8 de junho de 2011

Quando a comédia se converte em censura

Máscara do teatro grego - aproximadamente 350 a.C


Uma definição de perversão que me agrada foi dada num dos programas da série Café Filosófico, da TV Cultura. O perverso seria uma pessoa que atravessa o rio que conduz ao Hades (o país dos mortos), mas, para isso, em vez de pagar ao barqueiro, toma dele o remo, o mata e se apossa do barco, desprezando-o depois de atingir o destino pretendido.

Diante de tantas críticas à censura, como as que vem ocorrendo, é necessário se manter alerta para os truques perversos da censura. Não raro ela mata o barqueiro chamado Espírito Crítico e toma conta de seu barco, pervertendo em seu percurso o ideal da liberdade de expressão.

Alguns programas de comédia têm recaído na perversão. Em nome da liberdade de expressão, deturpam-na.

Sabe-se que é da natureza da comédia sua raiz comum com o preconceito e com a miséria humana. Se na tragédia, a condição humana miserável cultiva a comiseração, na comédia, cultiva o riso. Seria então hipocrisia a censura à comédia por ela trazer à luz preconceitos e misérias do ser humano.

O que é danosa é a tendência, que se percebe em parte do atual cenário da comédia brasileira (especifico o Brasil não para exaltar a comédia internacional, mas para me ater ao universo que melhor conheço), de ocultar sob o véu do riso atitudes de censura.

O gesto de comédia traz um caso particular não para colocá-lo no palco das exceções, conferindo a ele o peso da marca da anormalidade. Este tipo de postura não é a de um comediante e sim de um fariseu, que só consegue se enxergar belo no espelho se, ao fundo, a miséria é mais nítida que sua própria imagem.

O gesto da comédia aponta a miséria do outro para ironizar a miséria deste próprio gesto. A comédia é uma perversão sadia. Rouba o barco do fariseu para atingir as margens da emancipação humana.

A comédia trabalha o estigma não para que se ria dele. O alvo do riso, na verdade, é o dedo que aponta o estigma alheio. Por isso uma das estratégias mais comuns do comediante é fazer uma piada sobre si mesmo ou fazer uma piada sobre a desventura de outra pessoa, revelando, ao fim, que ele mesmo é parte de tal desventura.

Quando o comediante aborda um determinado estigma social, pura e simplesmente para lançar sobre este estigma a lente de aumento da anormalidade, não está fazendo graça, mas sim crueldade. E, pior do que isso, está alimentando a chama da censura, a principal adversária histórica da comédia.

Comediantes que, para provocar riso, afagam, no ego alheio, a falsa e hipócrita sensação de “Eu sou normal e os outros não”, estão desenvolvendo uma censura disfarçada de comédia. Na verdade, estão plantando no riso decretos ditatoriais do tipo: Não seja assim ou é proibido ser assim ou, ainda, é anormal ser assim!

A noção de censura tem sido restringida ao campo da comunicação. Mas, numa análise mais profunda, a liberdade de expressão, ameaçada pela censura, diz respeito não somente aos comunicadores. Como direito fundamental está relacionada aos demais direitos fundamentais, dentre os quais o direito à livre circulação e a se ter preservada a imagem.

Neste sentido, fazer escárnio de determinado grupo social, por uma característica física ou cultural, não deixa de ser uma forma de cercear a liberdade. Assim acontece com as piadas que têm como "fundo musical" o impulso de determinar qual tipo de pessoa é digno de fazer ou deixar de fazer algo.

O riso causado pelo grotesco faz parte da comédia. O que não faz parte é a substituição da categoria do grotesco pela da limitação. Para entender a diferença, basta pensarmos que qualquer tipo humano pode abrigar o grotesco.

A palavra grotesco surge no século XIV quando escavações descobrem em Roma aposentos subterrâneos de um palácio da época de Nero. Nestas grutas, foram achadas imagens metade gente e metade animal ou metade alguma figura mítica.

Por esta razão, grotesco refere-se à dimensão distorcida implícita às ações humanas. O que é risível no grotesco é que ele revela que o ser humano é em parte humano e em parte alguma coisa de indefinível.

Grotesca não é a feiúra, mas sim os contorcionismos que ela faz para se encaixar no mito da beleza. Do mesmo modo, o que se entende por beleza pode ser grotesco ao serem revelados os contorcionismos que são feitos para que determinado mito de beleza se institucionalize como verdade.

