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29 de abril de 2018

Como Dante Alighieri revelou os mistérios divinos e, mesmo assim, escapou da fogueira?

A obra do pensador pernambucano Anco Márcio Vieira explica como Dante, escritor italiano do século XIII, de uma só tacada, elevou ao ápice a literatura de fundo cristão, transgredindo pressupostos teológicos e abrindo caminho para o Renascentismo.



Foto: Cláudio Eufrausino.


Se engana quem pensa que o desafio do escritor é encontrar uma forma de dizer o que pensa. Desafio mesmo é tentar dizer o inexprimível, aquilo que de tão claro e simples parece não caber em palavras. Diante desse tipo de ideia ou sentimento, o escritor tem dois caminhos: recorrer a fórmulas tradicionais ou tentar esculpir novas maneiras de dizer o mundo. 

No livro Dante, a poesia e a forma cristã, o pensador Anco Márcio Tenório Vieira, membro do Departamento de Letras e Teoria Literária da Universidade Federal de Pernambuco, investiga as estratégias literárias do escritor italiano, Dante Alighieri, para construir uma forma de dizer os indizíveis de seu tempo: ou, como destaca Anco, formas de revelar o mundo porque, ao contrário do conhecimento científico que define, a literatura revela. 

A tarefa de Dante, como observa Anco, não foi das mais fáceis. O autor florentino viveu num período em que a literatura era o patinho feio diante da Filosofia e Teologia, que ocupavam o mais alto patamar das ciências. 

Nesta perspectiva, Dante, amparado em pressupostos da Cabala, da Teologia e da Filosofia, legitima a palavra como pista de voo para a poesia, a digressão e a metáfora e não somente como pouso seguro para definições, provas, exemplos e outras categorias consagradas pela tradição escolástica. 

Anco lembra que , como um furacão sutil,  o criador da personagem Beatriz, conferiu um status inédito à literatura, tendo em vista que só a ficção permitiria que o homem comum, ou seja, o próprio Dante, travestido de narrador e de personagem principal da obra, conseguisse um feito impossível até mesmo aos doutores da Igreja: conhecer os mistérios do inferno e do céu pessoalmente sem estar morto (ou estando numa região indefinida entre a vida e a morte). 

"Só a ficcção literária teria o poder de permitir que o escritor professasse tal tipo de conhecimento, fundado no contato direto com os mistérios divinos, e, ainda assim, tendo conseguido driblar a fogueira da inquisição. Foi uma jogada de mestre", ressalta Anco.

Acaba que Dante esculpe uma "forma cristã" de escrita literária, onde a palavra possui diferentes níveis de sentido convivendo num mesmo ecossistema. Assim, no texto de Alighieri,  o sentido poético se senta à mesa junto à Filosofia e à Teologia, elevado ao patamar de uma das modalidades de construção de conhecimento. 

A um só tempo, Dante roteiriza, monta e dirige um "espetáculo" onde os pressupostos filosóficos, teológicos e literários podem contracenar em pé de igualdade. Faz isso com uma perícia que eleva ao ápice a forma literária cristã.  

Porém, à luz desta mesma forma literária cristã, Dante promove uma inversão da filosofia platônica, segundo a qual o conhecimento externo ao mundo, pautado pela lógica divina, seria o único verdadeiro. O personagem principal da Divina Comédia narra memórias de experiências, contatos imediatos de terceiro grau, que abrem espaço para a valorização do conhecimento empirista. A Divina comédia, assim, toca a campainha da morada do Renascimento, preparando o terreno para artistas como Leonardo Da Vinci. 

Desta forma, como descrito em uma das passagens da análise de Anco Márcio, a Divina Comédia se decifra pela verdade dos livros sagrados, mas também de textos apócrifos e esotéricos. E, mesmo com base em tais verdades, Dante produz sentidos diversos, divergentes de algumas dessas verdades teológicas. Estas não o impedem de "tecer considerações pessoais (nem sempre lisonjeiras) sobre episódios históricos (...) sobre as pessoas, as artes e as ciências", pondera Anco. 

Por este motivo, como sintetiza o professor da UFPE, a Divina Comédia representa o domo, o auge literário da cristandade medieval e, ao mesmo tempo, o aceno de despedida, o "canto do cisne de uma era que depositou o mistério da criação em um Deus que dispunha os signos e as coisas com medida, número e peso". 

