31 de março de 2018

E se Cristo não votar nem em Lula nem em Bolsonaro, Facebook?

Crucifixion
Fonte: Monastery Icons



Foi durante a Revolução Francesa (1789), na Assembleia dos Estados Gerais, que a divisão entre esquerda e direita foi aplicada pela primeira vez com finalidade política. A nobreza sentada à direita do rei e o terceiro estado, a plebe, sentada à esquerda.

Daí por diante, os termos direita e esquerda vêm sendo utilizados para classificar posições políticas expressas por meio de ações e de opiniões.

Recentemente, disputas ideológicas nas redes sociais têm promovido uma estranha mistura entre posicionamento político e posicionamento religioso, retomando a imagem bíblica segundo a qual à esquerda de Deus ficam aqueles destinados à condenação: o joio a ser lançado ao fogo eterno. Já à direita, ficariam os condenados à vida eterna (calma, isto é só uma ironia, à moda de Mário Prata!).

A tal con-fusão entre política e religião corresponde outra con-fusão: entre conclusão e premissa.
Reza a “lenda”  greco-latina que a conclusão deveria ser fruto do debate onde o confronto entre argumentos, colocando à prova as premissas dos debatedores, aponta para a conclusão.

Mas, nas redes sociais, onde o pseudo-debate tem sido a bola da vez, os comentários aparecem como uma passarela onde desfilam premissas surdas ao contra-argumento, como se fossem herdeiras dos mandamentos gravados por Deus nas tábuas da Lei. Nas redes sociais, não falta quem alegue ser viúva de Moisés ou de algum profeta.

No debate sincero, as pessoas se permitem ouvir umas as outras, com os ouvidos da mente e do coração, e duvidar de suas certezas, com o coração e com a mente.

Li uma postagem no Facebook, falando sobre a intenção de Jair Bolsonaro, caso eleito presidente, fazer do ator Alexandre Frota ministro da cultura. Nessa postagem, um eleitor de Bolsonaro se posicionou contra a referida intenção. Logo apareceu um comentador insinuando que o eleitor de Bolsonaro seria a favor de exposições onde crianças fossem expostas à nudez (uma referência a uma polêmica exposição em que uma criança tocou o corpo de um modelo nu ).

Outros comentadores poderiam ir mais longe e dizer que alguém contrário a Bolsonaro, mesmo que pontualmente, seria a favor da pedofilia e, portanto, de esquerda, com base na premissa de que a esquerda é a favor da dissolução da família.

Indo um pouco mais além, um último comentador poderia concluir que a pessoa que se posicionou contra a intenção de Bolsonaro não é cristã, por ser de esquerda, e, portanto, a favor da dissolução da família, da libertinagem, da pedofilia, da homossexualidade e etcs nada cristãos.

Perceba-se que a argumentação, cujo papel é questionar as premissas e oxigenar a reflexão, é substituída pela tortura asfixiante de uma determinada posição. E os instrumentos de tortura passam a ser premissas que acreditam ser conclusão quando, na verdade, são pressupostos que almejam o status de dogma.

Assim, se uma pessoa questiona uma determinada opinião de Bolsonaro, logo terá seu questionamento implicitamente classificado como heresia e condenado à tortura, a ser açoitado por pressupostos dogmáticos disfarçados de argumentação. E nessa “ágora” fascista, a fogueira das vaidades antecede o julgamento e reduz a cinzas o direito ao contraditório.

Nesta semana santa, descobri, no Facebook, que Cristo é de direita e é eleitor de Bolsonaro e quem questiona Bolsonaro é de esquerda e, portanto, contra a Bíblia e contra Cristo.
Mas, não me preocupei, porque o próprio Cristo foi considerado um anticristo por ter questionado se valia mais a pena guardar o sábado do que fazer o bem.

Cristo era a favor da igualdade, sentava-se com os considerados indignos e era a favor do desarmamento (“Aquele que vive pela espada, pela espada morrerá”, disse Ele). Sendo assim, Cristo discorda de um ponto central da plataforma de Bolsonaro. Por isso, seria ele de esquerda e, portanto, não seria cristão?

Cristo morreu para que sua mensagem não fosse reduzida a nenhuma plataforma política, mas, agora, a sua mensagem tem sido reduzida a pasto que alimenta o gado comandado por doutrinadores que mal esperam pelo momento de usurpar o lugar de Jesus à direita do Pai.

