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4 de janeiro de 2019

Uma rosa para Damares ou Miragem

Foto: Haroldo Castro - Revista Época


O pior do novo tempo é pensar que o homem não poderá mais se dar rosas E a mulher não se poderá mais dar o céu E como ficará Shakespeare que, depois que for proibido de usar rosas em suas poesias? A imbecilidade quis proibir os brasileiros de usar vermelho E quer fazer uso capião do verde das matas e do amarelo do sol E as aves que aqui regurgitam não gorgeiam como lá: nos Estados Unidos Fico pensando no dia em que Cristo proibiu Pedro de usar a espada contra o centurião "Quem com ferro fere com ferro será ferido", disse Cristo Deveria Pedro, ao invés de faca, ter usado uma arma de fogo? Cristo não deveria ter dito o que disse a Pedro, Afinal, ele é apenas filho de Deus e não filho do Mito Deus acima de tudo, desde que não use vermelho nem rosa E não questione a ordem e o progresso vigentes Francisco se desfez de todas as suas vestes, Mas, hoje, há quem o chame de Anticristo Por seus gestos heavy metal Meu Deus, o vestido da Cinderela era azul! Cinderela, a piniqueira, mulher perdida que ousou ir ao baile sozinha E tirou o príncipe para dançar Mas pior do que ela foi a Fada Madrinha, autora intelectual do crime Fada que nunca poderia ser chamada de Mito Porque sua varinha não atira pra matar Cinderela deveria ter contratado a estilista que fez o vestido da Primeira sem segunda: nôtre dame Pobre infeliz, não tinha dinheiro pra isso A Madrasta se apossou até de seu salário mínimo e retirou todos os seus direitos: trabalhistas e humanos E o sapatinho de cristal, aquele rebelde, agora cabe nos pés de qualquer Maria Sapatão ou de qualquer João Rosa A autora de Harry Potter está escrevendo uma nova história onde os heróis terão de enfrentar a ameaça de Damares Tenebras Conseguirão nossos heróis escapar dessa? E o que será do fruto da goiabeira, que é verde por fora, mas rosa por dentro?


14 de novembro de 2018

Stan Lee, o último filósofo do Iluminismo?


Uncanny X-men #251
Autores: Chris Claremon e Marc Silvestri
Stan Lee - publisher


Stan Lee foi, provavelmente, o principal “culpado” por uma hipótese que me persegue desde que elaborei o TCC e, se tudo correr bem, renascerá das cinzas na minha pesquisa de pós-doutorado 

Criador e recriador de mitos, no universo Marvel, iniciado nas HQs e consagrado no cinema, o americano traduziu, em formato de histórias de super-heróis, a dialética do Iluminismo, objeto de reflexão dos teóricos da Escola (de pensamento) de Frankfurt na primeira metade do século XX 

Correndo enorme risco, podemos resumir a noção de dialética do Iluminismo –  em alusão ao movimento iniciado no século XVIII - como o conflito entre a emancipação e o terror no coração da história 
contemporânea. História mesma que apostou na ideia da evolução contínua, mas, em nome de nobres ideais (razão, igualdade, liberdade e fraternidade, ordem e progresso) foi capaz de produzir horrores como os fascismos e as guerras mundiais 

A figura do super-herói passeia ao longo da história, tomando emprestado luzes e sombras de heróis greco-latinos, escandinavos, dos cavaleiros medievais e principalmente do herói romântico, no qual habita a inusitada promessa de combinar o demasiadamente humano à centelha de divindade vinda até nós trazida por uma tempestade emanada do paraíso perdido 

A obra de Stan Lee, em particular os X-men, expõe a fratura entre luz e trevas na alma dos super-heróis, revelando o quão desgraçados podem ser os pré-requisitos para se ser alguém divino: a onisciência, a onipotência e a onipresença 

Os mutantes, criados por Stan Lee, não têm controle sobre os poderes como costumavam ter os heróis tradicionais a exemplo do Super-Homem, expressão ultra-idealizada do homem iluminista 
Os mutantes telepatas como Jean Grey são atormentados pelo dom de ter acesso indiscriminado ao que as pessoas pensam 

