Teu rosto de dois mil e hoje consegue ser mais lindo que todos
os de dois mil e ontens juntos
Abri o Livro da tua Face no capítulo Março. Rever-te fez
minha saudade retroagir a um 2011 pertencente a um universo paralelo, no qual
meus olhos controlaram o ímpeto de te abraçar por baixo daquela roupa de Guerra
nas Estrelas
Só não deu pra controlar o impulso de te enviar um buquê de
estrelas que fingiam ser flores: num mês que fingia ser abril: num dia que
fingia ser mentira
Minha barba, toda sem jeito, ficou quase ruiva, encabulada de
tão feliz com teu novo perfil
Teu olhar direcional o horizonte o usa pra calcular as rotas
de voo e aterrisagem dos sonhos
Também são bonitos os raios de luar que começam a aparecer
no teu cabelo de eclipse total
Não nos conhecemos bem, mas os lábios da minha fantasia são
íntimos do teu pescoço e adjacências
Meus ouvidos tentam roubar na imagem o som da tua voz. O
problema é que quando ligo para teu número desconhecido, só dá ocupado e meus
carinhos não pegam na tua área de cobertura. Quem sabe eles não pegassem
debaixo das cobertas!
O inconsciente coletivo me perdoe, mas os milhares de rostos que ele abriga viram vultos diante de tua visagem.
O sol de Granada demorou a explodir na manhã pra ficar vendo
teu olhar decolar
Sem mim, você é lindo e comigo seria lindo-e-voltando ;)
Fico achando que minha lembrança já não te faz nem cócegas e
os ventos trazem a bordo teus selfies, amenizando o calor desse Recife
pós-carnaval. Jung e eu agradecemos.
A filosofia estava derramada sobre meu corpo e tua língua
começou a rastreá-la em diversas línguas. De repente, eu disse:
- Por favor, não me lamba em alemão porque prefiro o prazer
em pequenas doses.
E tua língua, fazendo às vezes de um algoz tradutor,
ramificava meu tato em diferentes idiomas.
Dentro do meu ouvido, ela era o
tradutor perfeito: como um rifle acariciando o corpo da caça. Mas não era uma
arma de fogo, só de calor humano: uma dose pequena de perversão diluída em
licor de tangerina.
O medo de morrer se
confundia com um prazer imenso e me deixei invadir por teu resumo estendido. E
o teu entra-e-sai ia se despindo dos contratos, dos divórcios, dos julgamentos
alheios, da carga tributária brasileira. Em uma das estocadas, desapareceu o
escândalo da Petrobrás e a asma cedeu lugar ao orgasmo.
- Que falo nessa hora disfarçada de minuto?
Sorte que havias aprendido dos estoicos a arte de adiar o
clímax. Foi então que chegou a vez da revanche e minha língua portuguesa-tupi
ao mergulhar no calcanhar de Aquiles escondido em teu umbigo, fez teu corpo
inteiro se tornar zona erógena por cinco minutos-hora. Foi então decretado o
toque de recolher e nos entrelaçamos. Toda vergonha ficou do lado de fora da
espaçonave. Éramos nota de segredo puro na mais refinada fragrância da intimidade.
Nossos corpos se renderam e aquele sistema solar, entre quatro paredes, conheceu
a avalanche mais silenciosa do universo.
Sem juras de amor
Ou cobranças
Nenhuma corveia
Apenas a cumplicidade total
Livre do peso do compromisso
Quando mordiscaste, na fina pele da parte anterior do meu
antebraço esquerdo, um aforisma escrito por Sócrates, não consegui mais
suportar. O gozo tornou-se indisfarçável. E o teu, quando pensavas que havia
chegado ao fim, avistei algo de intraduzível na parte anterior de tua anteperna
direita. Bastou um toque e um novo gozo, duas vezes mais forte, instalou-se por
sobre o moribundo gozo antigo.
Depois disso, ficamos abraçados, falando em silêncios
estranhos...
Três anos atrás. Numa quase quarta-feira ingrata. Foi quando
o Facelivro parou de enviar mensagens dele.