São estas distorções que a comédia mira enquanto objeto e não a característica física em si. Rir da limitação dos outros não pertence ao terreno da comédia, mas da ausência de auto-reflexividade. Pois, quem fica mais do que cinco minutos diante do espelho, não sai sem descobrir uma nova limitação.

Alguns comediantes têm confundido a presteza de pensamento com a ativação banal de preconceitos. O ciclo cômico é abortado na metade - ou antes, até (isso não deixa de causar riso, mas, neste caso, não de comédia, mas sim, de escárnio).O ciclo cômico completo tem como combustível o preconceito, não para nutri-lo, mas para fazer com que ele se consuma.

Lembro-me de uma entrevista de Bruno Mazzeo no Programa do Jô, na qual eles relembraram como Bruno havia se tornado fã do Capitão Gay, um dos personagens de Jô Soares.

Neste exemplo, percebe-se a diferença da comédia para a estigmatização. O Capitão Gay aborda um grupo social estigmatizado, mas rompe com o estigma. E o rompimento não se dá banalmente, por meio de uma defesa explícita, mas sim por meio da construção de um questionamento implícito: Por que não pode haver no gay o caráter super-heróico?

É este tipo de questionamento que tem faltado a parte do universo cômico do Brasil. A comédia atual tem trabalhado não com a interrogação e a dúvida, mas sim com a exclamação, dando a preconceitos o estatuto de certezas amplificadas.

Não seja este texto encarado como partidário do politicamente correto, outra forma de mascarar as contradições. Mas, seja encarado como uma reflexão sobre o refinamento e a maestria com que a comédia historicamente tem conseguido se situar entre as certezas e as manias de grandeza do épico e do trágico; dos preconceitos e dos pós-conceitos; dos discursos que se autodenominam verdade e denominam aos que a eles se opõem de mentira.

Na mitologia grega, o Hades não é só a terra dos mortos, mas o lugar do anonimato, das vozes que não conseguem mais ser ouvidas. Quando a comédia deixa de dar a seu alvo de análise o benefício da dúvida e troca o refinamento do riso consequente da reflexão pelo escárnio que anula a reflexão, ela se perverte e contribui para aproximar as pessoas do Hades, do anonimato.

Creio que é qualidade da comédia suspender juízos e certezas e fazer desta suspensão uma tribuna em que os marginalizados possam ter voz. Este seja, talvez, um dos maiores refinamentos da comédia: conseguir expressar-se politicamente, sem tomar partido. Nisto ela se faz nobre: perguntando-se sempre: O que é ser nobre? Ou, mais radicalmente, O que há de mal em não ser nobre?

A comédia é bela justamente por conseguir manter acesa a chama destas perguntas, remando na direção contrária dos discursos hegemônicos que focam as respostas e se pautam pelas certezas.

Agradeço a João M., do blog Eu só queria estudar, cujo texto "Merdas não se anulam, apenas se acumulam", impulsionou-me a fazer esta postagem.

No vídeo, a seguir, um exemplo do que considero uma expressão refinada da comédia:


19 de maio de 2011

Sobre a realidade, a desrealidade e Fredric Jameson

Por Alan Gut

 A desrealização, vertigem causada pela sensação de estarmos vivendo num mundo sem realidade é apontada por Jameson (1996) como um dos fatores da atmosfera pós-moderna. Mas como destaca este autor, o mundo já era vivenciado de forma desrealizada antes dos apelos pós-modernistas, visto que o conceito de desrealidade é desenhado por Heidegger. E tal sensação, destaca Jameson, não deixa de ser herdeira de outra mais antiga. Refiro-me à noção kantiana de sublime ou da mistura de encantamento e terror diante daquilo que a razão humana não é capaz de compreender. 

Fredric Jameson

Se formos mais a fundo, como o próprio Jameson faz, a impossibilidade de um mundo real é formulada por Platão, visto que para ele o real literalmente repousa na imperecibilidade e imutabilidade da Ideia, neologismo cunhado para dar forma a um paradoxo: o da referência a um espaço-tempo que não pode ser alcançado pelas garras do espaço e do tempo.