Durante o lançamento da obra de Anco Márcio, no último dia 26, no Centro Cultural Benfica, perguntei ao autor se a forma cristã ainda encontraria lugar no momento atual. O autor respondeu taxativamente que não. Porém, me pergunto se o "não ter lugar" não pode, à luz dos ventos da poesia, erguer-se, à revelia, como lugar. Afinal, não teria sido esse o grande feito de Dante: construir um lugar clandestino para a literatura no banquete das musas da cristandade, ou seja, a Filosofia e a Teologia? 

Talvez seja esse o grande diferencial da reflexão de Anco Márcio: investigar o lugar que Dante forjou - utilizando, como matéria-prima, o não-lugar (ou entrelugar) poético/ficcional -  no seio da Filosofia e da Teologia, com o objetivo de infiltrar, em terreno sagrado, formas clandestinas de conhecimento do mundo. 

Serviço:  
Dante, a poesia e sua forma cristã. 
Autor: Anco Márcio Tenório Vieira – Editora UFPE – 189 p. 
Prefácio: Eduardo Melo França 

6 de julho de 2017

A obra do escritor que previu o recente enlouquecimento do clima pernambucano

Capa do livro de Rodrigo Capibe
Foto: Cláudio Eufrausino.


Comprando uma tapioca perto de casa, no bairro da Iputinga, zona oeste de Recife, deparei-me com um homem barbudo, olhos esbugalhados, que, com auxílio da Internet do celular, aberta na página de algum instituto metereológico, vaticinava:

“Estão prevendo que, nos próximos dias, Pernambuco terá os maiores índices pluviométricos da história. Tem uma tremenda tempestade se aproximando do nosso litoral.”.

Intempestivamente, linkei a figura daquele repórter/profeta/Barbudo com a de Antônio Conselheiro.
Foi inevitável também fazer uma conexão entre aquele relato profético e o livro Arraial Novo de Canudos (Tarcísio Pereira Editor), lançado em novembro passado pelo escritor Rodrigo Capibe.

Arrisco dizer que nenhum meteorologista descreveria com tamanha vivacidade e precisão a loucura do clima recifense (sensação térmica de 18 graus), das últimas duas semanas, como faz a profecia de Capibe, que, este ano, tornou-se balzaquiano.

Com a devida licença poética e as bênçãos da hipérbole, o jovem autor pernambucano empresta às chuvas o poder de gerar uma catástrofe comparável ao dilúvio. 

Mas, a gota d'água dessa situação foi o surgimento de um boato de que uma represa situada num dos municípios da Região Metropolitana de Recife, estourou, repetindo a trágica situação ocorrida na década de 1970, inundando a capital de Pernambuco.

E esse dilúvio é, literalmente o divisor de águas do romance, cujo título é o nome de uma escola pública onde o personagem principal, Tibério, recém-formado em Biologia, leciona.

Mesmo fortemente influenciado pela noção darwiniana de Seleção Natural, Tibério, conflituosamente, oscila entre acreditar que o ser humano é um Bom Selvagem e crer que as pessoas são como certas espécies de formiga que raptam larvas de outros formigueiros e as criam para depois fazer delas escravas.

Sem se dar conta, as formigas reféns pensam ser “iguais” às demais quando, na verdade, desempenham tarefas para as quais as escravizadoras não estão fisicamente preparadas. A ironia é que as formigas escravocratas dependem totalmente das escravas para sobreviver.

Este dilema atravessa o livro inteiro. Professores que tentam fingir reproduzir um modelo de sala de aula esgotado, onde o Mestre controla os alunos, mas que, interiormente já se deram conta de que dependem da cooperação dos estudantes para ter êxito: algo que coloca o professor numa encruzilhada cortada pelo entusiasmo, o medo e apatia.

A tragédia pluvial, narrada por Capibe, é uma das faces da moeda. A outra é representada pelo caos de uma sociedade que se esforça para ser pós-moderna, mas não consegue se libertar do autoritarismo dos antigos engenhos.

Com refinamento, o autor exibe as diversas identidades desse caos que, à luz da rotina e da urgência da urbe, permanece oculto aos olhos inertes dos adultos e dos adolescentes.

Tibério é também narrador e, nesse papel, veste o instigante tédio de outros narradores-personagens como Bentinho, em Dom Casmurro, e Graciliano Ramos, em Memórias do Cárcere (autobiografia).

