8 de setembro de 2011

O Japão também tem uma Nossa Senhora



Nossa Senhora Japonesa



No século XIX, em meio ao fortalecimento de visões de mundo pautadas pela eugenia e pela nefasta conjugação entre o evolucionismo de Darwin, o racismo e o imperialismo econômico, Maria escolhe aparecer nos mais diferentes lugares da Terra. 

Assume feições e vestes correspondentes a estes lugares. Ela, como dirá o compositor Padre Zezinho, escolhe ser Nossa Senhora das milhões de luzes e não apenas das luzes do Iluminismo eurocêntrico. Existe, inclusive (e foi isso que chamou atenção para escrever esta postagem) uma Nossa Senhora de olhos puxados. 

Nossa Senhora de Akita é o título conferido a Maria, após sua aparição no Japão, em 1973. Aparece à irmã Agnes Sasagawa Katsuko. Ao fim desta postagem, transcrevemos parte do relato desta aparição.

O esmaecimento das fronteiras entre os povos é atestado pelo fato de um anjo, que aparece acompanhando a voz de Maria, recomendar à freira que reze uma das oraçoes ensinadas aos pastores de Fátima, mais de cinquenta anos antes. Nossa Senhora pediu que esta oração fosse proferida ao fim de cada mistério do terço: "Meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos todos do inferno. Levai as almas todas para o Céu e socorrei, principalmente, as que mais precisarem de vossa misericórdia!".

A seguir, outras aparições que indicam a preocupação de Maria com a causa da diversidade. Saiba mais sobre o tema no site Últimas e Derradeiras Graças.


Nossa Senhora de Kibeho
Onde aconteceu: Em Ruanda (África centro oriental). 
Quando: Em 1981. 
A quem: principalmente oito pessoas.

Nossa Senhora de Cua
Onde: Na Venezuela. 
Quando: Em 1976. 
A quem: A Maria Speranza Medrano de Bianchini.

Nossa Senhora de Medjugorje
Onde aconteceu: na Iuguslávia.
Quando: de 1981 até o presente.

Nossa Senhora de Todos os Povos, na Holanda 
Onde aconteceu: Em Amesterdam - Na Holanda. 
Quando: Em 1945 (final da Segunda Guerra). 
A quem: A Ida Peerdeman.


O respeito à diversidade é característica das aparições marianas de longa data. É o que atesta sua visita, com feições indígenas, a Guadalupe, no México. Ao aparecer a um índio, ela contesta o monopólio da cristandade, tido até então como privilégio dos cristãos católicos europeus. Além disso, Maria contesta também a ideia em voga, na época, de que o índio não era um ser humano.

Esta aparição continua viva nos olhos da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. Após inúmeras análises científicas, foi provado que estes olhos são formados por tecido humano e vivo. Mas, tal aparição permanece vital também como denúncia da ameaça que a diversidade vem sofrendo por discursos baseados numa espécie de neo-totalitarismo, como ilustra a ideologia do responsável pelo massacre na Noruega.

8 de setembro é, no calendário da Igreja Católica, o dia dedicado à lembrança da natividade de Nossa Senhora. Não deixe de ver na seção Conexões Absurdas, deste blog, o texto Debate entre Nossa Senhora e Nicolau Maquiavel.

 
Trecho de um relato da primeira aparição de Nossa Senhora de Akita, disponível no blog Ani Ledodi Vedodi Li :

"Naquela noite profunda, por volta das três horas da madrugada, eu estava rezando, quando ouvi uma voz, sem distinguir de onde viera a me dizer: 'Não tenha medo. Não reze apenas pelos teus pecados, mas reze em reparação pelas faltas de todos os homens. O mundo atual fere o Santíssimo Coração de Nosso Senhor por sua ingratidão e por suas injúrias; a ferida e a dor de Maria são muito mais profundas do que as suas. Vamos, então, à capela; eu vou rezar com você."

"Senti-me, pela primeira vez, encorajada a olhar o rosto daquela que estava tão perto de mim, à minha direita. Ao vê-la, notei a grande semelhança com a minha irmã amada, que havia falecido havia alguns anos, após ter recebido a graça do Batismo. A emoção fora tão grande que eu pronunciei o nome da minha irmãzinha. Então, sorrindo, com doçura, com um ligeiro movimento de cabeça, simbolizando "não", a imagem disse: "Eu sou aquela que está contigo e que cuida de ti." Fez então um sinal de despedida e desapareceu."

"Rapidamente vesti o meu hábito e quando cheguei ao corredor, "ela" já estava diante de mim. Eu a segui através do longo corredor, passos rápidos, possuída por um sentimento de segurança comparável ao de uma criancinha que é levada pela mão. Assim que entrei na capela, aquela que estava tão perto de mim, como presença segura e tranqüilizante, desapareceu de meus olhos.”.


