O pior do novo tempo é pensar que o homem não poderá mais se dar rosas
E a mulher não se poderá mais dar o céu
E como ficará Shakespeare que,
depois que for proibido de usar rosas em suas poesias?
A imbecilidade quis proibir os brasileiros de usar vermelho
E quer fazer uso capião do verde das matas e do amarelo do sol
E as aves que aqui regurgitam não gorgeiam como lá: nos Estados Unidos
Fico pensando no dia em que Cristo proibiu Pedro de usar a espada contra o centurião
"Quem com ferro fere com ferro será ferido", disse Cristo
Deveria Pedro, ao invés de faca, ter usado uma arma de fogo?
Cristo não deveria ter dito o que disse a Pedro,
Afinal, ele é apenas filho de Deus e não filho do Mito
Deus acima de tudo, desde que não use vermelho nem rosa
E não questione a ordem e o progresso vigentes
Francisco se desfez de todas as suas vestes,
Mas, hoje, há quem o chame de Anticristo
Por seus gestos heavy metal
Meu Deus, o vestido da Cinderela era azul!
Cinderela, a piniqueira, mulher perdida que ousou ir ao baile sozinha
E tirou o príncipe para dançar
Mas pior do que ela foi a Fada Madrinha, autora intelectual do crime
Fada que nunca poderia ser chamada de Mito
Porque sua varinha não atira pra matar
Cinderela deveria ter contratado a estilista que fez o vestido da Primeira sem segunda: nôtre dame
Pobre infeliz, não tinha dinheiro pra isso
A Madrasta se apossou até de seu salário mínimo e retirou todos os seus direitos: trabalhistas e humanos
E o sapatinho de cristal, aquele rebelde, agora cabe nos pés de qualquer Maria Sapatão ou de qualquer João Rosa
A autora de Harry Potter está escrevendo uma nova história onde os heróis terão de enfrentar a ameaça de Damares Tenebras
Conseguirão nossos heróis escapar dessa?
E o que será do fruto da goiabeira, que é verde por fora, mas rosa por dentro?
Stan Lee foi, provavelmente, o principal “culpado” por uma hipótese que me persegue desde que elaborei o TCC e, se tudo correr bem, renascerá das cinzas na minha pesquisa de pós-doutorado
Criador e recriador de mitos, no universo Marvel, iniciado nas HQs e consagrado no cinema, o americano traduziu, em formato de histórias de super-heróis, a dialética do Iluminismo, objeto de reflexão dos teóricos da Escola (de pensamento) de Frankfurt na primeira metade do século XX
Correndo enorme risco, podemos resumir a noção de dialética do Iluminismo – em alusão ao movimento iniciado no século XVIII - como o conflito entre a emancipação e o terror no coração da história
contemporânea. História mesma que apostou na ideia da evolução contínua, mas, em nome de nobres ideais (razão, igualdade, liberdade e fraternidade, ordem e progresso) foi capaz de produzir horrores como os fascismos e as guerras mundiais
A figura do super-herói passeia ao longo da história, tomando emprestado luzes e sombras de heróis greco-latinos, escandinavos, dos cavaleiros medievais e principalmente do herói romântico, no qual habita a inusitada promessa de combinar o demasiadamente humano à centelha de divindade vinda até nós trazida por uma tempestade emanada do paraíso perdido
A obra de Stan Lee, em particular os X-men, expõe a fratura entre luz e trevas na alma dos super-heróis, revelando o quão desgraçados podem ser os pré-requisitos para se ser alguém divino: a onisciência, a onipotência e a onipresença
Os mutantes, criados por Stan Lee, não têm controle sobre os poderes como costumavam ter os heróis tradicionais a exemplo do Super-Homem, expressão ultra-idealizada do homem iluminista
Os mutantes telepatas como JeanGrey são atormentados pelo dom de ter acesso indiscriminado ao que as pessoas pensam