Surpreendentemente, o final do livro acontece antes da metade, antes do divisor de águas. Mas, isso não impede a obra de continuar e, mesmo depois do fim, atingir o clímax.

E o pós-fim (o fim depois do apocalipse)? Deixo aos leitores a oportunidade de “julgarem” a alternativa encontrada por Rodrigo Capibe para lidar com este paradoxo.

28 de abril de 2015

Caos Telúrico: obra de Iara Lima traduz “Cartas de Lua e Silêncio”






Primeiro livro da escritora paraense-pernambucana, Iara Lima, explora a transição entre corpo e memória, entre jornalismo e literatura


Por Cláudio Eufrausino

A escritora e abolicionista Iara Lima apresenta seu primeiro trabalho como tradutora do caos. Tradução não juramentada, como convém ao que ela e Augusto dos Anjos chamam de “Cartas de Lua e Silêncio”, reunidas no livro Caos Telúrico, cujo lançamento foi num dia 30 de abril (dia da desmentira),  na Galeria Café Castro Alves, coração da Rua do Lima (refúgio da autora na capital pernambucana). A obra, além de cartas, traz crônicas e contos e parece inaugurar um novo gênero literário: o doc-confissão (documentário confessional).

Paraense por nascimento e pernambucana por opção, Iara Lima faz seus textos se confundirem com os lugares por onde passou sejam eles cidades, memórias, impressões ou a mistura destas diferentes fases da lua (rua) dos afetos.

Ao longo das páginas, a Presidente da República dos Cães Sem Dono (alcunha que ganhou por abrigar em sua casa amigos desiludidos amorosamente [que, após o saudável convívio com a autora, costumam reabrir os relacionamentos com chave-de-ouro, além de aprender a apreciar um bom samba e a degustar um belo quarto crescente]) confessa pecados “terríveis” como o ódio que ainda hoje sente pela boneca Barbie, transformado em deixa para reflexão sobre a cultura patriarcal.  Com requintes de cruel arte, Iara teoriza sobre os “cafuçus” e aconselha as mulheres: “Realize sua fantasia sexual e deixe a história te surpreender”. Caso o silêncio seja a melhor sobremesa que o homem tiver a oferecer depois de uma noite de amor, a dica da autora é: “Deixe-o só. Nu. E com a conta do motel paga”, hashtagueia.

A exemplo do clima amazônico, o eu-lírico de Iara Lima oscila entre a “menina vestida de chuva” e a “mulher vestida de sol”: “Fui menina, mulher faceira de noites tardias e esperanças vãs. Fui vinho e Silêncio, também Lua e torpor a galgar a madrugada e esperar por tuas mãos, boca, pelo, êxtase e ausência. Sempre à tua procura e minha perda”.

Em vários momentos, o leitor sentirá o prazer de ser provocado a desvendar se o texto é uma notícia, um sonho ou um sussurro de alguém que acha, no meio do fazer amor, tempo para refletir filosoficamente sobre a condição existencial. Nos ajudam nesse desvendamento os doces fantasmas dos autores que, implícita ou explicitamente, influenciam a escrita de Iara, a exemplo de Oscar Wilde,Nelson Rodrigues e  Antonio Maria, com quem aprendeu a brincar o sentimento e narrar o carnaval.

Em uma das passagens (do livro ou, quem sabe, de Paris), a jornalista afirma que a Dor é livre e indivisível: não se doa ou se toma emprestado. Talvez esse trecho careça de revisão, posto que  Iara Lima consegue dividir conosco suas dores, olores, prazeres e inteirezas, numa obra digna da 1ª Divisão do Brasileirão de Literatura: com as bênçãos de Baby (Consuelo?), Dalida, Serge gainsbourg; Noel Rosa e das milícias celestes do Jazz.

O livro Caos Telúrico pode ser encomendado via Internet no site da Nuvem Produções.