A personagem Vampira poderia se vangloriar de sua habilidade de, ao toque, extrair dos outros memórias, poderes e energia. Contudo, esta versão do toque de Midas, assim como no mito, aponta a frágil fronteira entre bênção e maldição. Vampira é condenada a não poder ter nenhum tipo de contato corporal com os outros sem fazê-los correr o risco de morrer. Além disso, ao absorver a energia vital alheia, ela vê mente, corpo e espírito ameaçados por ondas de esquizofrenia 

Os mutantes, ao contrário do herói clássico greco-latino, não representam a fusão entre o bom, o belo e o justo

Alguns, na aparência, poderiam ser encarados como representantes da normalidade institucionalizada, mas são perseguidos pelo que os faz extra-ordinários. Nesse contexto, não há mais muita diferença entre ser extra-ordinário e ser anormal, anômalo, amaldiçoado

Outros que, sob a égide dos padrões, seriam considerados corporalmente limitados têm habilidades prodigiosas. Esta surpreendente combinação terminam por mostrar como nossos juízos a respeito do que é prodigioso e do que é anômalo são assombrados pela ignorância, pelo fanatismo e pela hipocrisia 

Stan Lee foi um dos grandes responsáveis por ampliar a capacidade discursiva dos mitos e alegorias, que deixam de ser, prioritariamente, espelhos da autoimagem de um povo (os gregos, por exemplo)  ou ferramenta de doutrinação, a exemplo das alegorias medievais, e tornam-se plataformas de crítica e debate filosófico, desafiando, em tempo real, as certezas que tentam tomar conta das consciências e contribuindo para evitar que os fascismos e outros fantasmas ameacem as melhores invenções do Iluminismo: a liberdade e o direito humano de ser digno de existir 

Quem admira Stan Lee não pode deixar de ler a história X-men: Dias de um futuro esquecido, na qual o autor faz um paralelo entre os campos de concentração nazistas e campos de concentração de um futuro distópico no qual os mutantes são igualmente vítimas 

2 de julho de 2018

O que dar de presente e de futuro a um quase ex-amor


Foto: Cláudio Eufrausino.


Parece mais fácil perdoar a virtude de um demônio
Do que o pecado de um anjo

Serei eu tolo o bastante pra honrar as rosas que desabrocham
de um dos canos de minha espingarda 11 (meu eu traidor preferiu se enforcar a ser fuzilado)?
O outro cano da arma engoliu o choro

Na hora exata, os dois corredores queimaram, ao mesmo tempo, a largada, ao som do tiro
Que me devolveu um estampido vestido de calada da noite

A raiz de uma asa delta plantou-se em mim com suas sapatilhas feridas
E o macho alfa que ainda restava em ti teve medo de me reencontrar

Afinal, se você tivesse me visto, correria o risco de querer me abraçar
Até o despertador se arrepender de seus planos

Confesso que não sou gay o bastante
Nem macho o suficiente
E quero lançar meu sutiã no zero absoluto
Pois meu seios fartos
Não aguentam mais ser malhados todo dia

Prefiro o ósculo aos músculos

Não quero que seja tarde demais pra me convidares a me revelar
À luz de jantares
Conseguirei ser bom o suficiente, mau o bastante e bobo na medida certa:
Como tu (des)esperas?

Não há lugar pra maldições
No meu coração apertadinho
Onde cada página virada é um horizonte que pare um sol indeciso entre nascer ou se opor

Quero te perdoar até ser capaz de te ex-aquecer
Mas não quero ter de gastar energia esculpindo nuncas mais
Ou arrumando nós para Nossa Senhora desatar:
Tudo isso em venérea ação ao Tô nem Aii que me dedicas

Obrigado por tal vez nunca ter sido obrigado a usar as camisas que te dei de presente,
As luzes que te darei de passado
E as nudezes que te dou de futuro

12 de novembro de 2017

Por que Só dá Tu é a música do ano?


Imagem do clipe Só dá Tu - banda A Favorita

Se me perguntassem qual a música do ano, a favorita, responderia sem titubear: Só dá tu, imortalizada na voz de Rafaela Santos.

A canção consegue devolver ao pronome Tu o lugar no pódio que, há tempos, vinha sendo ocupado pelo pronome você.

A norma culta não permite o sabor de dizer Eu amo tu, porque Tu não pode ser utilizado na função de objeto, estando sujeito a ser sempre sujeito.