Fico pensando o que aconteceria se Cristo dissesse que não é contra humanos que se beijam na boca: mesmo que sejam do mesmo sexo.

Se isto acontecesse, Cristo seria condenado a não poder mais proferir bem-aventuranças? Seria a paz de Cristo considerada suspeita e jogada na masmorra? 

Se Bolsonaro for eleito, a cruz deixará de ter dois braços, sendo reduzida ao lado direito?

Se Cristo quisesse votar nulo, a Bíblia precisaria ser reescrita ou simplesmente algum supremo iria impedi-lo de retornar no dia do Juízo Final?

4 de fevereiro de 2018

Como se declarar a um desconhecido

Mandacaru by Karla Vidal


Quando eu te conhecer,
Será que serás muito outra pessoa?
O que me espera após atravessar esta serra?
Poderei ser contigo meu eu capaz de rasgar a vestimenta
Da própria nudez?

Quando eu me apresentar,
Não estranhe porque quanto mais doce é meu sol
Mais inflamável é meu sou
Talvez, isso te atraia porque ouvi dizer que nas horas não vagas
Gostas de apagar incêndios

Imagine que esta linha é uma das fileiras do cinema do shopping
E que nossas mãos fingindo ser bobas se olham
A linha do teu coração começa a sarrar com a linha do meu destino
Meu ouvido se rendendo ao calor da tua floresta de sussurros

Meus lábios cegos esperando que os teus, especialistas em braile,
Os traduzam na linguagem do silêncio: Ok, pode jogar fora essa metáfora cansada
E voltemos ao beijo

Existem no mundo milhões de pessoas que nunca conheceremos
E das cem que acreditamos conhecer, milhares se tornam estranhas
Quando a cerração ameaça os fantasmas do navio
Não entendo por que, diante de tantas páginas a céu aberto
Fico aqui sonhando uma estratégia de me perder em teus labirintos

O desencontro é vibrante nota da música secreta do mundo
Permita-me, nesse desencontro, chamado poesia, te conhecer intimamente
Antes de nos desencontrarmos, aproveito pra me despedir
Espero que possa te achar bonito
E redesenhar o trânsito da cidade
Para que os engarrafamentos te façam desaguar
Num jantar à luz de velas que preparei pra nós
E que tua profissão não te obrigue a apagar esta chama

Antes de pensar que sou um stalker,
Reveja Amelie Poulan
E desassine a Veja

Ficarei devendo o som da minha voz
No próximo desencontro, quem sabe?
Ou quando eu te acionar pra me reduzir
a cinzas, até que o “não tem mais jeito”  desminta o “ Agora parto”

E, com aliviante surpresa, possa me parir fênix

15 de janeiro de 2018

Quando tatuei cranberries invisíveis no peito: uma carta a Dolores O'Riordan


Foto: Independent.ie


Meu coração não é fácil de partir. Até porque ele nunca avisa quando vai chegar

Semana passada um amigo partiu meu coração. Queria que, gravando uma tatuagem em algum lugar do meu corpo ou fazendo um trocadilho ou quem sabe sendo uma flor de mandacaru no deserto do sarcasmo, eu conseguisse fazer a tristeza ganhar o páreo e me deixar pra trás

Mas, o tempo não quis me contar o segredo da pomada que usa pra aliviar a dor da decepção quando tatuada na alma

E, como tristeza poupa é bagagem, soube no Plantão da Veja (que, graças a Deus, não tem música como o plantão da Globo), que Dolores O’Riordan, vocalista do Cranberries, faleceu subitamente ainda agora

Você que já se perdeu no desemprego, que teve um(a) chefe que faz de tudo pra você “assumir” a homossexualidade (como se isso fosse um crime), que teve um Eu te amo devolvido porque os Correios fingiram não ter encontrado sua residência, que pensou nas crianças mudas e telepáticas...
Você que se sentiu inexato em algum instante

Em algum desses momentos, o lamento irlandês dos vocais do Cranberries brotou na sua sala de “Deixa Estar”

Uma asa branca traduziu voo e pousou nos galhos de um acorde de gaita de fole para tentar explicar que foi dolorido saber da notícia de que a última gravação de O’Riordan será uma sonata de agudos silêncios às margens do rio Estige

Talvez Psiquê, que adora um desafio, consiga me trazer um autógrafo de Dolores, a mim que desisti de pedir autógrafos quando comecei a calar...