13 de maio de 2014

Capítulo 1 – Ataque ao terrorista da cidade onde morreu Joana D’Arc

Paris 9 - Printemps cupola


Sinto inveja profunda dos policiais que puderam te revistar
E fazer de suas impressões digitais certezas labirínticas,
Sendo teu corpo um fio que fugiu do desvelo de Ariadne:
E que não cede ao controle telepático de Teseu

Tenho ido à Venezuela, a Londres, a Berlim (onde um feiticeiro da távola trapézio rima com escombros de um velho muro para fugir de Morgana)
Tenho ido lás em busca do olhar raivoso que abriu o coração de minhas portas


Que dá abrigo secretamente à França anti-monotonia
Meus alicerces ruíram e o prédio continua de pé
Escorado em risos ruidosos de um jovem que, talvez, me ache ridículo
Não consigo desmoronar depois de ter revisto aquela foto despenteada
Daquele por quem me avistei à primeira paixão
E que me fez não conseguir esquecer como é um coração batendo dentro do outro
Inutilmente? Talvez sim. Certamente, não
Meus sonhos fragmentados encostam a tempestade no teu peito e
Tentam descansar
E se fores embora quando eu adormecer
Uma vez por mês vem e me desabandona

Tento partir, mas a saudade corre pra me esperar onde as bombas desexplodem
Sinto amor por ti e vontade de te dizer que és muito bonito
Com teu rosto de neve não barbeada
E te conhecer do comecinho até chegar a terceira semana
Em que depois da última sessão de cinema, tu me pedes em namoro
Enquanto te infiltras na plataforma de embarque
E levas contigo o meu suspense que se esforça para não demonstrar que é um “Aceito” pré-datado

Correria no meio de uma multidão incolor, inodora e insípida se fosse pra dar um cheiro nesse terrorista amado: implodiria no seu abraço e a opinião dos outros que explodisse
Mas, depois desse abraço, as metáforas da guerra desapareceriam
E as minas terrestres se transformariam em discos dos Beatles, de Chico Buarque e de Bob Dylan ou Luiz Gonzaga

Desejo algemar este terrorista com asas de beija-flor, com um paraquedas tecido em Cabernet sauvignon vertido da taça de Deus sem passaporte
Me beija logo, ranzinza, sarcástico, esnobe, antipático, arrogante, meu amor: antes que eu me mude para a França daqui há dois ou três anos

Não haja mais muros, lamentação ou gemido
Quero te condenar a prisão perpétua, prisão azaleia, prisão girassol, prision de printemps
Prisão cujas grades são asas deltas, onde meus rios nascentes desembocam
Encontrando orgasmo na tua nuca asmática
E o cigarro já teve de se conformar em nos ter encontrado na cama
E que delicioso foi te seduzir e te levar a pôr um belo par de chifres na coca-cola
Fico sonhando que um dia desses vou poder ficar te olhando dormir
E ouvir depois do nascer da lua tuas declarações de amor que tentam driblar a timidez
Escondendo-se atrás de uma indiferença que é péssima atriz

Em segredo, te digo como és cativante e como este cativo que te escreve

10 de setembro de 2013

Alunos de Literatura produzem obra que começou como e-book e virou b-book


Fotografia original: Beta Splendens, male, orange halfmoon by Daniella Vereeken
Arte: Karla Vidal



Conheça um livro com múltiplas personalidades: fruto não de um problema, mas de uma solução mental. Versão βeta Literatura: crítica, teoria e tradução começou como e-book e agora é b-blog (book-blog): com textos abertos a intervenção e comentário dos internautas.


Os livros também podem ter múltiplas personalidades. É o caso de Versão βeta Literatura: Composta por ensaios nas áreas de crítica, teoria e tradução, a obra nasceu como um e-book lançado no primeiro semestre de 2013, coletando textos de alunos da graduação, mestrado e doutorado do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Ao completar seis meses de vida, o livro agora muda de personalidade e se torna uma obra aberta, no formato b-blog (book-blog), dando opção aos internautas de intervirem com comentários. É possível sugerir referências bibliográficas, criticar as já existentes e propor que textos sejam reescritos ou substituídos. 

Numa etapa futura, os textos, com as respectivas avaliações do público, serão devolvidos aos autores, que poderão aprimorar seus ensaios. Aí, será lançada a Versão αlfa, que trará um excerto com as melhores avaliações realizadas pelos leitores e, possivelmente, será publicado também em formato impresso. A ideia é que o leitor comum experimente como é ser um parecerista, independentemente de pertencer ao mundo acadêmico. 

Dá pra dizer que o Versão βeta contraria a formatação dada ao pensamento pela cultura do livro impresso que, assim como fez com as peças de tipografia, separou em caixinhas leitor, autor, texto e comentário. A ideia é que este e-book coloque em suspensão estas fronteiras. Nesta perspectiva, não se privilegia a obra aberta em detrimento da fechada. O que se espera é poder oscilar sem medo entre os dois territórios, usufruindo os benefícios que tanto o fechamento quanto a abertura de uma obra podem oferecer.