Mas, em Só dá tu, o tu, no auge de sua normatividade, é inquestionavelmente sujeito, mas uma espécie de inconsciente linguístico confere a ele (ao Tu) um sabor de transgressão como ocorreria se a Constituição permitisse dizer Eu amo tu.

Os integrantes do Movimento Sou Cultural, talvez não tenham notado que Só dá Tu significa um salto quântico dado pelo Arrocha, um dos afluentes do tecno-brega, em direção ao refinamento. 

A letra permite a quem canta exprimir com cores de infância a obsessão dos românticos malditos do século XIX.  O Byron que habita os versos de Só dá Tu prefere rir de si mesmo. Assim, o peso da obsessão se dilui nas ondas que o ritmo da música sugere.

Dick Farney, que imortalizou Alguém como Tu, se tivesse se lançado como cantor nos dias de hoje, não pensaria duas vezes: dividiria o palco com Rafaela Santos.

O pronome tu e a língua portuguesa agradecem por esta grande invenção sonora, que cinge o fado com a cadência da loa africana e os bits da música pop.

Quem prestar atenção direitinho vai encontrar em Só dá tu vestígios arqueológicos do blues, com suas síncopes costuradas por ondas, que fazem o corpo imitar o mar e, de contratempos em contratempos, ter aquela sensação de quem, prestes a adormecer, acorda-se assustado como se fora cair no abismo.

Algo, na composição de Elvis Pires, remete à ingenuidade das primeiras composições românticas de Elvis Presley.

Eu não teria vergonha de cantar no teu calcanhar do ouvido, anjo e/ou leão, o refrão Só dá tu.

Obs.: esse texto não busca ser irônico.


11 de outubro de 2017

Onde está Nibiru que não chega?: sobre o aborto, museus, homens nus e soluções fatais


Eye of Nibiru
 artofthemystic via Visual Hunt / CC BY-NC-ND



Devo pedir licença a Nietzsche para emitir uma opinião?
Dirão alguns incontáveis que o fato de eu ser flagrado assobiando uma música de Anitta
Atesta que minha formatura regrediu a pós-doutorado

As soluções fatais não me seduzem
Aborto, pena de morte, a chegada de Nibiru
A única solução fatal que me atrai são as declarações de amor

Adoro me declarar: secreta e sorrateiramente
Por pensamentos, palavras
Desatando as omissões
Para que o mundo todo não precise saber
Que o mundo, de quando em vez, seja você e eu diante da película

Esta madrugada, quis estar dormindo e sentir que uma sombra de 1,90m
Se deitou a meu lado para me ofuscar com sua luz

Talvez o mais conveniente seja esquecer
Por que exigem que eu seja a favor do aborto
E declare que todos são donos de seus corpos,
Mas, apontam-me uma arma
Quando olho ou sorrio para um homem?
Porque um homem que olha ou sorri pra outro
Está cometendo estupro presumido:
Algo pior que deitar nu no chão do museu



Meu amor, se eu adivinhasse que tua vida me convidou
O cinema poderia chegar atrasado a nós dois

Não é porque sou contra o aborto
Que sou a favor da criminalização da mulher
Não é porque sou a favor da descriminalização do aborto
Que defendo a troca do anticoncepcional por matadouros

A questão é que sou contra o adiamento do direito a personalidade
Não gosto da ideia de cancelar o agendamento da vida
Remarcando-o para a próxima gravidez


Tenho altas doses de hedonismo na minha corrente de Andrômeda
E o sangue do meu espírito é arterialmente venoso
Mas, não dispenso a sedução de enfrentar as dores a dois

Mesmo com toda preguiça que carrego, prefiro o sacrifício honroso

Aliás preciso ser um pouco menos dois
Expulsar meu amado da crônica de minha solteirice aguda

Que a margem de erro do oceano 2018
Me traga a oportunidade de me apaixonar mais por mim mesmo
Sem recorrer a nenhuma solução final
Que eu não precise me abortar
Durante a gestação de mim

Senhor, não me deixe orar
Para que Nibiru chegue antes  dos mísseis norte-coreanos
Prefiro rezar para que os núcleos dos átomos
Transformem-se em rosas azul natier

Espero não precisar procurar um doutor clandestino
Para abortar nosso amor
Porque descobri que estava grávido de amizade

Não me importo se minha armadura Armani for reduzida a pó

Afinal, nem Salomão foi capaz de se vestir com poeira de estrelas


29 de agosto de 2017

Bolsonaro também perseguirá os heteros


Chainless Photography via Visual Hunt / CC BY-SA



Uma parcela daqueles que se entendem como heterossexuais - ou, melhor dizendo, os heteronormativos - acham que estão livres da perseguição e do preconceito. Como se os gays sempre fossem os “outros”.