Reforçam esta atmosfera de desrealização, as teorias lingüísticas de cuja cepa é o pensamento de Saussure (2011), postulando que existe um abismo entre palavras e coisas: o da arbitrariedade. Entenda-se arbitrariedade não como sendo relacionada ao que Benjamin (1986) chama de ad libitum (ao bel prazer), mas como a noção de que coisas e palavras deixam de ter uma conexão necessária e absoluta, tendo, em verdade, uma conexão pautada pela busca da conexão, isto é: o código.

Ironicamente, Saussure sendo filho do século XIX, no qual houve primazia do positivismo com seu império dos sentidos domesticados em detrimento do desgoverno do imaginário, defende que a linguagem não é devedora de uma realidade que a antecede e agrilhoa. A realidade deixa, então, de ser vista como monólogo, no qual a linguagem serve apenas de figurino. Realidade passa a ser, direta ou indiretamente, concebida como diálogo tenso e inconcluso entre palavra e coisa, entre significante e significado, entre sintagma e paradigma.

Saussure reacende a potência que o positivismo havia adormecido no real. Se, para a escola positivista, real é aquilo diante do qual o imaginário sucumbe e os sentidos se rendem, na vertente saussureana, o real é a potência gerada pelo descompasso entre coisas e ideias. Nesta vertente, inscrevem-se pensadores como Roland Barthes (2004) para quem o real passa a ser visto como um efeito discursivo dentre outros efeitos possíveis. Mas, o mesmo Barthes, ao refletir sobre o caráter do real, atribui-lhe como elemento caracterizador a violência. Seria real o choque, a violência que emudece, a espada de dor que silencia a palavra.

Este real, visto como lócus da impotência - ou, usando uma imagem de Zizek (2003), como deserto ou o lugar da total nudez, não mais a nudez da inocência do Éden, mas a nudez do desamparo – acaba por se aproximar da vertigem da desrealização.

Pode-se derivar também uma reflexão sobre o estatuto da realidade subjacente à discussão de Lukácks sobre a passagem das culturas fechadas da antiguidade e da Idade Média para as culturas abertas correspondentes ao impulso racionalista e seus desdobramentos ao longo da modernidade. 

Para Lukácks (2000, p. 45), nas culturas fechadas não havia lugar para uma oposição entre real e imaginário, visto que nelas “o transcendente está indissoluvelmente mesclado à existência terrena”. Neste tipo de cultura, imanência e transcendência conspiram unidos para que o mundo seja a medida do homem.

Nas culturas abertas, o mundo deixa de caber na alma humana ou, por outro lado, a alma deixa de caber no mundo. Isto torna possível a entrada em jogo da noção de realidade como a tentativa constantemente alimentada e inevitavelmente malograda de tornar o mundo a medida humana. Com base na tipologia que Lukácks constrói para dar conta de como a relação de medida entre a alma e o mundo ganha forma histórica no romance, pode-se depreender uma tipologia para compreender a noção de real, conforme o ponto de vista moderno.  Neste texto, contudo, não vamos refletir sobre os fatores que medeiam a relação de medida entre alma e mundo.

Primeiramente, pode-se entender o real como o efeito causado pela alma cuja medida é menor que o mundo: ‘O demonismo do estreitamento da alma é o demonismo do idealismo abstrato. É a mentalidade que tem de tomar o caminho reto e direto para a realização do ideal”(Lukácks, 2003 p. 100).

Não nos enganemos. Quando o mundo é maior que a alma, a realidade se mostra como algo a-problemático. A problemática da existência, nesse caso, refugia-se no que os herdeiros do século das luzes chamam de mundo da imaginação. Quando o mundo é maior que a alma, os limites entre loucura e razão são claros e precisos: o que não torna claras e precisas nem a razão nem a loucura. 

A outra forma de conceber a relação de desmedida entre alma e mundo é pensando a alma como sendo maior que o mundo.  Neste caso, a realidade é encarada como próxima da mesquinharia. O realista, neste caminho, é um desiludido, pois acredita trazer em si toda a matéria-prima necessária para que o mundo seja sua medida. Mas, infeliz ou felizmente, o mundo não coopera com ele.

Em sendo assim, a realidade da alma megalomaníaca é tão real que não consegue se refletir na realidade amesquinhada do mundo. O que se cheira, se vê, se toca, oscila entre o caráter palpável da ousadia ambiciosa do vir-a-ser e o caráter igualmente palpável da frustração antecipada do ser. Quando a alma é maior que o mundo, tudo é palpável, seja por falta seja por excesso, seja por mesquinharia seja por megalomania.