Quem se acha no direito de dizer que o outro não tem vida devia tomar vergonha na cara e ouvir uma maratona de Cranberries e se deixar tomar pela graça

Sò sei dizer que quando Dolores O'Riordan esteve frente a frente com a esfinge, ela disse: Pega teu violão e canta pra que eu te decifre

Dedico esse texto a uma pessoa de quem gosto muito imensamente e que adora responder meus zaps com kkk.

Ao aniversário de Iara Lima.


1 de janeiro de 2018

O que 2018 pede ao coração de Pégasus


Milan, Pegasus, Gallery, Statue, Vittorio Emanuele Ii
Photo on VisualHunt.com


2017 pediu-me um grande amor
Acho que o primeiro passo foi dado
Porque consegui ser o grande amor de mim mesmo

E o primeiro sussurro de 2018 me pede não tanto um grande amor
Mas um amor que se perceba estrela:
Grande como o sol, no centro do sistema
Pequeno como um grão de fóton nas mãos de uma galáxia

2017 pediu que minhas asas de cera
Suportassem assédios e úlceras
E engravidou de kairós este coração caruaruense de Ícaro
Que, em 2018, parirá um promissor Seguir em Frente

O novo amor de 2017, dessa vez, veio a meu favor
Ajudando minha telecinese a fuzilar as flechas de Guilherme Tell
O novo me disse não
Mas, dessa vez eu não me disse Não: e isso é bastante importante

O meu valor está, a passos largos,
Deixando de se ajoelhar diante de línguas ferinas
E de olhares que fingem ver o mundo com clareza
Mas são janelas com passagem só de ida para o umbigo

Acredite em mim, 2018
Porque o amor que sinto pela vida
Tornou-me capaz de desatar o nó de pequenos “impossíveis”
Minha fé não moveu montanhas,
Mas, as montanhas estiraram o pescoço
Para enxergar como funcionava minha fé

2018 pede que haja mais mechas de vento nos meus cabelos
E para que o Cântico dos Cânticos
Toque na vitrola das profecias
Que me lembrarão como é o rosto do meu novo amor (novo de novo)
E como é o coração dos velhos amigos
Mesmo quando eles estiverem disfarçados de desconhecidos

Os cabelos brancos de um eu que me acena do novo começo da jornada
Chegaram pra confirmar que 2018 é um ano de amizades
Que não terão mais vergonha de dizer Eu te amo
E de amores que descobrirão a bênção de se abraçarem até germinar
O límpido Sou Seu Amigo

2018 exige que os que foram feitos pra se amar se encontrem e se reconheçam
E os que foram feitos para ser amigos se reencontrem e não se desconheçam

2018 chega ninando uma onda de paz, respeito e gentileza
Ele não é político. É arqueólogo-mergulhador, que não se contenta em ser superficial
Não medirá esforços pra achar o que existe de belo, bom e justo na diversidade
Não se contentará em procurar alegria no falar da vida alheia

2018 convida os incompetentes a deixar de mangar dos detalhes dos outros que fazem cócegas em sua cegueira
E, se eles não quiserem atender este convite, permanecerão dançando sozinhos, cercados de ventríloquos que fingem ser adoradores

2018, prometo que minha identidade continuará sendo meu nome
E não o que faço embaixo do edredon

Prometo que a criança que se perdeu em Maragogi quando tinha 4 anos,
Será encontrada por seu futur’amor sem cobrança de juros

Prometo que não desistirei de ser cavalheiro (por mais hercúleo que seja esse trabalho),
Como me pediu uma familiar desconhecida de 70 anos na praça de alimentação lotada do shopping

Prometo que meu despudor continuará não devendo satisfação a nenhum cargo comissionado
Prometo que não me tornarei vingativo, mas não deixarei de ser reativo
E que tentarei compreender as razões de Ben Solo

Posso até perder o sabre, mas saiba que não jogarei fora o sol da minha luz
Esse tipo de força já foi libertada das correntes da promessa há muitos oceanos


2018, o que você não me pede sonhando, que eu não te diga: Bem-vindo!
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