12 de junho de 2023

Sobre as garrafas poéticas

 


Uma vez, você me perguntou porque eu postava garrafas poéticas no mar

Não sei a resposta, mas arrisco dizer que as pessoas fazem isso

Para que os pássaros que trazem no coração possam sair das gaiolas

E navegar pelo mundo ânfora em busca do que possa manter viva e ressuscitada a sede


Quem lança garrafas ao mar quer desmascarar todas as âncoras

Tornando-as Ancaras lindas e de inquieta paz


O turbilhão do mar não deixa de ser uma roleta

Onde lanço a aposta de que você vai ler minhas garrafas

Uma aposta que nunca vou perder

Porque o objetivo nunca foi propriamente eu ser lido,

Mas é você ser amado


Em vez de presentes e exposição nas redes

Te dou, hoje, segredo e ingresso para sair da zona de conforto 

Aceito namorar com você retroativamente

Conhecer você em todas as vidas

E reconhecer você quando o tempo perder a razão de existir


Espero que você aceite dormir no incômodo poético que causo

Porque, mesmo de longe, quando o bater do meu coração vê você

Faz o mar se derramar para amortecer a aterrissagem de minhas garrafas poéticas




31 de maio de 2023

Poema quebra-cabeças



 


Quando me pego admirando alguém, logo em seguida, percebo

Que achei nessa pessoa uma das peças de um quebra-cabeças

Que me devolve a lembrança do seu rosto, seu corpo

Mas, sempre fica uma peça faltando: preenchida pela saudade


Como um ontem que só pode se tornar amanhã uma vez por semana,

Visito você nos fragmentos da vida diária

E, nas minhas esperanças, superações, esforços, hospedo o contentamento

Pelas tuas esperanças, superações e esforços


Quis me teletransportar pra onde meu Bom Dia beijasse o seu;

Dizer alguma impropriedade ao ouvido de você

E manter o Capitalismo por alguns instantes em cárcere público


Mesmo quando sou impróprio, pertenço a você

Como Pégasus se deixou pertencer ao céu estrelado

Um quê de florescer possa estar presente em cada letra

Do alfabeto dos seus sonhos


Não se ausente de mim 

Porque a saudad sente falt de você nos meus dias

18 de maio de 2023

O que não tem preço

 


                                    Colagem - Karla Vidal


Você receberia quanto pra deixar eu ser seu amante?

Não pergunto por achar que você tem um preço,

Ou que o amor tenha preço (culpa da curiosidade jornalística)


É porque, na modalidade de consultoria, não haveria, talvez, lugar para a timidez 

Uma cláusula contratual poderia afastar o medo de que, depois do amor,

Viessem cobranças ou represálias, de ser alugado por qualquer tipo de dependência


Na verdade, pagar seria fazer de conta que o amor é pago

Como quem abre um paraquedas pra aliviar a leveza da imensidão

Fazer de conta que o amor é pago pra atenuar a curiosidade

De saber como é sentir sua respiração (a)tingindo minha aura

E me revestindo de clímax


E, se houver outra (s) amante (s), não quero tomar conhecimento

Basta que esta pessoa saiba que não pretendo ir embora

Que meu segredo vai continuar inventando novas maneiras

De não esconder de você o quanto me orgulho,

O quanto é bom você me carregar nos braços enquanto voa

O quanto vale a pena desafiar o espaço-tempo pra ensinar meu dia-a-dia

A fazer parte do seu


Que sua próxima viagem seja linda como a lua que brinca 

De ser brinco de pérola dos jardins de você

Vá, mas sempre volte 

Porque quando você volta tudo que possa ser escuridão se apaga








2 de maio de 2023

Sobre o farol



Foto: Karla Vidal


Seria amante do você que me lê

E, nesse teatro secreto,

A única plateia seria um amanhã sem o veneno da cobrança


Sou irmão, amigo e paz o suficiente

Para, depois de amar, ancorar minhas tempestades

Como um bom leitor, sei que o prazer do espetáculo não se resume ao clímax

Na verdade, o dia-a-dia é tão orgásmico quanto o êxtase


A repetição será sempre bem-vinda

Quando ela estiver pronta e disposta a visitar minha entrega

Ou ser a favor da minha procura


No meu sonho, todos de joelho sobre o mar verde 

E meu olhar, mesmo que não o mire,

Sabe no coração o quanto o admira 

Como um farol que quer se perder nos braços do navegante

E se reencontrar na alma do faroleiro



 









5 de abril de 2023

Viagens

 

                                                                         
                                                                   Foto: Karla Vidal


O hábito de escrever me faz pensar na hipótese de que escrevo bem

Chego a acreditar que sei o que vou dizer quando a página em branco me convida 

A entrar pela única saída que pareço ter


Mas, não consigo saber se o que escrevo é errado o suficiente ou certo o bastante

Mesmo assim, fico feliz em acreditar que o incômodo poético que 

Eu possa secretamente causar não impeça seu retorno de querer tornar a me ver

E que você, mesmo quando esteja revoltado, siga plantando a semente

Da minha companhia no solo onde seu peito aceita que a maçã do meu rosto 

Encosta para germinar, topando, pra isso, escalar qualquer montanha


Ex-calado, sinto vontade de abraçar você: com e sem abraço

E todas as outras formas de carinho: com e sem os sete sentidos

Na verdade, amo todas as suas voltas 

Com todas as instabilidades meteoro(i)lógicas que elas possam conter


Fico feliz que sua rosa de ventos tenha voltado a soprar

Onde a brisa oriental é pura

E que suas voltas e revoltas

Ajudem a cicatrizar o que me desoriente


É meio tenso, mas tem sol e me excita bastante ser reescrito pelo crivo do que inventas







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