6 de julho de 2012

A ostra, a nuvem-pérola e o não-coração na poesia de Alzira Reis

Nuvem-pérola, também chamada de iridescente ou nacarada - Chile*. 


Poema do espelho inverso - Alzira Reis (Lagoa dos Gatos, 18?? -1920)


Enquanto houver coração e palavra,
Haverá surpresa,
Que, enquanto houver, haverá silêncio
Que haverá de contestar os atestados de demência, enquanto estivermos dipostos

A nos havermos com os haveres e as surpresas represados pela hipocrisia
Reprisados pelas penas sem valor, sem pudor e farsantemente hemorrágicas
Insidiosa insossura de sacrifícios de cruz oca

Em quantos haveres e surpresas, caberá o peso de mil mistérios?
Nem meu coração mais sul-americano que los Angeles de la madre Yankee
Teria em conta suportar tanta leveza em seu ser

Em havendo coração e palavra
Um quantum que seja de chave suspirará
Na nuca de la tour d’ivoire
Que se renderá
Como um novelo que forja seu alvará de soltura
Nas tramas de uma mão cujo endereço não é mais a velhice nem a juventude
Senão a tirânica liberdade do mar que abriga a ostra e sua pérola
Mas também o monstro e seus não-corações
E n'in qual manjedoura a errante nuvem-pérola achará hospedagem?

E toda renda haverá, então,
De ter o preço do desapego
E o gosto do sábado, por amor, violado
E o gesto do domingo acorrentado aos calcanhares de Mercúrio
Nem meu coração mais sul-americano que los Angeles
Teria em conta suportar tanta leveza em seu ser
Na nuca de la tour d’ivoire
Que se renderá

Em havendo coração e palavra
Quantos haveres e surpresas caberão o peso de mil mistérios?
Insidiosa insossura de sacrifícios de cruz oca
Reprisados pelas penas sem valor, sem pudor e farsantemente hemorrágicas
A nos haver com os haveres e as surpresas represados pela hipocrisia
Que haverá de contestar os atestados de demência, enquanto estivermos dipostos
Que, enquanto houver, haverá silêncio
E se haverá com a surpresa
Enquanto houver coração e palavra,
Que, enquanto houver, haverá silêncio
Insidiosa insossura de sacrifícios de cruz oca
tirânica liberdade do mar que abriga a ostra e sua pérola
Que se renderá
Teria em conta suportar tanta leveza em seu ser?
Na sua nuca de tour d’ivoire?
E o gosto do sábado, por Amor, violado?
Mas também o monstro e seus não-corações
o preço do desapego
De ter


* A imagem que abre esta postagem pode ser vista no blog Bocaberta, que traz outras imagens do fenômeno das nuvens iridescentes.

5 de julho de 2012

Depois de Pessoa : cinco perguntas idiotas que ajudaram a inventar a Teoria da Literatura


«Fernando Pessoa»
Pintura de Juan Soler




Tenho me dado conta de que uma das formas de teorizar sobre a Literatura é tentar dar respostas proveitosas a questionamentos dez, conexos, tipo as perguntas a seguir:

1. “O que Sophia Andresen tem a dizer de novo sobre o mar que já não tenha sido dito por um Pessoa? ”
Resposta - Realmente, não há mais poesia no mar, depois de Pessoa. Ele foi tão fundo, poeticamente falando, que fez o mar escorrer ralo abaixo.

Também não há mais sentimento, depois de Pessoa, pois, com ele, todas as lágrimas tornaram-se portuguesas naturalizadas com o único objetivo de salgar o mar. Ou seja, seria até possível dizer que Sophia Andresen foi uma poetisa razoável se ela houvesse escrito sobre as águas doces.

2. “O que ainda pretendes a estudar Fernando Pessoa quando todo o possível a respeito dele já foi estudado e dito? “

Resposta -  É verdade. A obra de Pessoa já não tem mais nada a dizer. O Bureau International de Poids et Mesures pretende, inclusive, realocar a obra de Pessoa da seção Literatura para as seções Oceanografia e Pré-história.

Aliás, o mundo não tem mais nada a dizer, pois Sócrates disse tudo, os pré-socráticos disseram tudo antes de Sócrates, Platão e Aristóteles disseram tudo depois de Sócrates (e olha que só 90% do tudo que Aristóteles disse ainda estão perdidos) e, para arrematar, Kant e Hegel disseram tudo: em Alemão! Isto é, tudaram o tudo de uma vez por todas.

3. “Como se pode compreender a poesia de amor de Pessoa, se não se tem a alma portuguesa e não se conhece o verde das águas de Portugal?”

