16 de março de 2011

O que aprendi com Bruna Surfistinha e filósofos

Lançado pela Editorial Presença.
Destila Cioran, com o elegante e doce veneno-remédio da ironia: “Se acreditamos com tanta ingenuidade nas idéias é porque esquecemos que elas foram concebidas por mamíferos”.

As prostitutas não são citadas. Também como isso poderia acontecer se, classicamente, elas não têm nome. Hoje podem ser Maria, amanhã Madalena e depois, quem sabe?, Maria Madalena.

As prostitutas têm nome de batalha, mas permanecem anônimas.

O prazer que as prostitutas proporcionam é pelvicamente abraçado pelo anonimato. Por isso, quando uma prostituta ou ex-prostituta se lança como escritora vira, na melhor das hipóteses, alvo de bom-humor e, na pior, de chacota.

O que é atribuído como pecado à prostituta não é o fato de ela escrever, mas de pensar. Não é o fato de publicar um livro, mas de tornar-se uma figura pública, mesmo que escoltada pelo rótulo de pseudo-celebridade.

Existe um pensamento por si só bom, belo e justo? Existe uma vagina ou um pênis, por si só, bom, belo e justo? O que faz um pensamento é um abraço pélvico entre pensamentos, assim como o que faz o sexo é o abraço pélvico entre o pênis e a vagina, ou entre os pênis, ou entre as vaginas. Assim como o que faz o amor é o abraço entre os seres: em corpo, alma e divindade. Não importa: o que faz o bom, o belo e o justo é o abraço. Meu pensamento só, o de Paulo Coelho só, o de Cioran só, o de Diderot só, o dos idealistas só: são todos iguais, igualmente ___________ (complete com o que quiser!)

Quem é mais digno de pensar: Cioran ou Raphael, Miguel ou Clécio, Paulo ou Machado? Bruna ou você ou Eu? Responda esta pergunta colocando-se no lugar do coelho de Alice no País das Maravilhas. Responda como quem é pressionado pelo tempo, pela história e não como quem vive de reflexão: da prisão em sua auto-imagem veiculada por espelhos.

As prostitutas - tantos dirão, pensarão e quererão - não podem converter-se, nem se o próprio Cristo endossar o cheque a ser descontado no banco do desejo de mudar. É como se a vida delas fosse um cheque cruzado pelo demônio, somente por ele podendo ser descontado. E quem não tiver sede de mudança que atire a primeira certeza! Se Jesus tivesse feito essa convocação, tavez sua morte não tivesse sido morte de cruz.

Uma prostituta que escreve, lê, pensa! Mais fácil seria Paulo Coelho fazer essas coisas, não é mesmo? Pode uma prostituta surfar? Pode um surfista filosofar? Pode um filósofo ser um empreendedor? Pode um empreendedor ser um filósofo? Pode um bruxo ser acadêmico?

Quantas perguntas precisam ser feitas para se desfiar o rosário dos preconceitos? Sei somente que até a rosa-dos-ventos se cansa de ser unicamente norte, sul, leste e oeste, desabrochando nordestes, noroestes e outros “estes” e fugindo da unidirecionalidade.

Texto leve e divertido... Qual?: o de Bruna Surfistinha, o dos filósofos, o de quem cita ou o de quem é citado? O de Maria Bethânia, que poderá vir a ser financiada pelo Ministério da Educação, com até metade do valor pago pelo Big Brother, ou o dos anônimos financiados pela cultura que não há nos ministérios?

Será que se Bruna Surfistinha fosse citada como uma anônima, e seu livro fosse mencionado como “um espaço”, ela não se tornaria mais digna de ingressar na Academia?

E se Madame Bovary citasse Bruna em seu blog? Será que ela não seria aplaudida de pé? (Qual das elas? Escolha por si só, se for possível).

Decidir quem é digno de falar, quem é digno de pensar, quem é digno de ter um nome, quem é digno: sonhos de fariseu abrigados na minha-sua-nossa alma tupiniquim.

A crítica da razão não permite que os fariseus descansem em paz. E eles não descansarão em paz enquanto continuarem sendo imitados?

Comecei esta postagem citando Cioran porque talvez – tão-semente talvez – os títulos, as honrarias e as licenças poéticas continuem precedendo o diálogo e o entendimento.