A personagem Vampira poderia se vangloriar de sua habilidade de, ao toque, extrair dos outros memórias, poderes e energia. Contudo, esta versão do toque de Midas, assim como no mito, aponta a frágil fronteira entre bênção e maldição. Vampira é condenada a não poder ter nenhum tipo de contato corporal com os outros sem fazê-los correr o risco de morrer. Além disso, ao absorver a energia vital alheia, ela vê mente, corpo e espírito ameaçados por ondas de esquizofrenia
Os mutantes, ao contrário do herói clássico greco-latino, não representam a fusão entre o bom, o belo e o justo
Alguns, na aparência, poderiam ser encarados como representantes da normalidade institucionalizada, mas são perseguidos pelo que os fazextra-ordinários. Nesse contexto, não há mais muita diferença entre ser extra-ordinário e ser anormal, anômalo, amaldiçoado
Outros que, sob a égide dos padrões, seriam considerados corporalmente limitados têm habilidades prodigiosas. Esta surpreendente combinação terminam por mostrar como nossos juízos a respeito do que é prodigioso e do que é anômalo são assombrados pela ignorância, pelo fanatismo e pela hipocrisia
Stan Lee foi um dos grandes responsáveis por ampliar a capacidade discursiva dos mitos e alegorias, que deixam de ser, prioritariamente, espelhos da autoimagem de um povo (os gregos, por exemplo) ou ferramenta de doutrinação, a exemplo das alegorias medievais, e tornam-se plataformas de crítica e debate filosófico, desafiando, em tempo real, as certezas que tentam tomar conta das consciências e contribuindo para evitar que os fascismos e outros fantasmas ameacem as melhores invenções do Iluminismo: a liberdade e o direito humano de ser digno de existir
Quem admira Stan Lee não pode deixar de ler a história X-men: Dias de um futuro esquecido, na qual o autor faz um paralelo entre os campos de concentração nazistas e campos de concentração de um futuro distópico no qual os mutantes são igualmente vítimas
Parece mais fácil perdoar a virtude de um demônio
Do que o pecado de um anjo
Serei eu tolo o bastante pra honrar as rosas que desabrocham
de um dos canos de minha espingarda 11 (meu eu traidor preferiu se enforcar a ser fuzilado)?
O outro cano da arma engoliu o choro
Na hora exata, os dois corredores queimaram, ao mesmo tempo, a largada, ao som do tiro
Que me devolveu um estampido vestido de calada da noite
A raiz de uma asa delta plantou-se em mim com suas sapatilhas feridas
E o macho alfa que ainda restava em ti teve medo de me reencontrar
Afinal, se você tivesse me visto, correria o risco de querer me abraçar
Até o despertador se arrepender de seus planos
Confesso que não sou gay o bastante
Nem macho o suficiente
E quero lançar meu sutiã no zero absoluto
Pois meu seios fartos
Não aguentam mais ser malhados todo dia
Prefiro o ósculo aos músculos
Não quero que seja tarde demais pra me convidares a me revelar
À luz de jantares
Conseguirei ser bom o suficiente, mau o bastante e bobo na medida certa:
Como tu (des)esperas?
Não há lugar pra maldições
No meu coração apertadinho
Onde cada página virada é um horizonte que pare um sol indeciso entre nascer ou se opor
Quero te perdoar até ser capaz de te ex-aquecer
Mas não quero ter de gastar energia esculpindo nuncas mais
Ou arrumando nós para Nossa Senhora desatar:
Tudo isso em venérea ação ao Tô nem Aii que me dedicas
Obrigado por tal vez nunca ter sido obrigado a usar as camisas que te dei de presente,
As luzes que te darei de passado
E as nudezes que te dou de futuro
Se me perguntassem qual a música do ano, a favorita, responderia
sem titubear: Só dá tu, imortalizada na voz de Rafaela Santos.
A canção consegue devolver ao pronome Tu o lugar no pódio
que, há tempos, vinha sendo ocupado pelo pronome você.