Onde acessar o book-blog:  http://betaversao.wordpress.com/
Onde é possível fazer o download do e-book: http://www.pgletras.com.br/publicacoes-colecao-letras-edicoes-eletronicas.htm


10 de junho de 2013

Prevendo o futuro na tela do Playstation 5


Fonte: Uol


Playstation 5: uma prova de amor
Por Kleto Vide

Provocava-o porque o amava. Se provocares alguém obtuso, sem graça ou complexidade, desinteressantemente belo e tediosamente simpático, que recompensa terás?

Provocava-o porque me encantava o modo como este Alguém reagia, desescondendo um amor sem parcimônia pela humanidade: amor quebradiço, com lampejos de egoísmo de classe alta-média (mas qual amor não tem momentos de ser adversário [corsário] de si mesmo?) e de uma timidez que parece só encontrar no botão de rosa-lua imagem útil para traduzi-la.

Poderiam dizer que era eu um masoquista, um stalker, alma penada vigiando páginas do Face. Mas, nem tudo é a verdade e a mentira que pa(e)rece ser. Mas, em certa medida eu o perseguia, posto que os anjos que guardavam as fronteiras entre o dentro e o fora de mim assumiram a missão diplomática de ensinar os abraços daquele habitante da tierra de la Virgen de La Consolación a acharem o útero de Gaia. E, depois de gestados, esses abraços dariam à luz sorrisos capazes de vencer o cansaço de viver.

Tudo o que quero é engravidar a alma deste Nobre Alguém: engravidá-la de abraços, beijos, enternecimentos constrangedores e sonhos de Santos Dumont...

Talvez eu pudesse lui donner uma distância capaz de mantê-lo a salvo do antes e do depois de me conhecer, mas ainda estou em estado de choque desde o dia em foi me dado o dom de enxergar com nitidez telescópica naquele ser humano perto-distante uma estrela de ternura refém da hostilidade e de um não sei quê de atraente esnobismo.

Meio que não tenho vivido, tenho continuado. E tentado aprender a me desvencilhar dos efeitos do choque de ternura. Mas, é difícil terminar de assistir a guerra estelar televisionada pela camisa daquele Alguém, enquanto aguardo ansioso pelos intervalos, em que posso ver pela fresta da porta do tempo o que há em seu coração.

Até então não tinha experimentado a sensação de ser considerado uma ameaça, de estar em casa vendo Game of Thrones enquanto era tornado suspeito de cometer terríveis crimes como escrever poemas, mandar flores e conhecer detalhes do rosto de quem amava ou saber qual era a marca de seu carro. Uma coisa é certa (talvez): quando olhei fundo naqueles olhos que a gravidade atraía para o chão, senti vontade de que aquele Alguém não sentisse dor, nem medo e de que fosse feliz (não porque o achasse infeliz, mas porque queria para ele felicidade a perder de vista). Quis ser uma sala da qual ele pudesse sair e entrar sem precisar dar satisfação a chave ou porta qualquer.

Mas o que talvez fosse me levar pra prisão fosse um crime contra mim mesmo, um suicídio sem direito a último suspiro: o crime de falar sobre a vontade de ser amado. E “?como o culpado desse crime poderia ser detectado pelo sistema de câmeras da Nova Aliança?”, indagou-me o apóstolo João com o qual converso, vez por outra, sobre o Apocalipse enquanto ele não desiste de me convencer que Deus é amor.

Fiquei com medo de ser condenado a escolher entre as duas piores penas de morte: a loucura e a lucidez, isto porque talvez não haja liberdade onde não há entrelugares... Porém, uma memória socrática me tranquilizou: a de que nenhuma lucidez e nenhuma loucura permanecem sãs e salvas quando submetidas a um interrogatório sério.

Caminhando pelo corredor da vida, um sonho impossível trocou de nome antes de soprar-me o rosto: escolheu ser rebatizado como futuro e tinha por sobrenome implícito Esperança.

O futuro então me mostrou um Nobre Alguém que me ensinava todo dia a abrir as portas de casa de uma forma diferente. Ele não precisava ter receio, porque podia entrar e sair quando quisesse.