Aproveito o espaço para recomendar o texto Filosofia e Prostituição, escrito antes deste e depois de outro, por Raphael Douglas, no blog Um ano Existencialóide.


16/03/2011, 22h37: Ao trocar um "n" por um "m" ou um "c" por um "ç", quantos canhões-preconceito faço serem virados contra mim?

Erro propositalmente como forma de cutucar os que desejam secretamente a ruína alheia. Texto que se refaz ao longo do dia, como quem diz: "não se afobe não, que nada é pra já". A escrita-em-mutação. O futuro descobrirá que quem  inventou esse tipo de texto não fui eu, mas sim Chico Buarque de Holanda (:

18 de fevereiro de 2011

Os filhos da puta da Filosofia e os budas ditosos no banco dos réus




"Platão, aquele filho da puta, responsável pelo fascismo tecnocrata da República, babaca, devia ser castigado com uma encarnação perpétua como Ministro da Administração do Brasil. Babaca, eu não posso ler A República sem ficar com vontade de ir lá e escumbalhar Sócrates, aquele veado sebento – isso era o que ele era, um veado sebento e burro, que não comeu Alcibíades, ora homem, creia, não comer Alcibíades, quem era ele para não comer Alcibíades, quando qualquer um de nós comeria?" - trecho de A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro

Nesta postagem, plantarei sementes de irresponsabilidade teórica no solo do exercício frouxo da reflexão, ou, melhor dizendo, da reflexão frouxa. Como a personagem central de A Casa dos Budas Ditosos, regurgito aqui uma dose de revolta contra a filosofia.

“Platão, aquele filho da puta!”, diria ela, com o verniz de paráfrase por mim aplicado. A crítica da personagem dirige-se ao fato de o filósofo ter lançado as bases de uma cultura que coloca a satisfação humana num extra-mundo, relegando a corporalidade e a sensorialidade ao lugar de cópia mal-acabada da perfeição, do ideal.

Em verdade, não é este o único modo de conceber o platonismo, visto que Platão levava sim em consideração o valor da beleza corporal e da sexualidade. Mas, não como pódio, como faz a atual cultura erotizada.

Em Platão, a sexualidade e a sensorialidade representavam a largada, a porta de entrada para o universo do ideal, das formas perfeitas e transcendentes: a maior porção do iceberg, representada pelo Mundo das Ideias. Se este mundo das ideias é descorporificado ou, contrariamente, é a experiência utópica da sensorialidade plena, isto ainda não consigo decifrar.

Mas, hoje, quero concordar com a prostituta de João Ubaldo e dizer que Platão é um filho da puta, que preferia a tirania à democracia, que fazia a filosofia encher a boca de arrogância e cuspir na cara da arte: para ele imitação redundante e desnecessária da natureza.

Se eu estiver errado em minha análise, quero esquecer da culpa e do impulso de me redimir, que se acorrentam a meu calcanhar: quero, ao menos hoje, concordar com a prostituta e dizer que Platão é um filho da puta.

E não é só Platão que é um FDP.

Sócrates? Indo de porta em porta, na casa de pessoas que nem o conheciam, para jogar na cara delas que tudo que elas achavam ser verdade não passava de comodismo mofado.

Aristóteles? Por causa dele, fiz papel de bobo no 3º ano. O professor chegou com um exercício: Qual destas afirmações é verdadeira:

  1. Uma caneta que acabou de secar deixa de ser uma caneta.
  2. Uma galinha que acaba de morrer deixa de ser galinha.
  3. Todas as afirmativas são falsas.

Marquei a terceira opção.
“Vejo que você não é tão inteligente assim”, traumatizou-me o professor, que também é um filho da puta...

Tanto a afirmativa 1 quanto a 2 eram verdadeiras, na concepção do meu professor e, claro, na concepção de Aristóteles! Para ele, o ser é a combinação de forma (ação e evolução) e conteúdo (matéria). Faltando algum desses elementos, não há ser.

Vê só que filho da puta! Eu, acostumado com a ideia platônica de que a essência liga-se à alma eterna, imortal e transcendente, nunca entenderia como sendo lógica a afirmação de que uma caneta deixa de ser caneta por falta de tinta. Para mim, o ser da caneta era o ideal de caneta marcado na minha mente. A tinta era só um acidente de percurso, adquirível em qualquer papelaria.