Nas rodas de conversas, os heteronormativos chamam a si mesmos pelo nome, mas apagam o nome dos homossexuais, que são reduzidos a uma categoria, sendo-lhes retirada individualidade.

O dilema da transexual Ivana, da novela A Força do Querer, ilustra essa tendência. Boa parte do sofrimento da jovem se deve ao fato de viver cercada por pessoas que, a fina força, querem fazer coincidir gênero e sexualidade, anulando as identidades complexas que se erguem nessa tensa fronteira.

A heteronormatividade comete o erro de achar que o fato de ser homossexual proíbe o ser humano de ser indivíduo dotado de particularidade e personalidade.  Daí, o entendimento de que todo homossexual que não se encaixa na forma de estereótipos é um enrustido ou um embusteiro.

Muitos têm se prostrado diante das ideias de Jair Bolsonaro, chorando nostalgicamente pelo retorno de uma era ideal – que nunca existiu – ondeseria possível distinguir, com exatidão, as fronteiras entre masculino e feminino, paralisando o complexo diálogo entre Yin e Yang.

Mas, a ideologia bolsonariana em sua busca pelo modelo ideal de homem vai produzir um efeito semelhante ao do conto O Alienista, de Machado de Assis, onde o personagem-título, de tanto enxergar loucura em todos que o cercam, acaba chegando â conclusão de que o único louco era ele mesmo.

A ideologia bolsonariana assim como rebaixa os homossexuais terminará criando subcategorias de heterossexuais, que também serão vítimas de discriminação.

Assim, poderão ser discriminados e tachados de enrustidos, por exemplo, os heterossexuais engomadinhos e perfumados; Ou talvez os heterossexuais que fazem da academia um templo de culto ao corpo.

Afinal, o ideal bolsonariano só chega ao orgasmo quando coloca todos sob suspeita. Ser homossexual assumido é, na visão à Bolsonaro, um crime. Porém, ter comportamentos que fazem a pessoa suspeita de não ser heterossexual é, no código penal bolsonariano, um crime qualificado e com motivação torpe.

Se, Deus nos livre, a ideologia bolsonariana triunfar, não vai adiantar sair por aí dizendo que come buceta para escapar da estigmatização. Isso porque, como nos lembra o canto traidor de Ossanha,  “aquele que diz sou não é”.

O Governo bolsonariano vai estabelecer uma hierarquia de castas de heterossexuais, conforme supostamente o heterossexual esteja ou não afastado do “vírus” da homossexualidade.

E, no fim, talvez Bolsonaro descubra que até mesmo ele é um heterossexual sob suspeita.

13 de agosto de 2017

O que Papa Francisco deve fazer a respeito do desfile de tochas neofascista


umbertodpc via VisualHunt.com / CC BY-NC-ND


Uma funcionária pública me pediu que orasse pelo filho dela
Eu disse que ia pedir que minha mãe orasse, mas ela insistiu em
Meu coração bom [o ônus da prova cabe ao acusador]

Mas, mal sabia ela que, na hora de orar, eu pedia
Que Deus fosse rápido em ouvir minha prece
Que, ultimamente, sempre só consegue morar de passagem por meu coração absurdo

Às vezes, pareço uma caberna onde a inteligência é substituída pelo eco de trocadilhos
Um louco motiva meus trilhos a não desistirem de fazer os trens tremerem
E visita uma oca onde o Aikido não se contente em regredir à faixa preta a cada nova aula

Outro dia, um amigo me perguntou se a ruindade de fulana era por ela ser lésbica ou algo do tipo
E percebi que para ser “bom”, era necessário ser hetero, casado, rico e se deixar controlar por
Um macho, independentemente de ele ser homem ou mulher ou, até eu mesmo

De repente, esta poesia foi interrompida por uma tocha
Lançada de outra dimensão por um neofascista

E por que pra ser contrário à imigração,
Preciso destruir os judeus?