Cada vez que nos reencontrávamos, me presenteava com um ramalhete de silêncios. E, vez por outra, ele aceitava um carinho meu e me fazia feliz ver como seu olhar vencia pouco a pouco a lei da gravidade e procurava o meu.

Resolvi me acostumar com seus(suas) amantes. A mais perigosa de todas era a piscina de águas termais que ele hospedava em sua cobertura dos sonhos. Mas ela não era páreo para a saudade que este Nobre Alguém aprendia a sentir de mim. Não porque eu houvesse vencido sua autonomia, mas por haver me tornado uma ilha de destaque no oceano de seus afetos.

Este Alguém me mandava cartões postais com fotos posadas ao lado de pessoas eleitas para ser seus amores eternos, colhidos porto após porto.

Mas, quando ele ancorava no meu apartamento, meu carinho, meu apoio e meu Playstation 5 o esperavam de abraços abertos. E ele sabia que eu o amava porque só o amor para nos tornar capazes de, a cada retorno de quem amamos, inventar um Playstation avant garde: a dica veio de seu anjo da guarda, que torcia era muito para que fôssemos namorados.

De qualquer forma, o maior carinho que podia receber daquele Alguém era ver suas feridas cicatrizando e seus sorrisos aprendendo a brotar e gerando a despeita das rosas da França.

Duas ou três vezes por semana, o Nobre Alguém terminava tudo comigo porque, mais do que jogar Playstation, agradava-lhe proclamar a independência de si mesmo. Mas, o amor que eu sentia era intenso o suficiente para que eu aguentasse ser uma Espanha que trazia cravada no peito um Alguém que era uma verdadeira Catalúnia.

Não conseguiria enjoar dele porque era minha sina esperar que se despisse da raiva do mundo e, antes do apagar das luzes, tentar decifrar o segredo daquela inesperada doçura cáustica: ímã gêmeo de uma esmeralda.

E que saudade de ver aquela nuca tão linda. E que medo do Nobre amor esquecer como é o som da minha voz.

30 de novembro de 2012

Em nome do ócio e da amizade: o que há de comum entre o Face e as cartas em verso do século XVI?

As Três Graças - de Antonio Canova

 

Em nome do ócio e da amizade, mais recente livro de Saulo Neiva, reúne as pontas soltas de uma trama que, no século das Grandes Navegações, aproximava as palavras amizade, ócio e poesia.

A obra coloca em evidência a turbulenta fronteira entre o território do “Adeus” e o território do “Estou de volta”, fazendo inquietações do século XXI, acerca da permanência ou do fim de valores como sinceridade e eternidade, tornarem-se objeto de debate quando refletidas pelas Cartas em Verso, gênero (espelho torto) literário do século XVI, aparentemente lançado no esquecimento pelo advento do Romantismo.

Neste sentido, a proposta metodológica do autor dialoga com o universo de Jung, para quem o futuro, tantas vezes, é o movimento de passados que buscam a superfície do mar da história para tomar fôlego, aproveitando a oportunidade para mostrar à atmosfera como respirar novos ares.

A Carta em Versos almejou dar forma literária ao desejo de fazer da palavra uma entidade ao mesmo tempo pública e privada. Algo semelhante ao que ocorre nas redes sociais, onde uma mensagem, mesmo direcionada a alguéns específicos, é passível de ser compartilhada por pessoas não pertencentes à reserva “ecológica” da intimidade. O professor Lourival Holanda, durante o evento de lançamento de Em Nome do Ócio, destacou que a escrita de Francisco de Sá Miranda, irmão do governador-geral Mem de Sá e grande representante deste gênero, em muitos pontos é comparável às postagens do Facebook, cujo eixo central é a amizade e o ócio. “O que é diferente da ociosidade. O ócio é a contrapartida do negócio. É um momento em que a preocupação deixa de ser fazer o mundo girar e passa a ser contemplar o mundo”, explica.

A esfera do negócio gira em torno do pragmatismo e do interesse. Conforme a moral da época, inspirada pela herança greco-latina, não havia aí espaço para a amizade verdadeira, plantada entre aqueles que se escolhem mutuamente para que, juntos, possam compartilhar do ócio, o espaço em que o espírito humano se desamarraria das convenções e se permitiria recriar a realidade, buscando inspiração na companhia daquele (s) com que se escolhe estar “amigado”.