Resposta – Simplesmente seria uma tarefa impossível. Daí, a tentativa inútil dos daltônicos de ler a poesia de Pessoa. Eles e os brasileiros ainda insistem em dar sentido ao mar da poesia, imaginando como tal mar seria, sem ter, sequer, feito uma transfusão de mar.

4. “Qual a diferença entre auto-ficção, auto-biografia e biografia?”

Resposta - As três vivem fingindo que não se conhecem, mas sempre há alguém disposto a ganhar dinheiro para escrevê-las, alguém disposto a pagar para figurar nelas ou alguém que as esconde ou pede para que sejam destruídas, para que elas possam ser achadas anos mais tarde – já com valor agregado - e ganhem a Palma de Ouro em Cannes.

Pessoa fingia até que era dor a dor que deveras sentia. Como tinha múltiplas personalidades, era biógrafo de sua própria auto-ficção. Como já foi dito, ninguém escreve biografias de graça. Com Pessoa, não foi diferente: ele foi mecenas de si mesmo. Isto quer dizer que, ironicamente, ele foi o único biógrafo da história a trabalhar feito relógio.

5. “Para que estudar Literatura se se poderia estar a estudar algo útil, tipo Química Industrial?”

Resposta – Para criar algum composto sintético capaz de preencher o vazio do mar que Pessoa secou?

4 de julho de 2012

A Lua Brega, a lua erudita, a indecisão de Fábio Jr. e a decisão da Vitória-Régia



Ilustração da lenda da vitória-régia - Fonte: blog A Mágica da Abelhuda


Hoje, viajando de Caruaru a Recife, a Lua se encheu de vez, a ponto e vírgula de perder o controle da direção e quase se chocar no meu carro.  Tentei consertar as coisas, subornando-a com alguma poesia, mas quando procurei num dos bolsos só achei milhões em mediocridade real. No outro bolso, inda bem que achei alguns tostões de breguice mal citada, o suficiente para falar sobre a Lua brega.

Fico devendo para outra lua cheia escrever sobre a lua erudita, pois praticamente toda minha erudição vem de empréstimos e doações e será preciso angariar fundos para falar eruditamente sobre a Lua. Aliás, uma forma de, quem sabe, definir a erudição é como um empréstimo cujos juros são a dívida eterna. A erudição é, citando a escritora Patrícia Tenório, uma lua que amanhece em nós o que em nós não há.

A Lua Brega é como um ímã que sai arrastando, no fio de algum clichê, fórmulas de amor, saudade, dor e talvez et ceteras.  No brega, cabe sempre a ilusão de que podemos tornar a palavra grande o suficiente para exprimir o inexprimível. Mas, como sabem aqueles a quem interessa saber, quando o fio do clichê é descascado, alguma surpresa galvanizada termina desmoralizando a mais brutal mesmice.

Há ainda as luas indecisas – que não se sabe bem ao certo se são Bregas ou eruditas – como a Lua de Fábio Jr, que faz o erro de Português soar poético: “Lua cheia, meia, displicente” ( ou, num Português mais bem dizido, meia displicente).

E também existe(e não existe) a lua Mítica, que não está nem aí para a erudição ou para a breguice, a exemplo da lua da lenda indígena da Vitória- Régia, falando sobre a jovem Naiá, que se apaixonou pelo guerreiro Jaci (Lua) e quis abraçá-lo, mergulhando em seu reflexo na profundeza invencível de um rio. 

Com saudade e, para mantê-la junto a si, o deus-guerreiro a transformou numa vitória-régia, planta que acolhe mórbida e poeticamente a Lua em seus "braços".

De qualquer maneira, seja brega ou erudita, a Lua é uma das maiores misericórdias, pois ignora o incidente em Babel e traduz o amor, a saudade, a dor, bem como os et ceteras, em todas as línguas, incluindo as extintas e as que ainda hão de nascer. Há, portanto, quatro tipos de tradução: cheia, crescente, minguante e nova. E cada uma delas colabora para que o idioma do amor seja, em diferentes fases, indecifrável.

A noite é mais acanhada quando falta uma dessas Luas.

Segue o link da Lua de Patrícia Tenório

Para um Nobre Alguém, segue uma versão de Lua brega, uma de Lua indecisa e uma de lua erudita:




Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...