A terceira via derivada da teoria de Lukácks é a via da reconciliação. A fim de tornar-se medida do mundo, a alma resignifica a mesquinharia da realidade do mundo, ao mesmo tempo que empresta humildade a sua própria megalomania. Visto de outra forma, de forma mais próxima à primeira opção posta por Lukáks, a alma amplia sua participação problematizadora e o mundo, assim, torna-se menor, roubando da realidade uma parcela da normalidade e da calmaria características da relação em que o mundo é maior que a alma:

“De um lado, portanto, essa interioridade é um idealismo mais amplo e que se tornou com isso mais brando, mais flexível e mais concreto e, de outro, uma expansão da alma que quer gozar a vida, agindo, intervindo na realidade, e não, contemplativamente ” (Lukácks, 2003 p. 139).

Este “caminho do meio” em que se procura lapidar a alma e o mundo, podando os excessos do idealismo abstrato e do positivismo parece encontrar forma na estratégia da metaficção, entendida como fazer artístico em que a ficção pensa sobre  si mesma e “se descobre menos diversão do que um escudo contra as ameaças externas e internas, obrigando-nos a narrar uma luta interminável: o drama que nos constitui” (Bernardo, 2010, p. 20).

Continua... 

Obras consultadas
BERNARDO, Gustavo. O Livro da metaficção. Rio de Janeiro: Tinta Negra Bazar Editorial, 2010
JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo ou a lógica cultural do
capitalismo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 1996.
LUKÁCKS, Georg. A teoria do romance. São Paulo: Duas Cidades, 2000.
SAUSSURE, Ferdinand de; Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix,2011.

17 de abril de 2011

Impressões e digitais de Deus no comentário de Arnaldo Jabor



A análise feita, no último dia 8, pelo comentarista do Jornal da Globo, Arnaldo Jabor, a respeito da chacina em Realengo, no Rio de Janeiro, termina com uma frase que gerou polêmica, principalmente entre grupos religiosos: “Deus está ausente!”.

Jabor foi duramente criticado, mas o que me parece é que o comentário dele, ao falar de Deus, não tinha como propósito promover um debate religioso, mas sim abrir caminho para uma verdade com que não estamos preparados para lidar: a de que, historicamente, mostramo-nos incapazes de diferenciar a pergunta "Quem é Deus?" da pergunta "O que Deus representa?". E esta dificuldade atormenta outras interrogações, que não deixam de ser derivadas do questionamento sobre a identidade de Deus, a saber: "Quem é o outro?/O que o outro representa?", e "Quem sou eu?/O que eu represento?"

O choque causado pela afirmativa de Jabor acontece porque temos dificuldade de compreender o comentário dele como uma reflexão sobre as representações acerca de Deus. Arnaldo Jabor se refere ao retorno de um Deus vingativo, semelhante ao que inspirava a matança de feiticeiras na Idade Média, ao que inspira o apedrejamento de mulheres no Irã  ou a proliferação de homens-bomba: enfim, uma imagem de um Deus de vingança e terror. Essa imagem de Deus está longe da imagem do Deus de paz, que, nas palavras de Jabor, sacia o desejo por eternidade inscrito no inconsciente e, diria eu, também no consciente coletivo da humanidade.

Não se pretende discutir aqui a existência de Deus, mas não se pode deixar de dizer que é complicado definir quem é Ele. Sabe-se que, biblicamente, ele nem sequer possui nome e se auto-define como “Eu sou aquele que sou”. Mesmo o nome Javé não seria de fato nome, mas um atributo, significando “o ser por excelência”. Já, conforme interpretação de Northrop Frye, Javé, forma aportuguesada do tetragrama YHVH, seria uma referência não diretamente a Deus, mas uma sigla formada a partir do nome das principais tribos do povo hebreu.

O ponto a que se pretende chegar é o de que existe o perigo de confundirmos nossos preconceitos, traumas e perversões com a impressão digital de Deus e de querermos que nossas doutrinas funcionem como carteira de identidade divina. É o perigo de tomarmos o ser e a representação do ser como sendo a mesma coisa.

Deus mesmo percebe isto, segundo o relato bíblico. Na época de Abraão, o povo hebreu ainda oferecia sacrifícios humanos. Deus pede ao patriarca que sacrifique seu filho primogênito, fruto de gravidez milagrosa de Sara (até então estéril e de já avançada idade). Mas, no instante em que ia consumar o sacrifício, o pai de Isaac é impedido por um anjo.