Descartes? Um transtornado obsessivo compulsivo. Converteu em discurso do método a vontade inconsciente de habitar um mundo embalado à vácuo, livre de qualquer grão de poeira, inclusive dos radicais livres. Um mundo sem dúvida e incerteza e sem sonho: um rosto sem rugas: um código genético para a proteína do Adobe Photoshop... Sim, o filho da puta do Descartes brincou com o discurso do método como os designers brincam com o Photoshop.

Hegel e sua dialética?  O sim que, ao mesmo tempo, é não. A síntese dos contrários. Tudo depende, tudo é relativo, tudo é nada. Filho da puta omisso: Hegel dispensou completamente o Photoshop, mas difundiu o uso de uma das piores máscaras: o centralismo político. Tudo bem que ajudou a combater o radicalismo, mas em nome de um radicalismo igualmente danoso: o da abstenção.

Marx: sorveu o sangue de Hegel até a última gota e ainda criticou o sabor. Fez isso com outros: Feuerbach, Demócrito. Pregou o comunismo, mas era sustentado por um burguês (Engels).

Descartes incentiva a pecar por pensamentos. Marx por atos. E Hegel, por omissões. E a culpa, a tão grande culpa: recai sobre os que seguem suas ideias.

Platão me roubou a lógica corporificada. Aristóteles me roubou a lógica idealista.

Nietzsche roubou-me a lógica. “Uma montanha pode ser uma estrela dançante. Basta que você deixe de se comportar como um macaco que escraviza a razão, em nome da lógica: convenção convertida em verdade por força da repressão e da culpa. Abra caminho para o Além-do-Homem”.

Esta paráfrase do pensamento de Nietzsche pode parecer mesquinha e selvagem. Mas garanto que não é mais selvagem que os aforismos deste filho da puta.

“Os subjugados lutam por justiça porque têm inveja da capacidade dos poderosos de pisar no pescoço dos fracos com salto agulha”, diria o nazista do Nietzsche, com tons de paráfrase por mim aplicados.

Adorno e Horkheimer? Execraram o pensamento de Walter Benjamin para, depois de sua morte, sugar o melhor de sua filosofia e convertê-la numa colcha de retalhos. Refiro-me à Dialética do Iluminismo.

Benjamin era um verdadeiro crítico, que combinava a leveza da curiosidade infantil com o inconformismo cristão. Pecou por ser muito sensível e por ter recusado o convite para lecionar na Universidade de São Paulo (USP). Pecou por confiar no filho da puta do Adorno.

Adorno converteu a razão em cálculo frio, estratégia de guerra, burocratização da existência e crueldade institucionalizada. Fez do pessimismo crítico de Benjamin – que apontava para um horizonte de esperança ressurgida da opressão derrotada – um pessimismo acrítico: um beco-sem-saída.

Já Horkheimer? Um boneco de ventríloquo nas mãos de Adorno.

São muitos os filhos da puta da filosofia. Depois falo de outros.

Mas, como a filosofia seria filosofia se não fosse puta, se fosse totalmente pudica, recatada e intocada?

Agora posso voltar a admirar estes filhos da puta e descansar em paz.

Quem tiver olhos para ler anagramas de trás pra frente, que julgue este texto!


P.S.:

FILOSOFIA E PROSTITUIÇÃO - Emil Cioran
O filósofo, desiludido dos sistemas e das superstições, mais ainda perseverante nos caminhos do mundo, deveria imitar o pirronismo de trottoir que exibe a criatura menos dogmática: a prostituta...
Continue lendo a comparação que Emil Cioran faz entre a filosofia e a prostituta em: Um ano Existencialóide

Aproveito para indicar o blog Dédalo e Ícaro, do professor Francisco Lopes, do qual foi retirada a charge que introduz esta postagem. O blog traz vídeos, textos de apoio, ensaios, reflexões, crónicas, documentos e livros para download.


Vídeo contendo trecho encenado de A casa dos budas ditosos - Julgue por si mesmo e me livre deste fardo:


25 de janeiro de 2011

Feridas de Narciso e a ilusão da alma

Narciso after Caravaggio - Vik Muniz





Há séculos, a humanidade está adaptada à revolução copernicana. Mesmo assim , continuamos empregando a metáfora de que o sol nasce e se põe, fazendo de conta que a Terra é o palco estático onde, ao longo das horas, o sol dança em êxtase o balé do dia.

