4 de julho de 2024

A senha de acesso à chama

 


Foto de Karla Vidal na Unsplash


Se você soprar a poeira da minha chateação esporádica,

A alegria de reencontrar você vai estar ostentando sua reluzente discrição

E, se você polir minha armadura, vai perceber que meu corpo arde sutilmente

Só você tem a senha de acesso a minha chama, meus chamados e minhas declarações invisíveis


Só perto de você eu consigo tremer de calma

Conheci você bonito

E reconheço você lindo: com bocejo e tudo

Se meu silêncio brigar com você

Se meu passado, sem querer, projetar em você algum medo dele,

Não desista de lutar por mim

Com as armas do não ir embora


Você conta comigo

Ver você revestido de cotidiano 

Acende o desejo da minha chama

Minha poesia tem coragem de ser falha

E abalo sísmico quando está perto-longe de você

Você  fica charmoso quando pega no sono

E, mesmo assim, não me perde de vista



13 de junho de 2024

Uma canção de Françoise Hardy como presente de Dia dos Namorados

 





Independentemente da correria ou da calmaria, 

Meu pensamento não deixa de encontrar tempo

Pra estacionar na lembrança do você que enche de sentido a nascente do meu carinho

E mesmo quando não penso em você

Meu inconsciente torce pra que seus sonhos sejam realização da cabeça até a raiz dos pés

Quando vejo uma foto do meu você,

Não consigo distinguir onde começa meu coração e onde termina a poesia:

Os dois batem forte: um sorvete de calor com calda de Via Láctea


É o seu corpo que meu desejo se sente à vontade pra sobrevoar

Você chegando pra me buscar

Meu segredo não quer saber de outro namorado pra mim que não seja você

Perto ou longe, sua companhia está presente em todos os meus voos

Mas não quero que ela seja passageira


As portas do meu abraço, das minhas mãos sensitivas de pianista

Estão abertas pra seu toque

Porque a sua existência, sem se dar conta, é senha de entrada


Meu eu com 15, 16,17.... 117 anos

Aceita se enamorar por você

Do jeito que for

Do jeito que tiver de ser


A cantora francesa Françoise Hardy morreu na véspera do Dia dos Namorados

Me lembro que a primeira vez que ouvi uma canção dela

Lembrei na hora do seu rosto, muito antes de conhecer você

Quero ouvir com você músicas da playlist de Françoise Hardy

E segurar sua mão quando seu olhar me contar o que você gosta de ouvir


Cada vez que nos reencontramos, o tempo vira um presente pra mim

O passado vira presente para quem fui-sou

E o futuro vira presente para que fui-sou-serei 








22 de maio de 2024

Dia do Abraço e o aconchego da Lua

 




Posso pedir pra você fechar os olhos agora e me teletransportar para o seu abraço?

Deve ter chegado agora uma mensagem invisível no seu Instagram

Raspe as cargas elétricas da tela do celular


Por trás da camada invisível, está escrita minha mão

Traduzida em pista de voo liberada para a aterrissagem da sua,

Para o pouso do seu corpo e o repouso do seu pensamento, inclusive

Quando ele estiver vestido de espírito


Nosso abraço tem capacidade de promover

A intersecção entre dia de chuva, ócio produtivo, Sessão da Tarde e Biscoitos Sortidos

Confiança é a marca do que sinto quando você aceita o convite para consertar meus pesadelos

E para fazer parte do concerto dos meus sonhos

O instrumento que toco gosta de descobrir-se uma extensão de você


Se precisar me dar uma carona,

Pra jogarmos silêncio fora

Ou até mesmo conversar,

Pode usar como aquecimento

Aquele exercício de acariciar seu rosto na minha mão

De transportar os pontos sensíveis do seu corpo em meus carinhos

Eu acho graça em você sem esperar que você faça milagres


Hoje vou deixar aberta a porta do meu abraço

Pode entrar sem medo de ser feliz

Você é especialista em deixar minha luz acesa

Até quando me chateia

Meu você mais lindo

Hoje é um dia bom para treinar minha saudade e minha poesia com você

Desculpe por eu não conseguir me arrepender de você entrando no meu coração


Sinto que quando nos abraçamos, mesmo que seja com os braços do olhar

Ou com os braços da distância

Nosso abraço é capaz de aconchegar a Lua







30 de abril de 2024

O "se" como estratégia de xadrez mental

 