As imagens alegóricas eram, nesse caso, utilizadas como veículos a transitar entre um significado “universal” – crido como capaz de atravessar os tempos – e um particular alicerçado nas preocupações que linkavam remetente e destinatário.


Talvez este gênero tenha logo esmaecido por não dar conta de uma angústia que lhe era subjacente e que reinvidica, por meio das redes sociais, o direito de navegar nos contemporâneos mares do “agora ou nunca”. Esta angústia diz (des)respeito a coisas que, à primeira vista, parecem banais, mas requerem uma visita profunda a nossos temores e coragens. É uma angústia que pode ser traduzida em questões como:

Como devo agir se tenho a meu dispor milhões de amigos em potencial, mas, não tenho ferramentas para transformar esta amizade em ato?

Como fazer para administrar dentro de mim as vontades contraditórias de ser eternamente amigo e de colocar novos eternos amigos no lugar do primeiro?

Como ser ou ter um amigo sincero sob a pressão de uma cultura ameaçada pelo monopólio exclusivo colonial do interesse (entendido na vibe de Maquiavel, isto é, como pacto entre meio e finalidade sem direito ao contraditório)?

Como lidar com o desejo de ser um amigo “eterno” quando a eternidade é vista como disfarce da obsessão e o carinho como uma espécie de prelúdio de uma sinfonia de agiotagem?

Como ser digno de ser escolhido como amigo por Alguém?

Uma coisa é (in)certa. O livro, como chama atenção Lourival Holanda, nos faz pensar sobre nosso relacionamento com as virtudes cívicas: igualdade, liberdade e fraternidade. “Podemos abrir mão da igualdade, quando reconhecemos que alguém, por determinados fatores, como a experiência ou a área de atuação, é hierarquicamente superior. Podemos abrir mão da liberdade quando, por vontade, ficamos meio que presos e submissos a quem amamos. Mas, não há como abrir mão da fraternidade, pois sem ela não há possibilidade de convívio nem com nós mesmos, nem com os outros”, conclui.


Mostra-me, amigo, onde está o eterno
Pois, já não me lembro
Mas, ele respira de dentro/fora do mais profundo de mim
Enquanto caminha na corda bamba

Mostra-me, amigo, onde está o não-estar do fugaz
Que me mantém capturado na sombra do seu quase rastro
E na luz do seu eterno despertar

Mostra-me como ter escolha e, ao mesmo tempo,
Ser capaz de ter a tua companhia

Mostra-me como posso me mostrar e continuar
Contemplando o nascer e o se pôr do mistério

E, então, te mostro como, sendo cego,
Posso ser teu guia enquanto me emprestas teus passos.


A Anuska e Gustavo e Saulo e Mahely e Pradines e...




7 de junho de 2012

Ilustres escritores desconhecidos: Vida L'Eau e A última primeira vez parcelada em cinco Eu-te-amos

Primeira vez - by Clécio Vidal







A aura feita de esmeraldas no sonho

Um conto de Vida L'Eau'Clauvius



Capítulo 1 - Terceira vez

Chegar perto da proximidade dele
É como levantar voo rumo a uma festa surpresa
Preparada para celebrar tua vida
Sem que hajas sido sequer (mal-me-quer?)
Convidado

Por que recebi o dom da quiromancia?
Dom com fratura imposta.
Fui obrigado a ler nas duas mãos esquerdas de Deus o nome dele
Muito obrigado, Senhor!:
Foi amor à pré-primeira vista, à segunda, terça,
Sem direito a sétimo dia

Como conheço o nome dele pelo rosto
Ou, talvez, o rosto dele pelo nome
Vivo me reapaixonando
E recebo o salário da graça, da desobrigação
Pago por aquele olhar,
Dividido em cinco vezes de uma vez só e acompanhada por sua solidão:
Primeira vez: de uma trava de amargura-alerta
Segunda vez: de indiferença que se lava as mãos na chama do vulcão mais próximo
Terceira vez: de um sarcasmo dignificado por espasmos de elegância sutil
Quarta vez: de uma altivez que largou, por terra, qualquer (bem-me-quer?)
Sentimento reptil
E fez instantâneo uso capião
Da pupila de uma águia, onde se esconde um “Era uma vez”
Quinta vez: de doçura avistada de longe
Nas terras de uma timidez antepassada e de uma ranzinzice antefutura
Sexta vez:

(Nem sei como consigo olhá-lo
Se o olhar dele meio que apaga meu rosto
E me força a reescrevê-lo.
E, assim, sigo livre, mas sem ter conseguido tirar dos ombros,
O peso das galés)

Depois deste parêntese, escolho voltar para a quinta vez do teu olhar,
O olhar de doçura à vista
Quero colonizar este olhar
Com meu exército de preces maculadas pela urgência da constância
Preces lentas e cruéis
Que dividem o pedido em cinco vezes:
Premier fois: pela felicidade que se apelida saúde e paz
Deuxième fois: pela felicidade capaz de fazê-lo livre para pensar em mim
Antes de dormir, de me visitar durante o sonho
E de estar ao meu lado depois da realidade
Troisième fois: pela felicidade que a palavra consegue não imprimir
E o silêncio ab-ruiu* mão de exprimir
Catrième fois: felicidade que faz os clichês do amor nascerem calçados
No horizonte do mistério
Cinquième fois: felicidade capital
Quinta vez:


* ab-ruir: mais que ruir; mais que à rua ir, mais-que-sorrir.

Capítulo 2: Quarta vez

Soube hoje que faltavam somente dois encontros para que ele deixasse de se permitir ser visto por mim. Foi quando meu coração assumiu como nome próprio seu apelido dor.
Tentei estar perto dele como ridículo
Como sábio
Como Incapaz
Como anjo
Ao cabo, percebemos, eu e minhas caravelas,
Que nem um perito em caminhos, nem uma Dafne triplamente qualificada
Conseguiria vencer a distância que a proximidade dele impõe.
Antes da largada, ele consegue estar a vários corpos e almas de vantagem
Com relação a mim.
Do alto do primeiro lugar do pódio, ostento o fardo de ouro que ornamenta meu peito
Consegui deixar até mesmo o tempo em segundo,
Mas é tentativa vã perder a distância que entre nós se põe a nascer
Mesmo assim, saber que ele está no mundo, na mesma época que eu,
Saber que ele está no mundo é como um sonho
De alguém que dorme com um olho aberto e outro fechado

Ele sacou aquele aperto de mão
E sua formalidade me feriu a queima-alma

Capítulo Trois: Segunda vez

Chegar perto dele:
Três impossíveis encadeados sintaticamente

Capítulo Quatro: Quinta vez

A primeira vez é-foi-será como um tornado
Que com uma das mãos rema o passado,
Que, de tão silenciado,
Sempre terá algo a dizer
E, com a outra mão, rema o futuro
Num mar que o tempo ainda não teve tempo de esculpir
E com a outra mão rema os impossíveis,
Os inimagináveis, os inconciliáveis: os improibíveis
A segunda vez:

Capítulo Cinco: A dernière fois

Contei a uma amiga como havia sido o sonho
Eu estava com vergonha
Porque tanto a narrativa quanto o sonho
Eram de corassão
Mas, minha vontade de faltar com a vergonha eu já a conhecia de cor e me salteou.

No sonho, ele dormia na areia
Como fosse uma estrela sem teto
Que havia decidido, às pressas, deitar ao relento
Na Via-Láctea

A aura do sono dele dividia-se em minutos, segundos...
Os minutos eram esmeraldas brutas
Os segundos esmeraldas despojadas
Os milésimos esmeraldas de um ardor
Que, talvez, o imponderável consiga descrever
E a tensão das superfícies consiga captar

Ele me despede,
Mas a aura, os minutos...
Não se despedem de mim

Ele me despede em cinco vezes:
Primeira vez: com a hostilidade que se devota a um soldado do campo adversario
Segunda vez: com a profilaxia que se devota a um antígeno
Segunda vez: com a formalidade que se devota a um anfitrião convidado a se retirar
Segunda vez: com o olhar que, daqui a pouco, passará ao meu lado
E rezará uma prece para me ignorar
Segunda vez:

E eu quero me desculpar por garimpar a sua aura,
Os minutos, os segundos, o primeiro: o único
Até achar o “Eu te amo”,
Que para ele dividiu-me em infinitos inteiros.


Capítulo Sete: A primeira vez:







A amizade - Françoise Hardy








Última vez - by Cláudio Eufrausino


Noturno (Chopin) - cena do filme O Pianista 



Cena final de Cinema Paradiso



Eu te amo - Chico Buarque
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