A persistência dessa metáfora é sintoma do que Freud chama de feridas de Narciso, em referência ao mito do rapaz que ao olhar sua imagem refletida na limpidez de um lago, apaixona-se por si mesmo e ao tentar se abraçar cai nos braços do afogamento.

Inconscientemente, o ser humano não teria se conformado com o fato de a Terra – macro-expressão de sua própria individualidade - não ser o centro de atenção do cosmos. Por esta razão, persistiria a metáfora do nascer e do pôr do sol: como um tipo de torniquete, que tenta estancar a hemorragia de nossa tendência narcísica de ser o centro, de não conseguir desvincular nossas reflexões do eu: do quintal, do umbigo.

Uma tendência dos estudos neurocientíficos, chamada de fisicalismo, está preparando o terreno para o florescimento de uma nova ferida narcísica. De acordo com o fisicalismo, o que eu sinto ou o que penso deixam de ser o centro do sistema solar de minhas atitudes. O centro passa a ser o cérebro com sua arquitetura de sinapses neuronais.

Desta forma, o agir não é devedor do pensar ou do sentir ou de valores que nos transcendem ou habitam uma alma insondável existente no interior das pessoas. As diferentes arquiteturas de conexões das células cerebrais seriam a verdadeira fonte do agir, sendo o pensar uma pálida imagem, um subproduto da engenharia elétrica cerebral.

Roubado do chão da crença numa alma imortal - de valores eternos e transcendentes que pautam suas decisões - o ser humano estaria sujeito a uma nova e fatal ferida narcísica, a da perda do próprio eu. Se a consciência corresponde a uma determinada arquitetura cerebral, novos arranjos do mapa de estímulos às regiões cerebrais poderiam ser desenvolvidos. Não seria estranho prever a criação de tecnologias de edificação ou desmoronamento de “eus”.

Mas, como dirá Eduardo Giannetti, grande difusor do fisicalismo no Brasil, a proposta desta corrente teórica não é atirar à queima-roupa na transcendência, na alma, na mente ou no sentimento. O mistério da alma, segundo ele, torna-se ainda mais misterioso com o advento do fisicalismo. Isto ocorre porque as certezas que costumamos ter sobre a alma e a eternidade, recorrendo a estas noções a fim de lastrear preconceitos e perenizar condutas, deixam de ser certas. Essa reflexão é um dos centros do livro A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa (Companhia das Letras), de Giannetti.


O mistério, nesse sentido, deixa de ser asfixiado pelo hábito e reacende importantes questionamentos, a exemplo de “O meu agir deve ser fruto exclusivamente do que sinto?” ou “ Qual o conceito de eterno ao qual vinculamos a fé, a esperança e o amor?”

O espelho, descrito por São Paulo na primeira carta aos Coríntios (capítulo 13), torna-se ainda mais confuso. Mas, estranhamente, a confusão pode nos ajudar a ter melhor clareza quando substitui certezas esclerosadas que um deturpado romantismo vincula a vozes ditatoriais que, muitas vezes, fazemos coincidir com a noção de alma.

Espero que o fisicalismo possa contribuir para que humanidade futura rompa com determinismos e  inquisições que, plantadas em irrefletidos conceitos de alma, convertem a própria capacidade de refletir em uma espécie de bruxa a ser caçada pelos tribunais de insidiosas certezas: tanto religiosas quanto científicas.

E também espero que apelos eugenistas ou frankensteineanos não tomem conta do fisicalismo.

A ilusão da alma, menos do que afirmar que a alma é uma ilusão, indiretamente fala sobre as ilusões que a alma enfrenta. O sentimento e o pensamento podem ser fruto de conexões neuronais, mas o ser – a síntese inquieta entre corpo, alma e divindade - não pode ser reduzido a nenhum tipo de conexão seja de ordem física ou de ordem espiritual. Esta é a ilusão da alma com a qual precisamos não brigar, mas sim conversar constantemente, tentando depurar a tendência humana de misturar mistério, boa-vontade, certeza, emancipação e tirania.

A imagem que abre esta postagem foi encontrada no blog  A redenção da alma, que cria pontes entre as artes, as ciências e o pensamento de Jung.

