4 de março de 2015

Primeiro poema sobre um selfie

Selfie de Frank Sinatra
Fonte: Blog da Pipa Comunicação



Selfie
Por Linav Koriander


Teu rosto de dois mil e hoje consegue ser mais lindo que todos os de dois mil e ontens juntos

Abri o Livro da tua Face no capítulo Março. Rever-te fez minha saudade retroagir a um 2011 pertencente a um universo paralelo, no qual meus olhos controlaram o ímpeto de te abraçar por baixo daquela roupa de Guerra nas Estrelas 

Só não deu pra controlar o impulso de te enviar um buquê de estrelas que fingiam ser flores: num mês que fingia ser abril: num dia que fingia ser mentira

Minha barba, toda sem jeito, ficou quase ruiva, encabulada de tão feliz com teu novo perfil

Teu olhar direcional o horizonte o usa pra calcular as rotas de voo e aterrisagem dos sonhos

Também são bonitos os raios de luar que começam a aparecer no teu cabelo de eclipse total
Não nos conhecemos bem, mas os lábios da minha fantasia são íntimos do teu pescoço e adjacências

Meus ouvidos tentam roubar na imagem o som da tua voz. O problema é que quando ligo para teu número desconhecido, só dá ocupado e meus carinhos não pegam na tua área de cobertura. Quem sabe eles não pegassem debaixo das cobertas!

O inconsciente coletivo me perdoe, mas os milhares de rostos que ele abriga viram vultos diante de tua visagem.

O sol de Granada demorou a explodir na manhã pra ficar vendo teu olhar decolar
Sem mim, você é lindo e comigo seria lindo-e-voltando  ;)

Fico achando que minha lembrança já não te faz nem cócegas e os ventos trazem a bordo teus selfies, amenizando o calor desse Recife pós-carnaval. Jung e eu agradecemos.


28 de fevereiro de 2015

Primeiro conto erótico-filosófico

Foto: ALAMY, reproduzida por The Telegraph



A filosofia estava derramada sobre meu corpo e tua língua começou a rastreá-la em diversas línguas. De repente, eu disse:

- Por favor, não me lamba em alemão porque prefiro o prazer em pequenas doses.

E tua língua, fazendo às vezes de um algoz tradutor, ramificava meu tato em diferentes idiomas. 

Dentro do meu ouvido, ela era o tradutor perfeito: como um rifle acariciando o corpo da caça. Mas não era uma arma de fogo, só de calor humano: uma dose pequena de perversão diluída em licor de tangerina.

 O medo de morrer se confundia com um prazer imenso e me deixei invadir por teu resumo estendido. E o teu entra-e-sai ia se despindo dos contratos, dos divórcios, dos julgamentos alheios, da carga tributária brasileira. Em uma das estocadas, desapareceu o escândalo da Petrobrás e a asma cedeu lugar ao orgasmo.

- Que falo nessa hora disfarçada de minuto?

Sorte que havias aprendido dos estoicos a arte de adiar o clímax. Foi então que chegou a vez da revanche e minha língua portuguesa-tupi ao mergulhar no calcanhar de Aquiles escondido em teu umbigo, fez teu corpo inteiro se tornar zona erógena por cinco minutos-hora. Foi então decretado o toque de recolher e nos entrelaçamos. Toda vergonha ficou do lado de fora da espaçonave. Éramos nota de segredo puro na mais refinada fragrância da intimidade. Nossos corpos se renderam e aquele sistema solar, entre quatro paredes, conheceu a avalanche mais silenciosa do universo.

  • Sem juras de amor
  • Ou cobranças
  • Nenhuma corveia
  • Apenas a cumplicidade total
  • Livre do peso do compromisso


Quando mordiscaste, na fina pele da parte anterior do meu antebraço esquerdo, um aforisma escrito por Sócrates, não consegui mais suportar. O gozo tornou-se indisfarçável. E o teu, quando pensavas que havia chegado ao fim, avistei algo de intraduzível na parte anterior de tua anteperna direita. Bastou um toque e um novo gozo, duas vezes mais forte, instalou-se por sobre o moribundo gozo antigo.


Depois disso, ficamos abraçados, falando em silêncios estranhos...