A norma culta não permite o sabor de dizer Eu amo tu, porque
Tu não pode ser utilizado na função de objeto, estando sujeito a ser sempre
sujeito.
Mas, em Só dá tu, o tu, no auge de sua normatividade, é
inquestionavelmente sujeito, mas uma espécie de inconsciente linguístico
confere a ele (ao Tu) um sabor de transgressão como ocorreria se a Constituição
permitisse dizer Eu amo tu.
Os integrantes do Movimento Sou Cultural, talvez não tenham
notado que Só dá Tu significa um salto quântico dado pelo Arrocha, um dos
afluentes do tecno-brega, em direção ao refinamento.
A letra permite a quem canta exprimir com cores de infância
a obsessão dos românticos malditos do século XIX. O Byron que habita os versos de Só dá Tu
prefere rir de si mesmo. Assim, o peso da obsessão se dilui nas ondas que o
ritmo da música sugere.
Dick Farney, que imortalizou Alguém como Tu, se tivesse se
lançado como cantor nos dias de hoje, não pensaria duas vezes: dividiria o
palco com Rafaela Santos.
O pronome tu e a língua portuguesa agradecem por esta grande
invenção sonora, que cinge o fado com a cadência da loa africana e os bits da
música pop.
Quem prestar atenção direitinho vai encontrar em Só dá tu
vestígios arqueológicos do blues, com suas síncopes costuradas por ondas, que
fazem o corpo imitar o mar e, de contratempos em contratempos, ter aquela
sensação de quem, prestes a adormecer, acorda-se assustado como se fora cair no
abismo.
Algo, na composição de Elvis Pires, remete à ingenuidade das primeiras composições românticas de Elvis Presley.
Eu não teria vergonha de cantar no teu calcanhar do ouvido, anjo e/ou leão, o
refrão Só dá tu.
Uma parcela daqueles que se entendem como heterossexuais -
ou, melhor dizendo, os heteronormativos - acham que estão livres da perseguição
e do preconceito. Como se os gays sempre fossem os “outros”.
Nas rodas de conversas, os heteronormativos chamam a si
mesmos pelo nome, mas apagam o nome dos homossexuais, que são reduzidos a uma
categoria, sendo-lhes retirada individualidade.
O dilema da transexual Ivana, da novela A Força do Querer,
ilustra essa tendência. Boa parte do sofrimento da jovem se deve ao fato de
viver cercada por pessoas que, a fina força, querem fazer coincidir gênero e
sexualidade, anulando as identidades complexas que se erguem nessa tensa
fronteira.
A heteronormatividade comete o erro de achar que o fato de
ser homossexual proíbe o ser humano de ser indivíduo dotado de particularidade
e personalidade. Daí, o entendimento de
que todo homossexual que não se encaixa na forma de estereótipos é um enrustido
ou um embusteiro.
Muitos têm se prostrado diante das ideias de Jair Bolsonaro,
chorando nostalgicamente pelo retorno de uma era ideal – que nunca existiu –
ondeseria possível distinguir, com exatidão, as fronteiras entre masculino e
feminino, paralisando o complexo diálogo entre Yin e Yang.
Mas, a ideologia bolsonariana em sua busca pelo modelo ideal
de homem vai produzir um efeito semelhante ao do conto O Alienista, de Machado
de Assis, onde o personagem-título, de tanto enxergar loucura em todos que o
cercam, acaba chegando â conclusão de que o único louco era ele mesmo.
A ideologia bolsonariana assim como rebaixa os homossexuais
terminará criando subcategorias de heterossexuais, que também serão vítimas de discriminação.
Assim, poderão ser discriminados e tachados de enrustidos,
por exemplo, os heterossexuais engomadinhos e perfumados; Ou talvez os
heterossexuais que fazem da academia um templo de culto ao corpo.