Hoje, uma quase quarta-feira de cinzas decidiu renascer como
Fênix. Aproveitou o intervalo entre um e outro dos meus bateres cardíacos e
enviou uma mensagem privada do homem das 11h59min e 12,5seg.. Aquele barulhinho
do Face, fantasiado de Noite dos Tambores Silenciosos, acelerou minha pulsação, mesmo onde não havia coração batendo.
- Parei de fumar e tô com saudade, dizia a mensagem dele.
- Que bom! Eu te amo, respondeu a minha mensagem.
E, em seguida, recebi dois inusitados emoticons:
Um em forma de rosa perfumada do Bloco das Flores, fundado em
Mil Novecentos e lá vai abraço.
Outro em forma de sol ranzinza barcelonense.
Logo depois, ele ligou pra mim fingindo se chamar
Confidencial e me convidou a telefonar pra ele primeiro.
Mas, antes um beijo nasceu na aurora dos mil cantos e mãos dadas tatuaram, na rua do futuro, o largo do amparo.
Cinquenta tons de Cinza parece ser de longe a melhor comédia
do ano, mesmo que 2015 tenha acabado de começar. Uma comédia sado-romântica
protagonizada pela talentosa Dakota Johnson e pelo canastrão, porém
carismático, Jamie Dornan.
Os afeitos à coleção de livros Sabrina se reconhecerão no
monótono espectro de Cinquenta Tons, onde a psicologia dos personagens é
reduzida à revelação de traumas resumidos intercalada a esboços de sadismo com
menos violência que “Um tapinha não doi” ou “Eu vou, Eu vou, sentar agora eu
vou!”.
Os diálogos do filme meio que lembram conflitos de
adolescência: “Por que você só quer me espancar de leve e fazer sexo oral? Por
que só isso? Não podemos ir ao cinema como pessoas normais?”
Quem espera por um profundo questionamento da normalidade –
algo que flerte com a literatura do Marquês de Sade - vai ficar chupando o dedo
sem direito a preservativo.
Porém, existe algo bastante inovador na película: a oferta
ficcional da possibilidade de uma história em que sadismo e romantismo se
combinam: seria o ideal, n’est pas? Poderia um casal descobrir o equilíbrio de
ouro entre a violência e a ternura que perpassam o amor? Descobrir isso
significaria o fim do tédio, da traição e do Capitalismo, pois as pessoas não
iam mais querer saber de trabalhar e, como previu o filósofo Herbert Marcuse,
toda a força vital de Eros deixaria de ser canalizada para o trabalho e
passaria a ser esbanjada em forma de ócio sexo-criativo.
Christian Grey (o Senhor Cinza, conforme a péssima tradução
que fez o personagem ingressar involuntariamente no rol de suspeito do jogo
Detetive e fez Dorian Grey e Oscar Wilde corarem de embaraço no Além) consegue o improvável: encontrar alguém que o ama com tanta
intensidade e confiança que é capaz aceitá-lo com sadismo e tudo e ele, também
apaixonado (embora negue isso até sob tortura), será capaz de abrandar seu
sadismo, temperando-o com gestos românticos, como o de levar sua “submissa” ao
cinema e apresentá-la aos pais como namorada.
Frustrações à parte, o filme prende porque nos oferece, em
termos de gênero, coitos interrompidos. Quando está prestes a se tornar
romance, vira suspense. Se tenta ser suspense, descamba para a comédia. Só não
pode ser um filme no sense porque a
obviedade precisaria ser torturadas ao extremo para tirar desse filme algo
verdadeiramente surpreendente.
Contudo, Cinquenta Tons de Cinza é um revolucionário tratado filosófico ao propor a utopia de que é possível oferecer a quem se ama, num mesmo gesto, a combinação de dor o suficiente para torturar sem machucar e de carinho o suficiente para enternecer sem ferir. A história leva ao extremo a ideia de que, por amor, somos capazes de tentar conviver com a diferença e capazes de nos esforçarmos para sairmos (ou entrarmos) de (em) nós mesmos a fim de compreender o ser amado.