Não se é contra os negros e os gays
Se é contra uma paisagem onde a alternativa não seja mais subjugada
Onde o fazer alheio seja não o cumprir a ordem, nem o ufanar-se do progresso

Entre dois gays, onde fica o lugar da mulher subjugada?, indaga um furioso neofascista
Como estarei no controle, num mundo onde meu chicote não é páreo para a lei áurea?,
Questionou um futuro candidato à presidência da Ilha de Vera Cruz

E ele mesmo responde, sem tirar as mãos do Bolsonaro:
Meu lugar no mundo é à sombra de alguém fulminado por um ataque terrorista
Minhas dez mil virgens, minha água fresca, meu paraíso
Brota numa taça amarga

Taça de sangue feito de uvas selecionadas,
Uvas que não se encaixam na ditadura da natureza,
Cuja bula foi prescrita não por “Eu Sou”, mas por “Seja como eu”
À luz do tenebroso lançar de dados de Lord Armadilha e de um Loukin-Jong

Papa Francisco eu te ordeno que, pelo amor do Amor, não desligues as fontes do Vaticano
Onde encontraremos água pra lavar os corações rochosos que se escondem por trás das tochas?
Onde as moedas mergulharão para realizar meus desejos egoístas?

Eu te ordeno que, pela gentileza do Galileu, canonizes Galilei

Pra que haja tempo ainda de meu coração se apaixonar nova e reciprocamente

31 de maio de 2017

Terror crítico no filme Corra! (Get Out!): a facies hipocratica da tolerância

Cartaz do filme Corra! (Get Out!)


Quem disse que filme de terror não pode trazer crítica social em seu DNA?

A cada cena de Get Out! (que, no Brasil, ganhou o título de Corra!), o que mais me assustava eram as correlações que fiz com um depoimento da atriz Thaís Araújo sobre a relação entre racismo e tolerância.

O filme de Jordan Peele tem feito sucesso pelo mundo como thriller de terror sem apelar para o sobrenatural, de suspense parapsicológico e mistério.

Mas, não considero que o gênero do filme seja nenhum dos mencionados no parágrafo anterior. O terror, o mistério e o suspense são, na verdade, metáforas do verdadeiro tema do filme: o mito da tolerância.

Só pra não deixar o leitor voando, lá vai uma sinopse: Chris, muito bem interpretado por Daniel Kaluuya (de Black Mirror) resolve passar o fim de semana na casa dos pais de sua namorada Rose, papel vivido pela atriz Allison Williams.

Ao chegar lá, depara-se com uma família a princípio receptiva. Porém, o apurado olhar fotográfico de Chris começa a detectar estranhas coincidências. Os poucos negros da região apresentem sinais sorumbáticos que tentam conviver com sinais artificiais de tranquilidade e alegria.

O riso dos negros da localidade aproxima-se do que, no jargão médico, é chamado de facies hipocratica, caracterizada por olhos fundos, parados e inexpressivos presentes em casos nos quais a pessoa enfrenta uma grave doença.

Chris começa, então, a perceber que aquilo não se trata de mera casualidade e que ele próprio pode se tornar vítima.

O título original (Get out!) é uma ironia. Isso porque o desejo de uma elite branca de que a negritude seja banida é ironicamente associado ao desejo de se tornar o negro: parcialmente.

Retomando a questão do mito da tolerância, que atua como paisagem crítica da película, o modo como este mito é apresentado é que é a sacada da história.

Os negros não são intolerados. Ao contrário são, de uma forma deturpada e asquerosa, tolerados. O lado falso da tolerância é expresso pelas técnicas empregadas pelos brancos para estreitar o espaço social e psíquico em que os negros podem existir.

O existir tolerado é aquele em que o ser humano subjugado só pode se mover e sentir dentro de limites estreitos, de uma jaula que, no filme, assume a pior forma de prisão, aquela que o pensador Peter Sloterdijc denomina “gaiola de vento”, uma alusão às prisões caiadas de ilusória liberdade.

O que o filme Corra! faz é dar tons hiperbólicos ao que acontece na sociedade atual, onde o fetiche da tolerância esconde um jogo sádico. Assim, os negros, os gays, as mulheres, e outros grupos atingidos pela discriminação, sentem-se coagidos a entrar no jogo da pseudo-aceitação.

O gay/negro/mulher é tolerado, desde que respeite os limites de existência subliminarmente impostos pelos donos da situação.