Luz da Lua – Ana Bélen


Caí o luar sobre mim
Meu corpo vira um rio
E um arrepio de frio
Faz a noite suspirar
Deixo meu sonho vagar
Num dia imaginado
E nele alguém muito amado diz que veio me buscar
Com ele em minha vida outra história
Onde o tempo me envolve sem passar
Ele vê meus olhos e me fala
Com voz doce assim
Feito agua a correr
As palavras se alinham aos meus pés
Caí o luar sobre mim
Em ondas que se movem
Sobre o meu corpo e de noite
Elas falam de você
Invento em cada dia uma história
Foram tantas que nem posso recordar
Sei que em todas elas teve a lua
Iludindo nos dois, me fazendo chorar
Quando sinto meu sonho acabar
Meu sonho acabar...

Lua que vem - Joana


Lua que ilumina o meu amor conta pra ele
Que em mim a saudade não deixou eu longe dele
E toda vez que eu lembro ainda faz bater meu coração

Lua diz pra ele se lembrar do meu carinho
Que nada mudou nem mudará nossos caminhos
Que ainda eu acredito nesse amor escrito em minhas
mãos

Refrão - Vem, lua que vem
Lua crescente traz urgente quem amei
Traz pra ficar
Pode levar lua minguante de saudade
E me ilumina também
Lua que vem
Vem lua nova traz de volta o que é meu
Anoiteceu
Mas nosso amor traz lua cheia de saudade
Eu sei que ele não me esqueceu

Lua que ilumina o meu amor conta pra ele
Que em mim a saudade não deixou eu longe dele
E toda vez que eu lembro ainda faz bater meu coração

Lua diz pra ele se lembrar do meu carinho
Que nada mudou nem mudará nossos caminhos
Que ainda eu acredito nesse amor escrito em minhas
Mãos.



Lua Branca
Chiquinha Gonzaga


Ó, lua branca de fulgores e de encanto
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo
Vem tirar dos olhos meus o pranto
Ai, vem matar essa paixão que anda . comigo
Ai, por quem és, desce do céu, ó, lua branca
Essa amargura do meu peito, ó, vem, arranca
Dá-me o luar de tua compaixão
Ó, vem, por Deus, iluminar meu coração
E quantas vezes lá no céu me aparecias
A brilhar em noite calma e constelada
E em tua luz então me surpreendias
Ajoelhado junto aos pés da minha amada
E ela a chorar, a soluçar, cheia de pejo
Vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo
Ela partiu, me abandonou assim
Ó, lua branca, por quem és, tem dó de mim



1 de julho de 2012

Novo código penal e apartheid jurídico


Fonte da imagem: site Sul21



Em uma conversa sobre a reformulação do código penal, uma amiga me fez uma observação certeira. O Brasil sempre molda seu espaço jurídico de modo a ter uma brecha para efetuar uma divisão entre cidadãos de primeira e de segunda classe. E, com base nesta divisão, tenta conferir eficácia a suas leis.

O propósito, aqui, não é discutir a criminalização ou descriminalização, mas sim como as mudanças da legislação penal são propostas de modo a, sob a rubrica de “fazer justiça”, camuflar um apartheid jurídico entre os cidadãos.

Exemplo disso é a proposta de reformulação do status criminal do aborto, que propõe, com base na legislação norte-americana, que o aborto somente seja considerado crime depois do terceiro mês de gestação.  Segundo uma parcela dos estudiosos, esse seria o tempo necessário para que a mulher fosse capaz de amadurecer a decisão de ter ou não o filho, decisão esta baseada no princípio da liberdade de consciência, relacionado por sua vez ao princípio da dignidade da pessoa humana.

O problema é que ao se tomar a decisão sobre o aborto como espelho da livre consciência converte-se, ilusoriamente, o efeito (a decisão) em princípio jurídico. E, neste movimento, viola-se uma das cláusulas pétreas da Constituição: aquela que considera inviolável o direito à vida, que a todos caberia indistintamente.  Em sendo de aplicação indistinta, o direito à vida se estende à vida em formação. Portanto, excluir os três primeiros meses de vida do alvo do referido princípio constitucional significa reduzir o ser humano em formação ao estatuto de cidadão de segunda classe.

Diferente é a possibilidade de prática do aborto no caso de a gravidez oferecer risco à vida da gestante. Neste caso, está em jogo a opção pela sobrevivência de duas pessoas igualmente ameaçadas, o que torna o aborto uma manifestação de legítima defesa e não uma violação ao princípio constitucional do direito à vida.  Uma mudança na lei, acolhendo a possibilidade de aborto até os três meses de gestação representa uma disparidade com relação ao critério que norteia as exceções à prática do aborto.  Este critério seria o da falta de escolha por parte da gestante tanto no caso do risco de morte quanto no caso de ter sido vítima de estupro.