Foto: Karla Vidal


Diante de tantas mudanças, vou me permitir jogar um pouco de xadrez mental


Se for muito difícil pra você dançar comigo, mesmo que eu esteja numa galáxia distante,

Me desconvide do baile

Quebre o sapato de cristal antes mesmo que a fada madrinha o fabrique

Eu não tenho o costume de obrigar ninguém a dançar comigo


Se minha poesia incomoda, não precisa me dizer

Basta voltar no tempo e me desconhecer

Porque pra eu dessentir o que sinto por você

Não há como porque eu já escrevia pensando em você

Antes de sonhar que você existisse.


Se estiver arrependido ou preocupado com a opinião de algum mestre do universo,

Ou com o que tenha sido dito sobre mim,

Adiante o relógio ou inicie o baile à meia-noite pra que eu não possa comparecer: 

Pode aproveitar e convidar os falantes para amenizar o azedume,

Comendo doce feito com a abóbora que não teve chance de virar carruagem


Se sua opinião sobre mim for como a de Graciliano Ramos

Sobre o carcereiro que o ajudava quando ele foi preso político,

Me desescreva de sua biografia


Eu não acho mais que eu seja capaz de causar nojo,

Então, este "se" está fora de questão


Se meu olhar ou qualquer outro sentido meu incomodar você,

Eu aviso a eles

Pra irem embora na frente e mandarem a passagem pra meu coração ir embora

Um dia; depois

Porque, mesmo que nada mais faça sentido,

Meu coração ainda assim vai querer ficar com você quanto tempo for possível ou impossível


Se você tem dúvida de que é você quem escolho,

Não tenha

Mesmo que eu dê algo de presente a alguém

Meu presente-futuro é com você


Quando eu olho pra trás  ou para frente e lembro da hora do recreio...

Só você pra fazer meus recreios fazerem sentido

Só você pra me buscar na saída do colégio

E andar de mãos dadas comigo, mesmo que estejamos anos-luz distantes

É você que gosto de encontrar nas esquinas do meu pensamento

E que desejo ver se perdendo e se achando nas ruas do meu corpo


Sei lá que bexiga lixa é isso: você me chateia e, muitas vezes me desencanta,

Mas não quero que nenhum outro seja meu príncipe

Depois de saber disso, você pode se permitir desistir de mim


Se não for nada disso

Se você apenas se sente à vontade pra, dia sim dia não, 

Mostrar seu lado mais chato pra mim,

Saiba que eu acho você muito fofo quando está chateado

23 de abril de 2024

Sobre a programação neurolinguística

 





Me propuseram utilizar a programação neurolinguística para desgostar de você

Pensei nos programas que poderíamos fazer juntos

Pensei em você chegando junto da minha cintura, pedindo guarita no meu cobertor

Pensei em você chegando, permanecendo, se despedindo, voltando, se revoltando

Até quando eu me chateio, meu olhar que finge evitar você acha você lindo


A programação neurolinguística não conseguiu me tirar do seu colo

Não conseguiu impedir que o vento esculpisse sua lembrança em mim

Nem teve coragem de pedir ao meu sorriso bobo e discreto

Ou a minha cara de abuso que deixassem de emoldurar

O desejo que sinto; o desejo que tenho de ver você vencendo não como quem é capaz de derrotar,

Mas sim como quem conhece a rota que conduz à paz inquieta da alegria

O orgulho que sinto de você entrelaça meus dedos nos seus e deita meu rosto no seu peito


Você sempre poderá roubar da minha finitude instantes de eternidade 

Esse roubo não será crime porque parte de mim é inteiramente sua

Ser ouvido por você é realidade que vira sonho

Aceito namorar com você seja qual for a distância ou a proximidade

É muito gostoso o ter remoto e tremer quando você está por perto

Meus sonhos adoram ter como prefácio você me carregando nos braços


Não tenho nada contra a gratidão

Só tenho um pouco de medo que ela seja um pedido para eu deixar de gostar de você

Seu Sim faz meu espírito de luta revoar



9 de abril de 2024

Escolha


 Colagem de Karla Vidal


Quando o baile de ontem começou,

Estava receoso de que você dissesse que não ia me tirar mais pra dançar

No final, você só me desejou Bom Descanso

E, talvez, eu tenha ficado chateado e tenha dito: "Pra ti também."