Comumente, interpreta-se este episódio como uma espécie de jogo de Deus para testar a fidelidade de Abraão. Mas outra interpretação possível é a de que Deus quis pôr fim à imagem distorcida que os hebreus faziam dele. Deus não queria ser visto como alguém que esperava sacrifícios, mas sim como alguém que deseja como oferta o coração íntegro e sincero.

É dentro desta premissa que entendemos a predileção divina pela oferta de Abel em detrimento da de Caim, visto, que, por si só, as oferendas de ambos os irmãos tinham igual valor. A oferta de Caim chega a ser descrita como os melhores frutos que a terra tinha pra oferecer.

Mas, à luz dos olhos de Deus, a aparência não pode ser confundida com a essência. E, longe de dizer o que a essência é, a mensagem bíblica o tempo inteiro é uma advertência de que é preciso tomar cuidado com a tentação de confundir as representações com o ser.

Para os cristãos, Jesus é Deus feito homem para habitar entre nós e nos salvar. Mas, não se pode perder de vista que uma das razões para Deus se fazer homem, na perspectiva bíblica, é a de revogar a união inquestionável que até então se fazia entre a representação hebraica de Deus e o ser de Deus. Foi isso que tornou possível se esvaecer a imagem de um Deus distante e vingativo e ganhar força a imagem de um Deus de amor e que está não só perto, mas dentro de nós.

Na Santíssima Trindade, a tentação de sobrepor uma determinada representação de Deus e sua essência perde, de vez, a razão de ser. A entrada do Espírito Santo no flerte enigmático entre ser e representação desconcerta qualquer certeza, visto que o Espírito é descrito como o vento que sopra onde quer e do qual só se ouve o ruído sem saber de onde o vento vem nem para onde vai.

A bíblia trabalha a tensão entre a imagem e o ser de Deus, fazendo desta estratégia literária um sinal de alerta sobre o perigo de confundirmos a aliança com Deus com uma aliança com instintos perversos como a vingança e o terror. O próprio Cristo dirá, quando é indagado sobre porque o Deus do Antigo Testamento agia tão implacavelmente, que Ele agia assim devido à dureza do coração humano.

A nova aliança, também adjetivada de eterna, pauta-se, em sentido contrário, no esforço para se ter um coração capaz de vencer pré-juízos. Largam-se as pedras no chão e acolhem-se as prostitutas, os cobradores de impostos, os doentes e os demais excluídos: todos os que até então eram vítimas da imagem de um Deus carrasco que transmitia sua vingança através das gerações.

O comentário de Jabor é um alerta para a centelha fascista que se esconde na tendência de confundir o ser de Deus com a representação que dele fazemos. Centelha que tem incendiado opiniões de grupos fanáticos cujo passatempo é, por exemplo, explicar desastres naturais, como o ocorrido no Japão, como sendo uma válvula de escape para o exercício de vingança narcísica de Deus contra os que não professam a fé judaico-cristã.

Igualar o ser de Deus com as representações que dele se fazem, num período em que a imagem oscila entre o monoteísmo neo-fascista e o politeísmo fútil-fadigado, realmente conduz a uma ideia de que a felicidade faliu e que Deus nos abandonou.

Mas o apelo da nova aliança continua válido e ardente como brasa de esperança a inquietar a sede pela água viva da mudança por sobre as cinzas do tédio e dos instintos ruins que tentam afogar o dia-a-dia de nossas almas.

22 de março de 2011

A ética do fingimento no olhar dos mortos



A ética do fingimento é a única amarra que prende os fazedores de literatura. Aprendi isso hoje com meu professor de Teoria Literária, Anco Márcio Tenório. Mas no hoje de Anco manquejam elegantemente alguns ontens.

É que o presente desfila onipotente, com cabelos tingidos por Garnier Nutrisse. Mas é deselegante com sua precisão de carimbo da realeza e sua tagarelice que emudece os passados e enaltece o futuro, desde que ele não queira abrir mão do cordão umbilical.

Um dos ontens manquejantes, porém elegantes, é o ontem perspicaz de Fernando Pessoa, da dor que se redime fingindo ser ela mesma. E, ao fingir, o fazedor literário amplia tanto os horizontes da dor, que ela acaba conhecendo-se como sendo algo diferente. Redenção? Sim, mas não como a do final feliz que se esconde por trás do "The End" para rir de nossas desventuras. Redenção no sentido de não ter de se render à verdade.