E assim espera-se dos discriminados que, no mínimo, sorriam e sintam-se gratos enquanto ouvem os discriminadores assumirem palavras e gestos onde a discriminação faz um contorno  no cabo das tormentas para encontrar um outro modo de chegar às Índias, isto é, ao coração da pessoa discriminada.

Essa expressão perversa do mito da tolerância atua como se discriminadores (ou a parcela discriminadora de cada um de nós) erguessem manequins invisíveis e os incendiassem com tochas de insulto e violência, dizendo à pessoa que se quer discriminar: “Estou insultando um ser invisível, que, por mera coincidência, poderia ser você, mas não é... Portanto, alegre-se!”

Em Corra!, o preconceito não existe. Porque um grupo de sádicos desenvolveu técnicas para estreitar o âmbito em que os negros podem existir e envernizou esta gaiola de ventos com água oriunda de lavagem cerebral e de lágrimas ao avesso, disfarçadas de sorriso e paz cemiterial.

Quando o terror, o suspense e o mistério morrem é que o filme se torna mais aterrorizante e tenso.

Filme incrível e com grandes atuações de Betty Gabriel, Catherine Keener, Keith Stanfield e Bradley Whitford. 


10 de maio de 2017

Receita poética para o MasterChef


Photo credit: rtppt via Visualhunt.com / CC BY-NC-SA


Adicionei um mói de câmera lenta no acelerador da carruagem 
E descasquei os milésimos de segundo até cada um deles se tornar uma noite inteira
Na tua companhia

Polvilhei chuva no asfalto e hipnotizei as ruas
Até seus olhos semicerrarem
E o mundo inteiro se tornar bastidor de nossas carícias

Untei teus lábios com vinho
E pré-aqueci nosso abraço,
Assistindo de mãos dadas ao vento virar filme
E catar nossos segredos

Segurei a vela até ela abrir as asas
E acender nossa embarcação

Quando tomaste, finalmente, iniciativa
Foste fermento que fez meu coração crescer, 
Longe de qualquer corrupção

Meu carinho  confessou ser teu despertador
Capaz de te acordar pra dentro do meu sonho

Dormi nós dois enquanto a chuva imitava a voz do mar
A gosto

Adia o cais e o aeroporto
Não (des)embarque ainda
Não antes do teu abraço me contar
O segredo para abrir o cofre da liberdade

O calor do nosso encontro aguarda um fio de Aceite
Para completar a receita

Ensina meu plano de te beijar
A te pegar de surpresa
E meu cobertor a se tornar tua atmosfera e remanso

Nus, envolvendo-nos enquanto assistimos Netflix
Ou torcemos pelo retorno dos eliminados do MasterChef

1 de maio de 2017

Bjos de luz, filhas de Frida Kahlo!

É possível ser feminista e cristã ao mesmo tempo? O que leva um discurso evangélico a criar uma associação entre o Demônio, o feminismo e Frida Kahlo? Tentamos refletir sobre o tema, mesmo depois do "trauma" de ter ouvido ontem que quem fez o mestrado em Comunicação não sabe o que é ter feito um mestrado...


Arte: Karla Vidal


Não gosto de analisar o discurso dos outros porque, ao se fazer isso, corre-se o risco de tratar o discurso como sendo o próprio indivíduo, o que não procede porque não há signo ou discurso que consiga dar conta plenamente nem das coisas, nem dos acontecimentos, nem das pessoas.

Nesta perspectiva, a narração é uma tentativa mais ou menos bem-sucedida de correr atrás do tempo perdido e a descrição reflete nosso esforço de passar uma borracha em cima da infidelidade de nossas memórias.

Mas, esse preâmbulo é só pra dar um verniz científico na seguinte frase: “Não dá pra reduzir uma pessoa ao que ela fala ou escreve”.

Outra coisa chata de quem se mete a analisar o outro por meio do discurso dele é a tentação de resumir a análise a comparações com outros discursos e outras pessoas. Nas redes sociais, a exemplo do Facebook, isso já se tornou praticamente uma regra de etiqueta (falta de).

Os facebookianos vão longe em suas comparações, construindo verdadeiras genealogias que trazem numa ponta a pessoa que proferiu um determinado discurso e no início da genealogia figuras míticas ou de cunho religioso, incluindo Deus e o Satanás.