Irmã Agnès Sasagawa Katsuko
 

Nossa Senhora de Todos os Povos - Holanda



Nossa Senhora de Akita























7 de setembro de 2011

Série: Tarsila do Amaral e Freddie Mercury - Capítulo 3: Tarsila, amiga de Mário de Andrade

Tarsila do Amaral, Retrato de Mário de Andrade, 1922, óleo sobre tela, 54 x 46 cm.
 
A seguir, reprodução de uma carta escrita, em 1923, por Mário de Andrade para Tarsila do Amaral. A reprodução foi extraída da revista Imaginário Poético.
 
 
Querida amiga

Se é mesmo verdade que os gregos e os romanos tratavam seus deuses com familiaridade amiga, creio que foi o cristianismo que trouxe para os homens ocidentais o temor pelas entidades divinas.
 
Aproximo-me temeroso de ti. Creio que és uma deusa: NÊMESIS, senhora do equilíbrio e da medida, inimiga dos excessos. Quando um homem da Terra era demasiado feliz, via crescerem-lhe terras e riquezas, e tinha em torno de si braços, lábios de amor, coroas de glória e alegrias somente, Nêmesis aparecia. Vinha lenta, com seu passo lento, sem rumor. Mas ao homem-da-Terra fugiam-lhe riquezas, alegrias. Perdia amor, glória e riso.
 
És Nêmesis, sem dúvida. Eu era são. Alegre, confiante, corajoso. Mas Nêmesis aproximou-se de mim, com seu passo lento, muito lenta. Depois partiu. Doenças. Cansaços. Desconsolos. Ainda todo o final de dezembro estive de cama. Venho agora da fazenda onde repousei 10 dias.
 
Mas será mesmo Nêmesis? Que és deusa, tenho certeza disso: pelo teu porte, pela tua inteligência, pela tua beleza. Mas a deusa que reprime o excesso dos prazeres? Não creio. Tua recordação só me inunda de alegria e suavidade. És antes um consolo que um pesar. A verdadeira, eterna Nêmesis, são as horas implacáveis que passam dia e noite, dia e noite, sol e escuridão. Estou nos meses da escuridão. Foi a fraqueza que me fez pensar que eras tu Nêmesis. Perdão. Estou a teus pés, de joelhos. Mais uma vez: perdão.

Espero tua carta longa, contando coisas breves de Paris. Já estou a imaginar a lindeza do meu Picasso. 

Obrigado.
Dize-me alguma coisa da Arte. Já estás trabalhando? Pintas muito?
Recebeste Klaxon n° 7?
Adeus.
 

Série: Tarsila do Amaral e Freddie Mercury - Capítulo 2: Tarsila do Amaral, amiga de Chico Xavier


Tarsila do Amaral, Manteau Rouge (auto-retrato de Tarsila do Amaral), 1923, óleo sobre tela, 73 x 60cm.


Tarsila do Amaral era uma mulher decidida, empreendedora e visionária. Mas, como qualquer ser humano, não estava imune à depressão. A Grande depressão de 1929 a abalou financeiramente. Contudo, ela canalizou a energia deste abalo para seu trabalho artístico. 

Era manifestamente moderna, mas, na hora da dor, tornava-se romântica, procurando refúgio no universo da arte. A intensidade desta fuga é perceptível no fato de a artista não medir esforços em tentar se abrigar, por meio da pintura, no sonho e nos imaginários míticos ancestrais. E, nesse refúgio, silenciava a depressão com cores vivas e por meio do gigantismo das formas, uma maneira de desmentir a pequenez humana.

Ela foi vitimada por vários golpes. Em 1930, finda o casamento com Oswald de Andrade. Contudo, remedeia a depressão com o trabalho. 

Nos anos 60, a depressão acaba levando certa vantagem, pelo fato de Tarsila ter passado por dois eventos traumáticos sucessivos. Em 1965, vítima de um erro médico, fica paralítica. Um ano depois, perde sua filha única, Dulce, por conta do diabetes.

Neste momento, Tarsila procura refúgio na espiritualidade, vinculando-se ao Espiritismo e tornando-se amiga de Chico Xavier. Passou a doar parte do dinheiro da venda de seus trabalhos para uma instituição administrada pelo médium.

Série: Tarsila do Amaral e Freddie Mercury - Capítulo 1: O "Love of my life" de Tarsila, o "Abapuru" de Freddie Mercury

Retrato de Oswald de Andrade , 1922 óleo sobre tela, c.i.e. 61 x 42 cm Coleção Particular Reprodução fotográfica Romulo Fialdini


Freddie Mercury compôs Love of my life, inspirado no amor que sentia por Mary Austin, com a qual viveu durante cinco anos.

Mesmo separados, após o cantor ter assumido a bissexualidade, mantiveram uma amizade inabalável até o fim da vida dele. Ao se separarem, ficaram ainda mais ligados.


Tarsila do Amaral também teve um “Love of my life”: foi a tela O Abapuru, composta em 1928 para presentear Oswald de Andrade. Atualmente, a tela pertence à coleção Constantini, localizada em Buenos Aires.