A lógica da falta de escolha também não é aplicável aos casos de anencefalia, visto que a decisão de ser mãe traz em si uma grande parcela de imponderabilidade, de indecibilidade. Abortar tendo em vista um diagnóstico do “destino” da criança não deixa de ser um tipo de seleção eugênica. Pensar no aborto como um gesto de poupar a mãe do sofrimento é algo irreal, pois a condição da maternidade e da paternidade inclui graves e imponderáveis sofrimentos como o de ter seu filho morto pela falta de infraestrutura hospitalar, sanitária e nutricional ou ainda por causa da violência urbana.

Portanto, as alterações propostas com relação à descriminalização do aborto representam mudanças drásticas no critério de aplicação da lei e não devem ser encaradas como decorrentes de uma lógica natural e irresistível, colocando-se os opositores a estas mudanças na posição de alienados aberrantes.

Sem pretender esgotar o assunto, podemos abordar também a proposta de criminalização da homofobia. Infelizmente o Brasil se vê diante da necessidade de criminalizar a homofobia o que, legalmente falando, deveria ser desnecessário, pois as agressões deveriam ser tratadas pelas rubricas já existentes como as relativas aos crimes contra a honra (a exemplo da difamação) e contra a integridade física (a exemplo da lesão corporal).

Estas mesmas rubricas deveriam valer para o caso da violência contra a mulher e o negro. Mas, como sabemos, a lei no Brasil está longe de ser vendada como prescreve o símbolo da deusa Têmis. De maneira redundante, a lei brasileira precisa ser endereçada às "minorias" para poder surtir efeito.

Na verdade, é como se as particularizações (lei Maria da Penha, anti-racismo e anti-homofobia) fossem como leis complementares que direcionam as rubricas já existentes. Agora, certamente, essa postura terá seu ônus, como as distorções geradas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Mas, o Direito é naturalmente sujeito a distorções e a reformulação do código penal, prevendo punições contra a homofobia, acaba sendo necessária para que a cultura não transforme brechas da lei em janelas de impunidade.

Uma questão recorrente tem sido: “Se eu chamar um homossexual de feio, por exemplo, estarei sujeito a ser condenado por homofobia?”.

Este receio, provavelmente não vai se concretizar devido ao princípio da eficiência.  Os juízes, muito provavelmente, não reconhecerão o mérito de julgamento para queixumes inúteis, estando os proponentes sujeitos a multa ao fazerem a Justiça perder tempo com denúncias desprovidas de mérito.

O que a criminalização da homofobia deve fazer é conferir aplicabilidade imediata à punição contra graves violências de ordem física e simbólica. Neste caso, a revisão do código penal contribui para que seja sanada uma distorção na aplicação das leis vigentes que, por força de preconceitos culturalmente arraigados, não têm amparado os homossexuais.

De qualquer forma, a criminalização da homofobia não deixa de revelar a triste tendência da legislação brasileira de dividir os cidadãos entre primeira e segunda classe. Considerados culturalmente como cidadãos de segunda classe, os homossexuais precisam contar com uma categoria à parte no código penal para poderem ser afetados pela legislação que já os deveria proteger.

Há pessoas que consideram que a criminalização da homofobia, contrariamente, criará um privilégio para os homossexuais, colocando-os na condição de cidadãos de primeira classe em relação aos demais.

Talvez, o que incomoda uma parcela dos opositores não é o fato de se sentirem cidadãos de segunda classe, mas sim a dificuldade de lidarem com o fato de estar sendo reduzido o espaço em que a prática do bullyng era considerada algo “normal”. 

E, certamente, os gays - ou o que socialmente se convenciona definir como gay - representaram uma arena em que os praticantes do bullying acreditavam ter liberdade total pra agir. Algo semelhante aconteceu com relação aos negros e, num passado mais distante (quando o bullying era praticado, mas nem sonhava em se tornar conceito), com relação aos leprosos. E ainda acontece com relação aos portadores de doenças como o HIV/Aids.

Em certa medida, o bullying é uma mistura de medo e ódio projetado contra algo que se acredita ser uma doença capaz de contagiar a “sã” e celebrada “normalidade”. Uma sociedade que cultivou desde sempre o mau-costume de pautar sua “normalidade” na estigmatização de pessoas “eleitas” para ocupar o cargo de anormais sente-se aflita ao ter de reformular este modelo de “normalidade”.

Contudo, o desafio atual é o de não confundir o enfrentamento do bullying  – que é um tipo de estigmatização com endereço definido e características de uma tortura contínua e persistente – com atitudes de censura à liberdade de expressão decorrentes do vício no politicamente correto.

Tanto o bullying quanto o politicamente correto rebaixam o cidadão ao status de cidadão de segunda classe.