Afinal, o ideal bolsonariano só chega ao orgasmo quando
coloca todos sob suspeita. Ser homossexual assumido é, na visão à Bolsonaro, um
crime. Porém, ter comportamentos que fazem a pessoa suspeita de não ser
heterossexual é, no código penal bolsonariano, um crime qualificado e com
motivação torpe.
Se, Deus nos livre, a ideologia bolsonariana triunfar, não
vai adiantar sair por aí dizendo que come buceta para escapar da
estigmatização. Isso porque, como nos lembra o canto traidor de Ossanha, “aquele que diz sou não é”.
O Governo bolsonariano vai estabelecer uma hierarquia de castas
de heterossexuais, conforme supostamente o heterossexual esteja ou não afastado
do “vírus” da homossexualidade.
E, no fim, talvez Bolsonaro descubra que até mesmo ele é um
heterossexual sob suspeita.
Uma funcionária pública me pediu que orasse pelo filho dela
Eu disse que ia pedir que minha mãe orasse, mas ela insistiu
em
Meu coração bom [o ônus da prova cabe ao acusador]
Mas, mal sabia ela que, na hora de orar, eu pedia
Que Deus fosse rápido em ouvir minha prece
Que, ultimamente, sempre só consegue morar de passagem por
meu coração absurdo
Às vezes, pareço uma caberna onde a inteligência é
substituída pelo eco de trocadilhos
Um louco motiva meus trilhos a não desistirem de fazer os
trens tremerem
E visita uma oca onde o Aikido não se contente em regredir à
faixa preta a cada nova aula
Outro dia, um amigo me perguntou se a ruindade de fulana era
por ela ser lésbica ou algo do tipo
E percebi que para ser “bom”, era necessário ser hetero,
casado, rico e se deixar controlar por
Um macho, independentemente de ele ser homem ou mulher ou,
até eu mesmo
De repente, esta poesia foi interrompida por uma tocha
Lançada de outra dimensão por um neofascista
E por que pra ser contrário à imigração,
Preciso destruir os judeus?
Não se é contra os negros e os gays
Se é contra uma paisagem onde a alternativa não seja mais
subjugada
Onde o fazer alheio seja não o cumprir a ordem, nem o
ufanar-se do progresso
Entre dois gays, onde fica o lugar da mulher subjugada?,
indaga um furioso neofascista
Como estarei no controle, num mundo onde meu chicote não é páreo para a lei áurea?,
Questionou um futuro candidato à presidência da Ilha de Vera Cruz
E ele mesmo responde, sem tirar as mãos do Bolsonaro:
Meu lugar no mundo é à sombra de alguém fulminado por um
ataque terrorista
Minhas dez mil virgens, minha água fresca, meu paraíso
Brota numa taça amarga
Taça de sangue feito de uvas selecionadas,
Uvas que não se encaixam na ditadura da natureza,
Cuja bula foi prescrita não por “Eu Sou”, mas por “Seja como
eu”
À luz do tenebroso lançar de dados de Lord Armadilha e de um
Loukin-Jong
Papa Francisco eu te ordeno que, pelo amor do Amor, não desligues as fontes do Vaticano
Onde encontraremos água pra lavar os corações rochosos que se escondem por trás das tochas?
Onde as moedas mergulharão para realizar meus desejos egoístas?
Eu te ordeno que, pela gentileza do Galileu, canonizes Galilei
Pra que haja tempo ainda de meu coração se apaixonar nova e
reciprocamente
Quem disse que filme de terror não pode trazer crítica
social em seu DNA?
A cada cena de Get
Out! (que, no Brasil, ganhou o título de Corra!), o que mais me assustava eram as correlações que fiz com um
depoimento da atriz Thaís Araújo sobre a relação entre racismo e tolerância.
O filme de Jordan Peele tem feito sucesso pelo mundo como
thriller de terror sem apelar para o sobrenatural, de suspense parapsicológico
e mistério.
Mas, não considero que o gênero do filme seja nenhum dos
mencionados no parágrafo anterior. O terror, o mistério e o suspense são, na
verdade, metáforas do verdadeiro tema do filme: o mito da tolerância.