Aliás, trata-se do quadro brasileiro vendido por maior valor: um milhão e quinhentos mil dólares. A reprodução, ao lado, foi fotografada por Romulo Fialdini. Conheça detalhadamente a trajetória de Tarsila do Amaral, visitando o site oficial sobre a artista



31 de agosto de 2011

Burlemarx não é um boulevard... Será que não?


Copacaba boardwalk by Christina Andrada


102 anos depois de Burle Marx ter nascido, estou tendo a cara de pau de falar sobre ele. E a expressão cara-de-pau é bem adequada para começar a falar deste artista para quem a natureza tinha de fato uma face.  Este raciocínio também é válido na contra-mão: a face traz em si marcas análogas às paisagens da natureza.

Como meus olhos são, paisagisticamente falando, virgens, vou me dar o luxo de falar sobre Burle Marx como quem psicografa uma mensagem vinda do além-mundo da despretensão (ou da pretensão, como se queira interpretar).

É recorrente, nas composições de Burle Marx, a sinuosidade. Não uma sinuosidade barroca e labiríntica, mas uma sinuosidade cíclica, com ritmo definido, semelhante à forma latina de finalizar a marcação de um compasso musical quaternário. Trata-se de uma forma geométrica que abriga a filosofia do eterno retorno.

Burle Marx proporcionou uma ida do homem à Lua bem mais completa do que a proporcionada pela corrida espacial. Sem armas e sem guerra-fria, ele nos permite, até hoje, caminhar calçados pelas fases da lua.

Como atesta o olhar fotográfico de Christina Andrada, o mesmo calçadão de Copacabana, banhado pelo fim de tarde, torna-se um chão de sertão semi-árido entrecortado por abismos de sombras. Quando eu tiver oportunidade de caminhar no calçadão de Copacabana, aposto que sentirei o pulsar cósmico do In Yang sob meus pés.

A obra de Burle Marx transforma-se conforme a distância que se abre entre ela e o olhar. De perto, é um jardim, mas, de longe, torna-se um quadro impressionista e, se nos afastarmos mais, um quadro expressionista que flerta com mapas geo-morfológicos e geo-climáticos.

Talvez, os jardins de Marx se inspirem nos mares de morros de Pernambuco ou nos mar do Rio de Janeiro. Mais especificamente na sinuosidade esculpida pelo amor inconstante entre as ondas e a areia. Mas, quem sabe a paisagem de Burle Marx não queira explorar a unidade secreta entre mar e morro: o mar-morro ou o morro-mar? Este esforço de conciliar contrastes se reproduz na tentativa de harmonizar, em seus jardins, a exuberância da vida-e-morte selvagem e os desertos ladrilhados.

Não pude deixar de perceber, no Burle Marx visto à distância, uma astronomia ao contrário. Se os astrônomos esforçam-se para ver em tamanho natural os pontos de luz do espaço sideral, Burle Marx convida a um movimento contrário, o de desprezarmos a dimensão macroscópica. Quem vê os jardins de Burle Marx de longe, acaba por vê-los se converterem em nebulosas. E, neste caso, o calçadão de Copacabana pode ser visto como a representação de galáxias distantes, uma ao lado da outra, entremeadas pela escuridão interestelar.

Em contrapartida, certos jardins de Burle Marx vistos de longe se assemelham a células durante seu processo de reprodução ou durante a fagocitose (processo de alimentação celular).  O jogo entre o macro e o microcosmo faz da obra de Burle Marx uma rememoração do elo ecossistêmico que une todos os seres. Neste sentido, os jardins lembram que somos parentes tanto das bactérias quanto das estrelas; somos tanto a exuberância como o deserto.

O compromisso de rememorar este elo universal faz com que a caminhada pelos jardins de Burle Marx se torne uma transição entre portais do tempo e do espaço. Vale, então, o exercício lúdico de dividir o corpo entre os dois diferentes lados desses portais, ficando, por exemplo, com um pé na Amazônia e o outro na caatinga; ou com um pé no Brasil e outro em cidades dos antigos impérios pré-colombianos.

Karl Marx, primo do avô de Burle Marx, criou certa ojeriza ao sonho e à fantasia, exilando-os na prisão representada pelo conceito de ideologia. Burle Marx preferiu em vez de estimular a rivalidade entre realidade (condições materiais) e imaginário, converter esta rivalidade em beleza.

A primeira vez que ouvi falar de Burle Marx foi há dez anos, durante uma de minhas primeiras entrevistas, com a paisagista Ana Rita Sá Carneiro. Quando ela falou em Burle Marx, eu, atravessado pelo espanto e pela ignorância, perguntei: O que é isso? Será algo tipo um boulevard?

De alguma forma, creio que ele sempre foi um primo segundo não só das árvores como de toda vegetação. Então a associação entre Burlemarx e boulevard seja uma senha para o acesso à conta secreta do destino. A maior riqueza que a obra de Burle Marx me proporciona até hoje é a de continuar me inquietando, de continuar convertendo em investigação os espantos e as ignorâncias. E, como diz meu professor, Antony Cardoso, sempre será válida a pergunta metonímica: O que é Burlemarx?



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