Um exemplo interessante do que estou dizendo é um diálogo, do qual reproduzirei trechos, extraído de um grupo de discussão de uma igreja evangélica. O diálogo é gerado em torno da possibilidade de mulheres assumirem o papel de pastoras nas Igrejas.

Uma das personagens do diálogo (Karla) apoia o pastorado feminino e começa a ser atacada por discordantes. Em um dado momento, uma das discordantes insere o alvo numa formação discursiva feminista, algo como:

- Feminista cristã?, pergunta a discordante sobre o pastorado feminino.
-Sim, com total equivalência, responde Karla .

A partir daí, os discordantes tentam construir a tese de que estabelecer uma relação entre os discursos feminista e cristão é um contrassenso e apelam para comparações:

- [Feminista cristã] É tipo judeu nazista ou negro racista.

Depois disso, começa a ser desfiado um rosário de insultos, mencionando que uma mulher que se denomina feminista cristã nunca abriu uma bíblia na vida e deve se arrepender de seus pecados e entregar todo o coração a Cristo.

Porém, o trecho mais interessante do diálogo é o seguinte:



O personagem Gabriel, com base na ideia de que existe uma equivalência entre pessoa e discurso, erige uma Formação Discursiva ilustrada pela ideia que ele possui a respeito de Frida Kahlo e insere Frida numa genealogia à qual pertencem as feministas, que ele considera um mal a ser combatido. 

Mesmo que não tenha sido intenção dele, sua estratégia discursivo-genealógica nos leva a supor que a árvore genealógica de Frida Kahlo e, portanto, das feministas, tem como ancestrais versões da mulher associadas ao Mal e, em última instância, ao pecado e ao demônio.

Essa estratégia discursiva, tão comum atualmente nas redes sociais, esforça-se por apagar a história das pessoas, seus sofrimentos, contradições, mas também prodígios e resplendor, reduzindo-as a um bloco discursivo que, muitas vezes, não tem sequer relação com o que estas pessoas viveram.

E, quando se anula a existência de uma pessoa, projetando-se nela formações discursivas, no mais das vezes cristalizadas e irrefletidas, abre-se caminho para a intolerância e a exclusão.

Os discursos de ódio, nas redes sociais, vêm dessa tentativa de converter a  riqueza da complexidade e da contradição humanas em avatares esculpidos a partir de retalhos de preconcepções selvagens.



Esta postagem foi escrita em homenagem ao aniversário de Ana Carolina Morais, que discorda de mim há décadas, ajudando-nos a manter uma amizade sólida como são as águas vivas do Espírito.

Também homenageia Karla Sabryna, feminista, cristã  e Karla Vidal, ambas filhas de Frida Kahlo.


26 de abril de 2017

Cassini e a tentativa de sondar o coração de um labrador


Photo credit: Marcello Consolo via VisualHunt.com / CC BY-NC-SA


Vai fazer 20 anos que a sonda espacial Cassini vasculha a imensidão do cosmos
De mansinho
Andou tão pouco e sua morte está anunciada: será nos anéis de saturno
Quem não gostou muito da notícia foi Rita Lee

Valeu o esforço, Cassi
Os sinos de Mônaco e as ondas de Las Vegas se dobram
Diante da tua insondável persistência

Na tentativa de sondar o cosmos humano,
Podemos ser nada gentis
Mas, temos a tendência de procurar no mistério das mentes e dos corações
Um farol que nos ajude a singrar
E desderramar o sangue brotado da cepa estéril das guerras

Labrador,
Se a telepatia fosse minha audição,
Se eu pudesse desatar os nós das profundezas das entrelinhas,
Ainda assim, preferiria te descobrir pouco a pouco
Dia após dia

E contemplar a luz abrigado na sombra do teu abraçoso mistério

23 de abril de 2017

A tribo da "chota" e o pau nosso de cada dia


Photo credit: Jim Nix / Nomadic Pursuits via Visualhunt / CC BY-NC-SA


Não pertenço a nenhuma tribo
Não sei usar arco, flecha, espada
Só uso muito mais ou menos o chapéu mágico de Presto

Vou embora um pouquinho pra sempre
Deixar de roubar o seu tempo respondendo meu zap
Tempo que você pode utilizar melhor
Caçando alguma mulher do sexo feminino e que tenha “chota” em vez de ânus,
“chota” em vez de boca,  em vez de olhar

Vou ter aulas com Salvador Dalí e  com o antípoda de Pigmaleão
E construir uma obra SUSrrealista: só “chota”
E condenená-la à tortura eterna de me ouvir  cantar O Pai te ama

Por que, afinal, o que resta ao macho a não ser provar que o mundo
É indigno de homens e de mulheres,
Que o mundo deve ser reduzido a um campo de tortura de “chotas”?
E, no teatro do absurdo,
Provar que o gênero Macho (seja hetero, homo, vegetal ou mineral) é o único que deveria existir
Reduzindo os cinco sentidos do corpo a um único: o de ser todo “chota”,
Cu ou Caralho


Faz sentido?