Só pra não deixar o leitor voando, lá vai uma sinopse:
Chris, muito bem interpretado por Daniel Kaluuya (de Black Mirror) resolve
passar o fim de semana na casa dos pais de sua namorada Rose, papel vivido pela
atriz Allison Williams.
Ao chegar lá, depara-se com uma família a princípio
receptiva. Porém, o apurado olhar fotográfico de Chris começa a detectar estranhas
coincidências. Os poucos negros da região apresentem sinais sorumbáticos que
tentam conviver com sinais artificiais de tranquilidade e alegria.
O riso dos negros da localidade aproxima-se do que, no
jargão médico, é chamado de facies hipocratica,
caracterizada por olhos fundos, parados e inexpressivos presentes em casos nos
quais a pessoa enfrenta uma grave doença.
Chris começa, então, a perceber que aquilo não se trata de
mera casualidade e que ele próprio pode se tornar vítima.
O título original (Get out!) é uma ironia. Isso porque o
desejo de uma elite branca de que a negritude seja banida é ironicamente associado
ao desejo de se tornar o negro: parcialmente.
Retomando a questão do mito da tolerância, que atua como
paisagem crítica da película, o modo como este mito é apresentado é que é a
sacada da história.
Os negros não são intolerados. Ao contrário são, de uma
forma deturpada e asquerosa, tolerados. O lado falso da tolerância é expresso
pelas técnicas empregadas pelos brancos para estreitar o espaço social e
psíquico em que os negros podem existir.
O existir tolerado é aquele em que o ser humano subjugado só
pode se mover e sentir dentro de limites estreitos, de uma jaula que, no filme,
assume a pior forma de prisão, aquela que o pensador Peter Sloterdijc denomina “gaiola
de vento”, uma alusão às prisões caiadas de ilusória liberdade.
O que o filme Corra!
faz é dar tons hiperbólicos ao que acontece na sociedade atual, onde o fetiche
da tolerância esconde um jogo sádico. Assim, os negros, os gays, as mulheres, e
outros grupos atingidos pela discriminação, sentem-se coagidos a entrar no jogo
da pseudo-aceitação.
O gay/negro/mulher é tolerado, desde que respeite os limites
de existência subliminarmente impostos pelos donos da situação.
E assim espera-se dos discriminados que, no mínimo, sorriam
e sintam-se gratos enquanto ouvem os discriminadores assumirem palavras e
gestos onde a discriminação faz um contorno
no cabo das tormentas para encontrar um outro modo de chegar às Índias,
isto é, ao coração da pessoa discriminada.
Essa expressão perversa do mito da tolerância atua como se discriminadores
(ou a parcela discriminadora de cada um de nós) erguessem manequins invisíveis
e os incendiassem com tochas de insulto e violência, dizendo à pessoa que se
quer discriminar: “Estou insultando um ser invisível, que, por mera
coincidência, poderia ser você, mas não é... Portanto, alegre-se!”
Em Corra!, o
preconceito não existe. Porque um grupo de sádicos desenvolveu técnicas para
estreitar o âmbito em que os negros podem existir e envernizou esta gaiola de
ventos com água oriunda de lavagem cerebral e de lágrimas ao avesso,
disfarçadas de sorriso e paz cemiterial.
Quando o terror, o suspense e o mistério morrem é que o
filme se torna mais aterrorizante e tenso.
Filme incrível e com grandes atuações de Betty Gabriel, Catherine Keener, Keith Stanfield e Bradley
Whitford.
É possível ser feminista e cristã ao mesmo tempo? O que leva um discurso evangélico a criar uma associação entre o Demônio, o feminismo e Frida Kahlo? Tentamos refletir sobre o tema, mesmo depois do "trauma" de ter ouvido ontem que quem fez o mestrado em Comunicação não sabe o que é ter feito um mestrado...
