquem à vontade: nus de preferência


Fonte da imagem: Paxprofundis.org

Um trecho inédito da Metafísica de Aristóteles foi achado durante escavações arqueológicas feitas num Curtir do Facebook. Quem me contou foi um ilustre poeta desconhecido sobre o qual sei tudo um pouco...
Algo jamais pensado: Aristóteles escreveu confissões que, talvez, tenham inspirado Santo Agostinho
Mas, as confissões de Aristóteles, ao contrário das de Adão, não tinham por fim expiar culpas, mas sim pedir licença à nudez para se despir um pouco do olhar dos deuses e ficar à vontade

Dizia Aristóteles:


“Por que não posso fazer amor com meu amigo?
Fazer amor não tanto pelo êxtase da troca de fluidos corporais (o que, certamente, já é bastante interessante)
Quero fazer amor com meu amigo pelo êxtase de embalar sua nudez com a canção invisível de minhas pupilas
Somos amigos e, portanto, podemos ficar nus um diante do outro, deixando para trás
As pesadas vestes dos tribunais, das tribunas, do curriculum
Meu amigo amado que me ensinou como dizer obrigado, traduzindo o silêncio para japonês
Se os anjos vigilantes me vissem acariciando teus cabelos,
Deixariam que voltássemos ao Paraíso durante um milionésimo de segundo
Que teu corpo abraçado ao meu converteria em tempo vivo e infinito, deixando o Big Ben corado de vergonha e inexatidão
Não tenha medo, meu amor amigo, pois o que mais desejo é que possamos nos amar
E seguirmos amigos sem vergonha de havermos nos abraçado nus
E, continuando amigos, não será nada demais se quisermos, de vez em quando,
Emprestar os lábios um ao outro, um ao corpo do outro
Te desejo, amor, com a mesma intensidade que te respeito, amigo
Me emociona te reencontrar e te ver livre para seguir em frente
 Nosso segredo é um impávido pavio que faz o clímax se espalhar por todo o relevo do meu corpo
Teu carinho me faz sentir relevante
E, mesmo quando aparentas estar chateado,
Tua gentileza me faz subir ao porto mais alto do pódio
E gosto de ser como champanhe escorrendo pelos teus abraços e beijos
Me excita muito quando me perdoas, amigo querido,
Pois, não há nada mais orgásmico que a gentileza
Se eu puder ajudar a aliviar alguma dor ou preocupação que esteja deixando teu rosto sério
Me diz, para que eu possa rezar pelo teu amanhã
Que sejas feliz com quem amas, com quem tem a sorte de estar contigo
O que não impede que possamos fazer amor, de vez em quando, com nossos corpos
E sempre com nossas almas
Queria poder te dizer com palavras o que digo nessa escrita muda
Teu nome tem jeito de mar e
Ao som de um violoncelo, deixa-me nu, sem vergonha de amar
Amigo amoroso, amado amigo
Não há o que temer, pois te ver em paz e tranquilo é o mais poderoso afrodisíaco
Que poderia provar
Tu és lindo, antes e depois dos óculos
Tu es inoubiable
あなたを愛して


Ass.: Aristóteles

Lições do menor Aquário do mundo

el acuario mas pequeno del mundo
Fonte: Putzgrilo



O Aquário

Me aproximava de ti
E tu acenavas para uma bela menina
Pensei comigo: mais uma estratégia para evitar que eu me aproximasse
E o contaminasse com minha pele e minha falta de tato
Luta de mil dias sem sono esta
Entre a hipertrofia de minha mente
E os fantasmas alheios invocados pelas impressões mal costuradas batizadas pelo disse-me-desdisse

Que vergonha chegar
Entro nos aquários
E o silêncio feito de risos estridentes
Me faz sentir vergonha de ser humano e também de ser peixe
E peço a Jesus que deixe para me multiplicar depois que a vergonha passar

E minha poesia é uma manhã infantil precisando do oceano profundo do teu colo
Não demore, pois antes que eu seja pescado pela trama do destinacaso
Quero sentir como é acordar teu cochilo dizendo: "Amor, preciso ir pra casa terminar a tese"
Me ajuda a entender que posso ser atraente pelo meu calor e não por ser um ímã de ditadura e culpa

Despe a veste de erro que cobre meus ombros 
E beija o ventre do meu pescoço (em francês, espanhol, inglês e português)
Com teu rosto de mármore, barba feita de restos de lua nova, de nicotina
E de carinho seco, retinto

Enlouqueci?
Rezo para tu acordares
E passei a gostar de gatos
E eles a gostar de mim, pois, por mais interesseiros e ariscos e na deles que são
Eles me fazem imaginar como é acariciar tua fofura embrabecida
Dou carona a teu anjo da guarda
Pensando como seria o dia em que tu não terias medo ou nojo da minha companhia
E espero o dia em que minha poesia aposentará o lamento
É que pelo menos quinze horas do dia sou obrigado a ser decidido, doce, austero
E se eu não me lamentar em cinco minutos sequer de poesia
Vou dar chance de a profecia estúpida de Doistoieviski se cumprir
E eu me tornar um rato que continua a ser humano

Antes o amor do que as profecias estúpidas de um escritor filósofo

Que meu Boa noite proteja de liberdade teu sono na Venezuela, em Recife, em Londres, Paris, às margens do muro caído de Berlim e aqui.

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