17 de fevereiro de 2015

Mensagem de amor da quase quarta-feira ingrata


Foto: Karla Vidal



Três anos atrás. Numa quase quarta-feira ingrata. Foi quando o Facelivro parou de enviar mensagens dele.

Hoje, uma quase quarta-feira de cinzas decidiu renascer como Fênix. Aproveitou o intervalo entre um e outro dos meus bateres cardíacos e enviou uma mensagem privada do homem das 11h59min e 12,5seg.. Aquele barulhinho do Face, fantasiado de Noite dos Tambores Silenciosos, acelerou minha pulsação, mesmo onde não havia coração batendo.

- Parei de fumar e tô com saudade, dizia a mensagem dele.
- Que bom! Eu te amo, respondeu a minha mensagem.

E, em seguida, recebi dois inusitados emoticons:

Um em forma de rosa perfumada do Bloco das Flores, fundado em Mil Novecentos e lá vai abraço.


Outro em forma de sol ranzinza barcelonense. 

Logo depois, ele ligou pra mim fingindo se chamar Confidencial e me convidou a telefonar pra ele primeiro.

Mas, antes um beijo nasceu na aurora dos mil cantos e mãos dadas tatuaram, na rua do futuro, o largo do amparo.

14 de fevereiro de 2015

Cinquenta Tons de Cinza: a primeira comédia sado-romântica


Cinquenta tons de Cinza parece ser de longe a melhor comédia do ano, mesmo que 2015 tenha acabado de começar. Uma comédia sado-romântica protagonizada pela talentosa Dakota Johnson e pelo canastrão, porém carismático, Jamie Dornan.

Os afeitos à coleção de livros Sabrina se reconhecerão no monótono espectro de Cinquenta Tons, onde a psicologia dos personagens é reduzida à revelação de traumas resumidos intercalada a esboços de sadismo com menos violência que “Um tapinha não doi” ou “Eu vou, Eu vou, sentar agora eu vou!”.

Os diálogos do filme meio que lembram conflitos de adolescência: “Por que você só quer me espancar de leve e fazer sexo oral? Por que só isso? Não podemos ir ao cinema como pessoas normais?”

Quem espera por um profundo questionamento da normalidade – algo que flerte com a literatura do Marquês de Sade - vai ficar chupando o dedo sem direito a preservativo.

Porém, existe algo bastante inovador na película: a oferta ficcional da possibilidade de uma história em que sadismo e romantismo se combinam: seria o ideal, n’est pas? Poderia um casal descobrir o equilíbrio de ouro entre a violência e a ternura que perpassam o amor? Descobrir isso significaria o fim do tédio, da traição e do Capitalismo, pois as pessoas não iam mais querer saber de trabalhar e, como previu o filósofo Herbert Marcuse, toda a força vital de Eros deixaria de ser canalizada para o trabalho e passaria a ser esbanjada em forma de ócio sexo-criativo.

Christian Grey (o Senhor Cinza, conforme a péssima tradução que fez o personagem ingressar involuntariamente no rol de suspeito do jogo Detetive e fez Dorian Grey e Oscar Wilde corarem de embaraço no Além) consegue o improvável: encontrar alguém que o ama com tanta intensidade e confiança que é capaz aceitá-lo com sadismo e tudo e ele, também apaixonado (embora negue isso até sob tortura), será capaz de abrandar seu sadismo, temperando-o com gestos românticos, como o de levar sua “submissa” ao cinema e apresentá-la aos pais como namorada.

Frustrações à parte, o filme prende porque nos oferece, em termos de gênero, coitos interrompidos. Quando está prestes a se tornar romance, vira suspense. Se tenta ser suspense, descamba para a comédia. Só não pode ser um filme no sense porque a obviedade precisaria ser torturadas ao extremo para tirar desse filme algo verdadeiramente surpreendente.

Contudo, Cinquenta Tons de Cinza é um revolucionário tratado filosófico ao propor a utopia de que é possível oferecer a quem se ama, num mesmo gesto, a combinação de dor o suficiente para torturar sem machucar e de carinho o suficiente para enternecer sem ferir. A história leva ao extremo a ideia de que, por amor, somos capazes de tentar conviver com a diferença e capazes de nos esforçarmos para sairmos (ou entrarmos) de (em) nós mesmos a fim de compreender o ser amado.

