21 de dezembro de 2013

Reginaldo Baudelaire Rossi e o doce buquê do "Foda-se"




Tomara que a lembrança de Reginaldo Rossi ajude uma parcela do mundo a sair do estado de coma. E que a inocente falta de vergonha desse pernambucano faça com que as prisões perpétuas de Uganda se tornem jardins de sempre-vivas.

Reginaldo Rossi chama atenção para algo comum no atual estado de coisas, que é o medo de sentir vergonha. E a coisa se agrava porque temos vergonha de sentir medo. E desse jeito, a coragem segue acanhada e tacanha. O brega, reino que foi outorgado a Rossi, é um oásis em meio ao deserto da vergonha de sentir medo de sentir vergonha de sentir vergonha de sentir medo de sentir medo.

Por isso, Reginaldo Rossi, no fim da década de 90, foi uma explosão entre os adolescentes. Foi por tirar o peso que é atribuído, por força de tabus decrépitos, a questões bestas como levar um par de “gaia”. Reginaldo Rossi suavizou, mesmo sem se dar conta, e, sem tomar partido, o rigor tanto de machismos quanto de feminismos e não teve vergonha contribuir para arrancar dos corações a cobrança ancestral de passar a vida na beira do tanque do moralismo, tentando, em vão, lavar a honra, como se a honra ou qualquer outro valor fosse impecável.

A busca contemporânea pela asseptização dos sentimentos, expressa nas fórmulas do “politicamente correto” ganhou, da voz de Reginaldo Rossi, um buquê de doces e delicados “Foda-se”. O sentimento, para o rei do brega, não precisa ser impecável e esterilizado, para nos fazer entrar no Céu.

De alguma maneira, as canções de Rossi servem como música de fundo para a poesia de Baudelaire, em especial aquela do anjo que, ao cair do Céu e perceber que sua auréola ficou toda amassada e melada de lama, olhou pro lado, jogou fora a referida auréola e decidiu aproveitar o resto do dia na pele de um ser humano, com seus amores-imperfeitos, pecáveis, porém amores.

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