Nada contra a verdade, o caminho e a vida. Mas, o fingir literário nos dá a frágil força de prender a respiração da realidade, destituindo o poder totalizante do real do trono de sua estreiteza.

Fernando Pessoa não é ontem seu idiota! Ele é hoje, é mais vivo do que nunca. Ele é imortal!

Mas tudo que Fernando Pessoa quis e quer é-foi ou foi-é estar morto. E Fernando Pessoa continua querendo. Visto que o querer não é privilégio de seres vivos e reais, mas de quem é capaz de ouvir as desditas humanas, enquanto cavalga, quixotescamente, no fingimento.

Fernando Pessoa deseja a morte, como a morte é para Ferreira Gullar: a chance de ver por através do olhar dos vivos, de ouvir por através de seus ouvidos e sorrir por através de seu riso. Por através como quem morre só para ter a oportunidade de deixar para trás os sepulcros vazios. A morte só é definitiva se não é vista de través.

A ética do fingimento é o vazio niilista ou o tédio prolixo do relativismo. Não concordo! A ética do fingimento - do fazer literário -  é ter um só tipo de compromisso: com o comprometimento. E não com a definição.

O fingir é sério e comprometido como o Arcanjo Uriel, que sorri e vê tudo com bom humor. Mas o bom humor dele é a tenda na qual se abriga para se proteger, visto ser guardião do lugar mais tortuoso: a fronteira entre o céu e o inferno: o lugar mais arriscado: o mausoléu da arvóre do conhecimento do bem e do mal.

O fingir é inautêntico. Desfila no território do sonho. Não busca lastro em cartórios de registro civil.

Fingimento é um edifício cujos pilares são olhares, ouvidos de muitas árvores e muitas gerações. A arquitetura do sonho não cabe na banalidade: no renome.

Os verdadeiros artífices das pirâmides - os escravos - não se contentariam em ter seus espíritos premiados com  um alter-mundus restrito à opulência dos sárcofagos. Os arquitetos do sonho - os anônimos - não querem seus espíritos premiados com o sarcófago da glória. Talvez por isso a fama só alcance boa parte dos artistas depois da morte: o rastro que fica da carreira de quem foge da glória: a ênfase mais perversa da realidade definitiva.

Os poetas são anônimos como Ferreira Gullar, como Fernando Pessoa, como Naayara_b (http://www.flickr.com/photos/forgotten_memories/5519045302/), que deixa seu nome, seu renome se perderem para ser atravessados, misturados, ampliados pelo olhar dos mortos.  Os fingidores honram os codinomes que vestem.

Morrem enquanto definição e ressuscitaram enquanto compromisso. Os profetas continuam vivos, mesmo depois da morte, pois vivem por meio da aliança.

Deus tapa os buracos (as oiças) dos mortos, pois não ouvindo, eles não interferem e não interferindo não podem cruzar o abismo que separa o mundo dos vivos e o dos mortos. Mas, por opção, Deus toma posse do medo de fechar os poros da poesia.

Foto: Nayara Beatriz - Naayara_b


Alice (Avril Lavigne)

Is this real?
Is this pretend?
I'll take a stand
Until the end.
Eu estou no país das maravilhas
De pé novamente
Isso é real? É fingimento?
Vou me defender até o fim.




Os mortos


os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
       certas sinfonias
                 algum bater de portas,
       ventanias

           Ausentes
           de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
           se de fato
           quando vivos
           acharam a mesma graça
                
De Muitas Vozes (1999)


Conheça mais sobre Ferreira Gullar e sua obra, visitando: Revista Agulha

16 de março de 2011

O que aprendi com Bruna Surfistinha e filósofos

Lançado pela Editorial Presença.
Destila Cioran, com o elegante e doce veneno-remédio da ironia: “Se acreditamos com tanta ingenuidade nas idéias é porque esquecemos que elas foram concebidas por mamíferos”.

As prostitutas não são citadas. Também como isso poderia acontecer se, classicamente, elas não têm nome. Hoje podem ser Maria, amanhã Madalena e depois, quem sabe?, Maria Madalena.

As prostitutas têm nome de batalha, mas permanecem anônimas.