Mas, foi coisa de momento: era pra eu ter dito: 


Pra você também

Você que escolhi e escolho

Que me colhe

A quem desejo e quero

Acolher


Não quero chamar outro de Você: que não seja você.

Se você é um nome próprio ou impróprio, não importa

Gostou da escolha que fiz?

Eu aceito você e espero que você me aceite também

Nossa cumplicidade possa seguir dispensando testemunhas


Receba-me com minha dança

O ardor de quando chamo você 

Não tem como ser por favor o que é por comovente fervor

Meu corpo de delito é a favor de que as próximas contradanças

Sejam com você


Espero você vir me buscar na hora do recreio e na saída do colégio

Espero por você na chegada e na partida

Com meu espírito de luta e meu corpo de delito


É provável que você, com um olho nas costas, tenha anotado meu sorriso secreto 

Sentiu o cheiro remoto do perfume que se passou por mim?: foi a Roma e pegou uma conexão no vento

Pra chegar até você


Parece que já estou invadindo o próximo poema...

Até o próximo baile


9 de março de 2024

Homenagem a Akira Toriyama, que criou Vegeta

 



Tem horas em que você parece o personagem Vegeta (se lê Vejita), de Akira Toriyama:

É áspero, seco, arrogante e confunde deboche com ironia

Mas essa fina camada não consegue disfarçar o rio de doçura

Do qual é feito o coração do você que é livre para ir embora, mas que eu quero ter por perto

Assim como a fé quer ter por perto a esperança

 

Se for me dizer pra eu não voltar, quero que você saiba

Que a distância nunca se permitiu ser vencida como quando nos reencontramos


Vegeta não fica com raiva quando quem ele ama se sente feliz: ele só fica sério

Eu sou na minha o suficiente pra me sentir feliz sem cobrar nada em troca de quem,

De algum modo, me ajuda a sorrir no silêncio do coração

Se você ou Vegita não acreditam nisso, danem-se


Akira Toriyama foi embora para onde as esferas do dragão não precisam ser 

Caçadas e obrigadas a conceder desejos

Ninguém precisa ser caçado e obrigado a conceder desejos


O você que amo é amado como Vegeta é

Obrigado, Akira, por ter criado Vegeta assim como ele é, parecido com o você de quem gosto como ele é

Obrigado, Senhor, por sempre estar recriando o você que me lê 








23 de janeiro de 2024

Sobre a presença remota e terremotos

 


Colagem: Karla Vidal


Faz algum tempo que não venho aqui,

É que estou ajudando meu livro a terminar de se escrever

Acabei voltando porque, quando escrevo pra você,

Minha alma se sente mais à vontade no meu corpo de delito

E quando desejo você meu corpo se sente mais à vontade, em sua alma, de ser lido


Em 1999 e em 2099, eu olhava o céu, do quintal da Terra;

O atemporal, que serve de cobertor às estrelas, guarda o segredo

De que eu já conhecia o você que lê meus poemas

Pra achar a senha de acesso ao universo que só fará, verdadeira e mentirosamente, sentido pra ele.


Tive a impressão de ter visto a França me assistindo treinar a arte que se alimenta do erro novo e melhor: problema algum, além do ciúme que é tão grande

Imaginar você no interior da França sem estar no meu interior: não consigo sem que as falhas da minha presença remota virem terremoto e me desliguem da sua existência.

Não consigo ser partido ao meio em partes assim desiguais.


Problema é eu compreender, com a presença da França, que eu não sou bem-vindo

Na sua existência

Que você me quer fora da sua semente: verdadeira e mentirosamente

Se a presença da França for sinal de que até minha presença ausente e distante incomoda você,

Vou deixar uma pergunta: como você quer que eu vá embora?

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