Não gosto de analisar o discurso dos outros porque, ao se
fazer isso, corre-se o risco de tratar o discurso como sendo o próprio
indivíduo, o que não procede porque não há signo ou discurso que consiga dar
conta plenamente nem das coisas, nem dos acontecimentos, nem das pessoas.
Nesta perspectiva, a narração é uma tentativa mais ou menos bem-sucedida
de correr atrás do tempo perdido e a descrição reflete nosso esforço de passar
uma borracha em cima da infidelidade de nossas memórias.
Mas, esse preâmbulo é só pra dar um verniz científico na
seguinte frase: “Não dá pra reduzir uma pessoa ao que ela fala ou escreve”.
Outra coisa chata de quem se mete a analisar o outro por
meio do discurso dele é a tentação de resumir a análise a comparações com
outros discursos e outras pessoas. Nas redes sociais, a exemplo do Facebook,
isso já se tornou praticamente uma regra de etiqueta (falta de).
Os facebookianos vão longe em suas comparações, construindo
verdadeiras genealogias que trazem numa ponta a pessoa que proferiu um
determinado discurso e no início da genealogia figuras míticas ou de cunho
religioso, incluindo Deus e o Satanás.
Um exemplo interessante do que estou dizendo é um diálogo,
do qual reproduzirei trechos, extraído de um grupo de discussão de uma igreja
evangélica. O diálogo é gerado em torno da possibilidade de mulheres assumirem
o papel de pastoras nas Igrejas.
Uma das personagens do diálogo (Karla) apoia o pastorado feminino e
começa a ser atacada por discordantes. Em um dado momento, uma das discordantes
insere o alvo numa formação discursiva feminista, algo como:
- Feminista cristã?, pergunta a discordante sobre o pastorado feminino.
-Sim, com total equivalência, responde Karla .
A partir daí, os discordantes tentam construir a tese de que
estabelecer uma relação entre os discursos feminista e cristão é um
contrassenso e apelam para comparações:
- [Feminista cristã] É tipo judeu nazista ou negro racista.
Depois disso, começa a ser desfiado um rosário de insultos,
mencionando que uma mulher que se denomina feminista cristã nunca abriu uma
bíblia na vida e deve se arrepender de seus pecados e entregar todo o coração a
Cristo.
Porém, o trecho mais interessante do diálogo é o seguinte:
O personagem Gabriel, com base na ideia de que existe uma
equivalência entre pessoa e discurso, erige uma Formação Discursiva ilustrada
pela ideia que ele possui a respeito de Frida Kahlo e insere Frida numa
genealogia à qual pertencem as feministas, que ele considera um mal a ser
combatido.
Mesmo que não tenha sido intenção dele, sua estratégia
discursivo-genealógica nos leva a supor que a árvore genealógica de Frida Kahlo
e, portanto, das feministas, tem como ancestrais versões da mulher associadas
ao Mal e, em última instância, ao pecado e ao demônio.
Essa estratégia discursiva, tão comum atualmente nas redes
sociais, esforça-se por apagar a história das pessoas, seus sofrimentos,
contradições, mas também prodígios e resplendor, reduzindo-as a um bloco
discursivo que, muitas vezes, não tem sequer relação com o que estas pessoas
viveram.
E, quando se anula a existência de uma pessoa, projetando-se
nela formações discursivas, no mais das vezes cristalizadas e irrefletidas, abre-se
caminho para a intolerância e a exclusão.
Os discursos de ódio, nas redes sociais, vêm dessa tentativa
de converter a riqueza da complexidade e
da contradição humanas em avatares esculpidos a partir de retalhos de preconcepções
selvagens.
Esta postagem foi escrita em homenagem ao aniversário de Ana
Carolina Morais, que discorda de mim há décadas, ajudando-nos a manter uma
amizade sólida como são as águas vivas do Espírito.
Também homenageia Karla Sabryna, feminista, cristã e Karla Vidal, ambas filhas de Frida Kahlo.