6 de janeiro de 2011

Crise de identidade da Filosofia faz bater o coração dos super-heróis

Capa do e-book Os "vazios silenciosos" no coração dos super-heróis


O coração dos super-heróis pode funcionar como um espelho por meio do qual o edifício filosófico encara suas fraturas, contradições e vazios: suas crises de identidade.

Esta é a ideia que serve de alicerce para o livro Os “vazios silenciosos” no coração dos super-heróis, de Cláudio Clécio Vidal. Publicado em formato eletrônico (e-book), o primeiro volume da obra investiga super-heróis dos universos norte-americano e japonês, a exemplo dos X-men, dos Novos Titãs e de Saint Seya, história conhecida, no Brasil, como Cavaleiros do Zodíaco.  

O livro pode ser acessado, de forma gratuita, no endereço eletrônico: http://cleciovidal.blogspot.com/


Segundo o autor, a filosofia, tradicionalmente, comunica-se através do discurso oficial, que busca valores como a plena coerência e conclusões de caráter definitivo. 

As narrativas de super-herói, encaradas como representações imagéticas de conceitos abstratos – ou alegorias - comportam-se como uma espécie de evangelho apócrifo, contrapondo-se a interpretações canônicas de noções filosóficas. No ponto de vista de Clécio Vidal, os personagens, ao contracenarem, expõem como as “verdades” filosóficas são oscilantes e ambíguas, revelando a trama secreta de sentidos oculta pelo discurso oficial.

Nesta perspectiva, as contradições deixam de ser entendidas como no sense. “As contradições da filosofia encontram, nas narrativas de super-herói, um palco para dialogarem. Desta forma, temos acesso a um mapa de versões alternativas das noções filosóficas”, explica o pesquisador.

Uma das principais inspirações para a reflexão do comunicólogo foi a teoria de Walter Benjamin a respeito do drama barroco alemão, cuja herança, de acordo com Vidal, foi transmitida, em certa medida, para as narrativas de super-herói. Pensadores como Hegel e Michel Foucault são outras referências trabalhadas no livro.

Sobre a relação entre a obra e o livro Super-heróis e a Filosofia, organizado por Matt Morris e Tom Morris, Clécio Vidal explica que, conforme destaca o subtítulo, o livro dos Morris fala sobre como verdade, justiça e o caminho socrático refletem-se na superfície e nos valores dos super-heróis. 

Por outro lado, o propósito de Os “vazios silenciosos” é encontrar nos super-heróis um espelho que reflete sobre a dúvida e os descaminhos da filosofia, o que, segundo o pesquisador, é outra maneira de falar sobre a justiça. “Acredito que os dois livros, apesar das diferenças, são igualmente válidos na tarefa de aproximar a filosofia e a mitologia dos super-heróis”, afirma Vidal.

O e-book é fruto de uma adaptação da dissertação de mestrado em comunicação, defendida, em 2006, por Clécio Vidal. O design gráfico é da empresa Pipa Comunicação (www.pipacomunicacao.net).



21 de dezembro de 2010

Oficina da alma, Zélia Duncan e o verbo empinar = Feliz Ano Bom!




As imagens descrevem o que podemos ver.

Começar uma mensagem com este tipo de tautologia: nada mais ofensivo, nestes tempos, em que novidades se estapeiam por uma parte que as caiba no latifúndio da atenção.

Mas a afirmação inicial não é tautológica. Existe uma categoria de imagem que funciona como aparato tecnológico da teimosia: da teimosia de dizer o indizível, de fazer ver o invisível.

Assim acontece com as tentativas de dar contornos imagéticos à alma. Como diz o antropólogo Norbert Elias, o ser humano moderno, sem nenhuma evidência, instituiu como imagem mais definitiva da alma o “dentro”. A alma é o que está dentro de nós. Um dentro que se aproxima do coração, enquanto órgão associado ao centro da vitalidade: ânima.

Mas a alma é também imaginada como horizonte que, do infinito (cuja face desconhecemos), flerta conosco, ao mesmo tempo que nos esnoba, deixando-nos a opção de nos contentarmos com migalhas de seus reflexos: a vida. Mas, como lembra Cristo, as migalhas, à sombra da fé, do amor e da esperança, são como pérolas preciosas, como grãos de mostarda que trazem em si a mais frondosa das árvores, o mais fértil dos reinos.