Leia aqui o texto que deu origem a esta reflexão.

Nota sobre Ártêmis, isto é, sobre a nota de rodapé, ou seja, sobre o amor transatlântico


Fonte da imagem: Blog Estradas de Sol












[1] Esta postagem é irmã gêmea desta postagem aqui.

[2] De alguma forma a nota de rodapé tem sido tratada como uma versão do inconsciente freudiano, uma versão da ideia de que contra a luz patente da consciência se levanta o sol poente da penumbra, o arquivo de sombras, o abrigo, sanatório ou Arcádia dos conteúdos latentes e reprimidos. Sim, talvez a nota de rodapé seja o refúgio dos textos reprimidos. Alguns autores por mais apaixonados que fossem pelas loiras madeixas da luz do dia, da consciência, não conseguiram esconder o encanto que sentiam pelos cabelos negros de Ártêmis que, com seu mistério lunar, ilumina a desprezada nota de rodapé. Como é sabido, as fases da Lua são diferentes penteados de Ártêmis. Inclusive, a Lua Cheia é Ártêmis quando faz com seus cabelos um rabo-de-cavalo, deixando exposta sua face que rouba emprestada a luz do Sol para dela construir a luz ao mesmo tempo nova e anciã do enigma. E, certamente talvez, o desprezo que recebe a Lua - a nota de rodapé - é capaz de dotar seu rosto de beleza irresistível (Sim, talvez a maior parte dos textos ocidentais tenha algo de bissexual, pois se dividem entre os cachos solares de Apolo que escorrem pelo texto principal e os cabelos morenos de Ártêmis que deságuam pelas notas de rodapé). Mas, isto é só uma hipótese quase absurda.

Até hoje não compreendo porque as notas de rodapé não se permitem ser divididas em parágrafos. Talvez seja porque, encaradas como depósitos de retraços, sejam imageticamente pensadas para ser um amontoado de informações. Mas, as notas de rodapé, como apêndices que são, reagem a essa situação em que são colocadas: um misto de desprezo e atração selvagem. E, não raro, as notas de rodapé inflamam-se e tornam-se clamor, eclipsando o texto principal. E quando uma nota de rodapé supura? Quando o paratexto ameaça se tornar texto principal? Um mundo sem direito a nota de rodapé, sem direito ao contraditório. Um mundo sem direito a textos de segunda classe, sem direito à luz da Lua e ao enigma: é aí nesse tipo de mundo que florescem as ditaduras, os totalitarismos. A burca é um sinal do que pretende ser um mundo onde o texto principal impera sem rival. A burca parece uma tentativa simbólica de velar por completo a luz enigmática de Ártêmis, aprisionando-a eternamente na Lua Nova e boicotando a luz periférica do contraditório, do mistério, da ambiguidade. Mas, isto talvez seja só uma hipótese quase absurda.
 
De certo, a nota de rodapé, assim como a deusa Diana, é uma exímia caçadora que se embrenha com suas flechas de luz enigmática no lagar mais negro das florestas do ser. Mas, é fazendo uso de uma das armadilhas de Diana/Ártêmis que Dionísio destila todo o seu vinho. E o sol brilhante do texto principal teria, certamente talvez, um brilho cego e inútil se não se permitisse beber do vinho dionisíaco e se não se permitisse dormir amparado pelo quebra-luz instalado na face de sua irmã gêmea Ártêmis/Diana. Mas, isto seria só uma hipótese, absurda quase.

 A nota de rodapé me permite, numa virada junguiana, ver que existem dois mundos e que a realidade não é restrita a uma só dimensão amesquinhada e pirangueira. Quando levada a sério, a nota de rodapé devolve ao imaginário, ao sonho, o direito de restabelecer o diálogo entre Apolo e Ártêmis, irmãos gêmeos que o movimento iluminista, viajando aos tempos míticos, tentou separar quando do nascimento deles. O momento atual, que se chama de pós-modernidade, não é mais do que a chance dada a Leto (mãe dos gêmeos) de ver novamente unidos os irmãos. Mas, como é sabido, os gêmeos para se unirem precisam encontrar um modo de fazer conviver suas diferenças e suas semelhanças e suas semelhanças disfarçadas de diferenças e suas diferenças disfarçadas de semelhanças.

A nota de rodapé tem uma fragrância de amor secreto, de sorriso secreto destilado no rosto sério do texto principal. É uma sonata de desculpa para atravessar o Atlântico e espiar o que a fé já tinha como certo: que a viagem de descoberta do Velho Mundo foi tranquila e que o Nobre sorriu no desembarque.


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