A violência na medida exata da cura redentora: talvez certamente, seja essa a mentira com mais tons de verdade já contada por uma ficção.



12 de fevereiro de 2015

Devora-me ou decifro-te: ponderações sobre o filme O Jogo da Imitação



Há quase três anos, escrevi uma postagem sobre Alan Turing, cientista que desenvolveu uma máquina capaz de processar milhares de dados simultânea e automaticamente: o primeiro computador moderno. Essa máquina, capaz de decifrar a comunicação codificada nazista, teria conseguido antecipar o final da 2ª Grande Guerra em dois anos.

Volto a falar sobre Turing, depois de ter assistido ao filme O Jogo da Imitação (The Imitation Game). Mesmo quem conhecer a história do cientista, ainda assim será pego pelo clima de suspense do filme que nos deixa tensos sobre se Turing será bem-sucedido em sua criação de Christopher (apelido dado ao computador) e se conseguirá escapar da “Justiça” inglesa que, à época, condenava os homossexuais à prisão ou à castração química.

Turing trabalhou com todo seu amor e sua arrogância para criar uma máquina capaz de imitar o cérebro humano, elevando exponencialmente sua capacidade. Mas, ele sabia que tal imitação era limitada a aspectos calculáveis, pois o que diferenciava a máquina de um cérebro é que o cérebro era capaz de criar a diferença de opinião e de gosto, coisa que uma máquina – presa ao estigma da padronização – era incapaz de fazer.

O título do filme refere-se a um teste homônimo criado pelo matemáatico com o objetivo de discutir o papel na inteligência artificial. Esse teste faz parte do artigo científico Computing Machinery and Intelligence . O cientista abre a publicação dizendo: "Eu proponho considerar a questão: máquinas podem pensar? Para responder isso, deve-se partir da definição dos termos 'máquina' e 'pensar' ".

Quando adolescente, Alan Turing escrevia cartas de amor codificadas para seu primeiro amigo-amor, mas chegou a confessar a ele que a mais codificada de todas as linguagens era a do dia-a-dia, que leva as pessoas a dizer as coisas como se não houvesse código. Porém, no fundo, mesmo a linguagem mais "transparente" cria códigos. Isso porque os códigos mais complicados não são aqueles criados para dizer algo, mas sim para desdizer o que foi dito.

Turing não hesitava em dizer que alguém era medíocre. Sua falta de modéstia era de uma despretensão cativante. Com o passar do tempo, ele permitiu-se aprender a dizer obrigado e a não ter medo de ser um pouco agradável com as pessoas. E isso, no caso dele, foi um grande desafio, somado ao de tentar esconder, nas engrenagens de sua “máquina de decifrar tudo”, as feridas do bullying sofrido durante a adolescência. É provável que a esfinge choraria diante do destino desse brilhante homem, de um jeito excêntrico, mas cujo coração - mais do que a inteligência - ajudou a vencer a guerra.

Um código oferece uma rota de interpretação inesperada tanto para o autor quanto para o leitor. E essa rota pode ser alicerçada no impulso da paixão, do medo ou da surpresa. O código tem por função driblar proibições e elencar tipos diferentes de entendimento para diferentes destinatários da mensagem.

E tão importante quanto o código secreto são as chaves de interpretação. Dependendo da chave, o caminho traçado para que, por exemplo, um “Eu te amo” alcance seu destino, pode passar por várias filtragens até perder o peso ou ter seu peso drasticamente elevado. Códigos e chaves de interpretação interferem na trajetória e no peso da mensagem.

A existência dos códigos é que faz um simples toque ou olhar ter múltiplas conotações. E nos torna, diariamente, versões de um Alan Turing em busca de não sermos devorados pelo ciclo da decifração/recifração/decifração. Pode-se dizer que os códigos são como servidores da alfândega, aprovando ou vetando a entrada de provocações, venenos e amores em nossos corações e mentes.


19 01 21 04 01 04 05   
04 15
13 05 21
17 21 05 18 09 04 15
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20 ´01 18 09 02 01

Não deixe de conferir a postagem dedicada à história de Alan Turing aqui.


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