E depois da caça, sem precisar ir a nenhum baile de favela,
Empalhe a “chota” dela ou dele e pendure na porta dos fundos da sua oca...
Cabeça

Como homem, você é lindo, bom e justo
Mas, como macho, um sequestrador
Liberte quem amo do cativeiro de si mesmo

Posto que a doçura dele faz falta na grande tribo do mundo

1 de março de 2017

Desabafo do Lanterna Verde na quarta-feira de cinzas



Foto: Cláudio Eufrausino



Lanterna de cinzas

Fiquei em dúvida se meu amor inventou que tinha uma doença
Pra que eu ficasse por longe
Pra estar livre do fardo de ser amado por mim

Mas, isso não me impediu de arriar, arriar (tris), no Recife Antigo
Até perto do sol raiar

O horário de verão já estava hibernando
E meus corações viram cores nunca d’antes navegadas

Fique em paz, meu amor,
Nesta quarta, escrevo para dizer que
Respeito teu castelo de cinzas
E respeito mais ainda minhas chamas desabrigadas

A propósito, ficaria contigo, fosse doente, cego ou paralítico
Gostando ou não de samba, frevo ou foxtrot

O carnaval te ama e
Não tenho ciúme de te ver dançando de rostinho colado com ele

Tem doído cogitar que você fica feliz quando me sinto reduzido a cinzas
E está tão perto de chegar o dia em que entrará pela minha porta um amor
Que realçará toda a multicor que sabe de cor
Onde está a porta de mim
Que nunca esquecerá o sabor de ser prisma

A quarta-feira de cinzas pediu carona ao momento
Em que as correntes de ar e as marítimas dançam o ritmo da alforria
E, por que não, da libidiberdade

A quarta-feira, apesar de ingrata, chegou antes de você trazendo um monte de pétalas
Embriagadas de Eu te amos

Depois dessa visita,

Não é que acordei parecido com o Lanterna Verde...

21 de fevereiro de 2017

Conselho pré-carnavalesco para jogadores de Minecraft e suigeneris

Fonte da imagem: Bioretro




O conselho que dou é: Tenha piedade de si mesmo
E permita-se impagar suas cobranças

Não se deixe prender em nenhum Minecraft ou genérico

E se você for capturado, não se deixe convencer
Que você só serve para nutrir criaturas selecionadas para evoluir
Como se fosse uma digi-criatura qualquer

Não se ofereça em sacrifício para nutrir o ego de nenhum jogador

Ninguém é obrigado, para aparentar equilíbrio e desprendimento,
A comprar uma vaga no camarote do sorriso basbaque
E ficar assistindo ao desfile do bloco “Acredite quando eu finjo”

Prefira o ingresso para o bloco “Estou fora do ar para reparos técnicos”

Respeite o fato de que seu Eu te amo está ainda bastante inflamado,
Respeite sua lenta e gradativa cicatrização

Você não é obrigado a esbanjar magnanimidade
Como se ela fosse sinônimo de equilíbrio

Equilíbrio é respeito ao outro,
Mas também a si mesmo
Neste carnaval e além

Experimente reconstruir o edifício do carinho,
Da saudade, do prazer
Não se contente com o papel de um personagem
Que, nesse jogo, não tem o direito de evoluir

Também não coloque o barco do equilíbrio
Ao sabor dos mares escorregadios
De indecisões extenuantes
Por mais que estejam cercadas de timidez cativante

Aproveite a liberdade do carnaval
E se dispa das arestas de inércia e egoísmo
Que costumam assaltar o equilíbrio

Só mais um conselho: permita-se assanhar as franjas da orla
Do teu manto de estratégias
Porque equilíbrio e premeditação não combinam
Quando se aterrissa nos quatro cantos



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