O prazer que as prostitutas proporcionam é pelvicamente abraçado pelo anonimato. Por isso, quando uma prostituta ou ex-prostituta se lança como escritora vira, na melhor das hipóteses, alvo de bom-humor e, na pior, de chacota.

O que é atribuído como pecado à prostituta não é o fato de ela escrever, mas de pensar. Não é o fato de publicar um livro, mas de tornar-se uma figura pública, mesmo que escoltada pelo rótulo de pseudo-celebridade.

Existe um pensamento por si só bom, belo e justo? Existe uma vagina ou um pênis, por si só, bom, belo e justo? O que faz um pensamento é um abraço pélvico entre pensamentos, assim como o que faz o sexo é o abraço pélvico entre o pênis e a vagina, ou entre os pênis, ou entre as vaginas. Assim como o que faz o amor é o abraço entre os seres: em corpo, alma e divindade. Não importa: o que faz o bom, o belo e o justo é o abraço. Meu pensamento só, o de Paulo Coelho só, o de Cioran só, o de Diderot só, o dos idealistas só: são todos iguais, igualmente ___________ (complete com o que quiser!)

Quem é mais digno de pensar: Cioran ou Raphael, Miguel ou Clécio, Paulo ou Machado? Bruna ou você ou Eu? Responda esta pergunta colocando-se no lugar do coelho de Alice no País das Maravilhas. Responda como quem é pressionado pelo tempo, pela história e não como quem vive de reflexão: da prisão em sua auto-imagem veiculada por espelhos.

As prostitutas - tantos dirão, pensarão e quererão - não podem converter-se, nem se o próprio Cristo endossar o cheque a ser descontado no banco do desejo de mudar. É como se a vida delas fosse um cheque cruzado pelo demônio, somente por ele podendo ser descontado. E quem não tiver sede de mudança que atire a primeira certeza! Se Jesus tivesse feito essa convocação, tavez sua morte não tivesse sido morte de cruz.

Uma prostituta que escreve, lê, pensa! Mais fácil seria Paulo Coelho fazer essas coisas, não é mesmo? Pode uma prostituta surfar? Pode um surfista filosofar? Pode um filósofo ser um empreendedor? Pode um empreendedor ser um filósofo? Pode um bruxo ser acadêmico?

Quantas perguntas precisam ser feitas para se desfiar o rosário dos preconceitos? Sei somente que até a rosa-dos-ventos se cansa de ser unicamente norte, sul, leste e oeste, desabrochando nordestes, noroestes e outros “estes” e fugindo da unidirecionalidade.

Texto leve e divertido... Qual?: o de Bruna Surfistinha, o dos filósofos, o de quem cita ou o de quem é citado? O de Maria Bethânia, que poderá vir a ser financiada pelo Ministério da Educação, com até metade do valor pago pelo Big Brother, ou o dos anônimos financiados pela cultura que não há nos ministérios?

Será que se Bruna Surfistinha fosse citada como uma anônima, e seu livro fosse mencionado como “um espaço”, ela não se tornaria mais digna de ingressar na Academia?

E se Madame Bovary citasse Bruna em seu blog? Será que ela não seria aplaudida de pé? (Qual das elas? Escolha por si só, se for possível).

Decidir quem é digno de falar, quem é digno de pensar, quem é digno de ter um nome, quem é digno: sonhos de fariseu abrigados na minha-sua-nossa alma tupiniquim.

A crítica da razão não permite que os fariseus descansem em paz. E eles não descansarão em paz enquanto continuarem sendo imitados?

Comecei esta postagem citando Cioran porque talvez – tão-semente talvez – os títulos, as honrarias e as licenças poéticas continuem precedendo o diálogo e o entendimento.

Aproveito o espaço para recomendar o texto Filosofia e Prostituição, escrito antes deste e depois de outro, por Raphael Douglas, no blog Um ano Existencialóide.


16/03/2011, 22h37: Ao trocar um "n" por um "m" ou um "c" por um "ç", quantos canhões-preconceito faço serem virados contra mim?

Erro propositalmente como forma de cutucar os que desejam secretamente a ruína alheia. Texto que se refaz ao longo do dia, como quem diz: "não se afobe não, que nada é pra já". A escrita-em-mutação. O futuro descobrirá que quem  inventou esse tipo de texto não fui eu, mas sim Chico Buarque de Holanda (:
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