A violência na medida exata da cura redentora: talvez certamente, seja essa a mentira com mais tons de verdade já contada por uma ficção.
Há quase três anos, escrevi uma postagem sobre Alan Turing,
cientista que desenvolveu uma máquina capaz de processar milhares de dados simultânea e
automaticamente: o primeiro computador moderno. Essa máquina, capaz de decifrar
a comunicação codificada nazista, teria conseguido antecipar o final da 2ª Grande
Guerra em dois anos.
Volto a falar sobre Turing, depois de ter assistido ao filme
O Jogo da Imitação (The Imitation Game). Mesmo quem conhecer a
história do cientista, ainda assim será pego pelo clima de suspense do filme
que nos deixa tensos sobre se Turing será bem-sucedido em sua criação de Christopher
(apelido dado ao computador) e se conseguirá escapar da “Justiça” inglesa que,
à época, condenava os homossexuais à prisão ou à castração química.
Turing trabalhou com todo seu amor e sua arrogância para
criar uma máquina capaz de imitar o cérebro humano, elevando exponencialmente sua
capacidade. Mas, ele sabia que tal imitação era limitada a aspectos
calculáveis, pois o que diferenciava a máquina de um cérebro é que o cérebro
era capaz de criar a diferença de opinião e de gosto, coisa que uma máquina –
presa ao estigma da padronização – era incapaz de fazer.
O título do filme refere-se a um teste homônimo criado pelo matemáatico com o objetivo de discutir o papel na inteligência artificial. Esse teste faz parte do artigo científico Computing Machinery and Intelligence . O cientista abre a publicação dizendo: "Eu proponho considerar a questão: máquinas podem
pensar? Para responder isso, deve-se partir da definição dos termos 'máquina' e
'pensar' ".
Quando adolescente, Alan Turing escrevia cartas de amor
codificadas para seu primeiro amigo-amor, mas chegou a confessar a ele que a
mais codificada de todas as linguagens era a do dia-a-dia, que leva as pessoas
a dizer as coisas como se não houvesse código. Porém, no fundo, mesmo a linguagem mais "transparente" cria códigos. Isso porque os códigos mais complicados não são aqueles criados para dizer algo, mas sim para desdizer o que foi dito.
Turing não hesitava em dizer que alguém era medíocre. Sua falta de modéstia era de uma despretensão cativante. Com o passar do tempo, ele permitiu-se aprender a
dizer obrigado e a não ter medo de ser um pouco agradável com as pessoas. E
isso, no caso dele, foi um grande desafio, somado ao de tentar esconder, nas
engrenagens de sua “máquina de decifrar tudo”, as feridas do bullying sofrido durante a adolescência. É provável que a esfinge choraria diante do destino desse brilhante homem,
de um jeito excêntrico, mas cujo coração - mais do que a inteligência - ajudou
a vencer a guerra.
Um código oferece uma rota de interpretação inesperada tanto para o
autor quanto para o leitor. E essa rota pode ser alicerçada no impulso da
paixão, do medo ou da surpresa. O código tem por função driblar proibições e elencar
tipos diferentes de entendimento para diferentes destinatários da mensagem.
E tão importante quanto o código secreto são as chaves de
interpretação. Dependendo da chave, o caminho traçado para que, por exemplo, um
“Eu te amo” alcance seu destino, pode passar por várias filtragens até perder o
peso ou ter seu peso drasticamente elevado. Códigos e chaves de interpretação
interferem na trajetória e no peso da mensagem.
A existência dos códigos é que faz um simples toque ou olhar
ter múltiplas conotações. E nos torna, diariamente, versões de um Alan Turing
em busca de não sermos devorados pelo ciclo da decifração/recifração/decifração.
Pode-se dizer que os códigos são como servidores da alfândega, aprovando
ou vetando a entrada de provocações, venenos e amores em nossos corações e
mentes.
19 01 21 04 01 04 05
04 15
13 05 21
17 21 05 18 09 04 15
07 21
19 20 01 22 15
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´01 18 09 02 01
Não deixe de conferir a postagem dedicada à história de Alan Turing aqui.