Chamou minha atenção, ao fazer uma pesquisa básica sobre a alma, no Google, que um dos links apontava para um site chamado Oficina da alma (www.oficinadaalma.com.br). Comecei, então, a pensar na evolução do repertório de imagens relativas à alma.

Biblicamente, há imagens lindas descrevendo a intangibilidade da alma. Ela é descrita como sopro de Deus plantado na argila que, moldada pelo criador, dá origem ao ser humano. É descrita também como ave que, a despeito do caos circundante, paira sobre as águas, projetando a ordem da natureza.

Espero que seja esse o sentido que se aproxima da expressão “oficina da alma”: o de acreditar que a alma é obra de um artífice cuja preocupação primeira é não a obra final, mas a arte de descobrir, constantemente, novas formas de se burilar, sem desprezar nem o compromisso calçado na ordem nem tampouco a criatividade incubada no caos. Mas também sem sucumbir aos apelos totalitários dessas duas instâncias.

No Hinduísmo, a alma é imaginada como um oceano cósmico cujas ondas vão e vêm, oscilando entre o Nirvana - a perfeita harmonia dos opostos - e a existência material, atravessada pelos desequilíbrios. Os seres vivos são a onda que quebra na praia, refletindo, em gotas esparsas, a plenitude oceânica. Diferente das ondas, porém, o espírito humano não morre na praia e, após o ciclo da existência material, é recolhido de volta ao grande oceano: o seio do Deus/Deusa supremo/suprema. A imagem hinduísta da alma é a de um ciclo sem começo nem fim.

Outra imagem bíblica da alma, presente no livro Eclesiastes, a descreve como uma espécie de pipa, ligada ao corpo por meio de um cordão de prata. É uma forma de representar o não-lugar da alma, que ora erra pelos desertos do infinito, do sonho, do inconsciente, ora retorna ao cárcere do interior, o “dentro” do ser. Se bem que o infinito também pode ser visto como cárcere e o interior do ser não deixa de ser um deserto. Em sendo assim, a alma também pode ser imaginada como um prisioneiro ou uma miragem: uma flor perpétua.

Torço para que a expressão “oficina da alma” não seja sintoma de que o imaginário a respeito da alma está se reduzindo ao de um carro que, de tempos em tempos, precisa de uma revisão mecânica. E, se for assim, que a imagem mecânica da alma esteja mais para o Professor Pardal do que para João de Dondis.

Mas existem imagens contemporâneas da alma que preferem a leveza da poesia cotidiana à engenharia automotiva. Exemplo disso é a música “Alma”, composta em 2002 por Pepeu Gomes e Arnaldo Antunes e posta em vôo pelas cordas vocais de Zélia Duncan. A música subverte a metáfora do “dentro”, do quarto escuro, e lança a profundidade da alma na epiderme, na superfície.

O peso da alma, relacionado ao porão do inconsciente, habitado por traumas e perversões, é trocado pela leveza, o riso e a simplicidade que, sem a obrigação de fincar raízes, flutuam na superfície, como o suor. Este deixa de ser tratado como algo nojento e passa a ser visto como imagem da despretensão. O sentir na pele toma o lugar da inatingível alma concebida por Platão.

Mas a superfície da alma, nesta música, não deixa de remeter ao vôo que permite ao ser o prazer de, vez por outra, escolher lançar-se em órbita e perder-se ao espiar a evidente, porém indescritível, paisagem do planeta azul.

Esse é o significado mais próximo que posso encontrar para o verbo empinar. O gesto de empinar uma pipa revive a imagem da alma contida no Eclesiastes, mas também a magia da mecânica, a paisagem da janela do astronauta, o suor da despretensão: orvalho (suor da natureza).

A empresa Pipa Comunicação condensou vários aspectos do repertório de imagens da alma na sua vídeo-mensagem de ano novo. Nela, vemos como, catalisada pela música Alma e por imagens do cinema, uma pérola posta na palma da mão se torna sinônimo do primeiro passo de uma criança e a imensidão da alma pode revelar-se tanto em um conjunto de cataratas como num simples chafariz.

Inspirado por Sérgio Porto (ou Stanislaw Ponte Preta), escolho como imagem da alma, para finalizar, a de um “Feliz Ano Bom” para você e todos os seus.




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