18 de agosto de 2012

Como escapar da grandeza do amor


Fonte: Zazzle




Para escapar da grandura do amor

Um texto de Rosa Nor


Me explique José, Jesus ou Maria
O que vou fazer ou onde guardar
Com amor tão grande que?
Onde me guardo para escapar
Da vontade maníaca de ser achado por ele?
Por eles: pelo amor e pelos quês.
Deus cumpre suas promessas
Mesmo que seus efeitos durem somente três minutos
Porque o ministério público de Nêmesis julgou inconstitucional
Gozar por mais de três minutos
Da paixão, morte e ressurreição que
Dão corda ao amor tão grande que
Trouxe Jesus comigo para a cama
E pedi que ele não me
Deixasse só enquanto eu
Luxuriava com homens, mulheres,
Com minhas parcas glórias, minhas porcarias
E com a solitude
E Jesus aceitou
O que vou fazer ou onde resguardar
Com esse amor tão grande que?
Me vi num espelho que se apaixonava por mim
E tive vontade de ir embora sem levar o reflexo
E o que ia fazer com o nojo, a revolta e
Como me guardar desta roupa, desta verdade deslavada
Que estava lá
Sugando perante meus olhos meu vazio irreflexível?
O que fazer e onde guardar com esse amor tão grande que
Com esse interrogatório sem começo que
Sem que nem por quê?
Não para de terminar
? Prà que


13 de agosto de 2012

Batman, o cavaleiro das trevas, os sans-culottes de Gotham City e o fantasma hitlerista





Um dos cartazes de Batman, o cavaleiro das trevas, ressurge



Batman, o Cavaleiro das Trevas, ressurge é um filme cansativo: duplamente. O primeiro terço do filme é enfadonho como uma ladainha que capricha na monotonia e deixa a audiência sem ter quem rogue por ela. O filme peca mortalmente na caracterização da Mulher-Gato, que inevitavelmente comparamos com a leitura feita por Tim Burton e imortalizada pela interpretação de Michelle Pfeiffer. Anne Hathaway tentou ao máximo, mas não teria como emprestar mais profundidade a uma personagem concebida para ser rasa, sem o apelo confessional que contribui para o encanto dos vilões da narrativa de Batman.

Entre as mulheres-gato mais cativantes estiveram uma aeromoça desmemoriada e uma prostituta (ambas pertencentes ao universo dos quadrinhos). Elas encantam pelo contraste entre o charme e o cinismo da superfície e o convite ao desespero feito à medida que escavamos as camadas arqueológicas da personagem. Parece ter sido uma sina das mulheres-gato d.Pf (depois de Pfeifer) não convencerem. Com destaque para a aterrorizante versão protagonizada por Halle Berry, que portava um elmo com orelhas de Mickey Mouse e fez o filme da Mulher-Gato figurar no pódio dos piores do mundo, tendo conquistado medalha de bronze.

Uma Gotham City corrupta, violenta e causticante – Sim, e daí?

Um Bruce Wayne desiludido, deprimido e vivendo de forma reclusa na companhia da solidão e do vil metal – Sim, e daí? (perguntamo-nos Chiquinha [del Chavo] e Jo).

Até aí nenhuma novidade.

Mas, felizmente o filme começou a fazer jus ao arquétipo que o rege: o da ressurreição.

A partir do segundo terço, quando os mistérios dolorosos começam a entrar em cena, a história torna-se surpreendente e oferece algo que tem se tornado cada vez mais raro nas narrativas sequenciais: a chance de vermos as pontas soltas da história irem sendo amarradas sem que tenhamos aquela sensação de que o filme vai perdendo o fôlego.  A partir de um certo momento, o filme se recusa a sair do momento de clímax.

Mas, mesmo assim, a sensação que mais marcou os dois terços restantes foi a de cansaço. Não mais um cansaço vindo do enfado, mas um cansaço vindo do jogo feito pelo roteiro, que exige de nós constantemente a decisão entre abandonar a esperança ou procurar uma forma de mantê-la em meio ao cenário de um apocalipse que corre contra o relógio-bomba para se instalar.

Gotham City é convertida numa releitura dos ciclos do inferno. Na verdade, é como se tais ciclos fizessem da cidade um palco onde rivalizam por um lugar ao sol. E o inferno, na parte final da trilogia do Homem-Morcego, o apocalipse é concebido como uma mistura de revolução francesa com teoria da desobediência civil – de Henry David Thoreau - e com pitadas de Bolo'bolo, uma ficção do escritor suíço P.M a respeito de uma sociedade que destrói o sistema capitalista, substituindo-a por feudos regidos pela lógica do anarquismo. Tudo isso regado a ecos da distopia.

As referências à revolução francesa, por exemplo, são feitas com uma inteligente dose de ironia ao colocar no lugar dos sans-culottes e dos jacobinos os maníacos e psicopatas libertados da prisão de segurança máxima de Gotham.  Prefiro pensar que estas referências são regidas pela ironia, pois, caso contrário, o filme representaria uma tentativa de transformar Batman num contrarrevolucionário com a missão de purgar Gotham City da ameaça anarquista. Isso jogaria por terra o criativo esforço de tornar o personagem uma alegoria que, com as bênçãos de Milton, congrega, de forma instigante e contraditória, os imaginários de Lúcifer (o anjo caído) e de Cristo ressuscitado.

Batman sintetiza o impasse vivido pelo imaginário contemporâneo entre apostar no poder da utopia de projetar vida nova no que está sob ameaça de morte (um investimento de longo prazo, à custa de sacrifício, paciência e disciplina) ou apostar na distopia com seu apelo de higienização, de extermínio como "ferramenta" para “limpar o terreno” para o “novo”. 

Não só Batman, como muitas narrativas de super-herói contemporâneas, alertam para o fato de que o hediondo fantasma de Hitler não está tão morto e que continua a seduzir muitos com o “charme” do imediatismo armado e o discurso fajuto de edificar a “normalidade” sobre os escombros das alternativas asfixiadas.

O cansaço dos dois terços finais do filme se dá quando quem assiste percebe como é cansativo e amargo beber da taça da utopia num mundo em que parece mais rentável e garantido plantar cruzes do que carregar o peso da esperança incerta, que se confronta toda manhã com aquela sensação de azia que, depois do primeiro bocejo, olha ao derredor e clama desconsolodamente: “O que fiz para merecer isso?”. Batman descobre, ao longo do enredo, que não há como ter esperança impunemente.

E o pior é saber que há partidários da distopia que insistem em colocar em Batman a culpa por não conseguirem ninar sua pulsão de morte e partirem para os cinemas da vida a fim de crucificar desavisados com a imediatez de tiros de pistola semi-automática.

8 de agosto de 2012

O beijo na boca de Tereza D’Ávila e o sentido da vocação

O êxtase de Santa Tereza d'Àvila - Gian Lorenzo Bernini(1598-1680)



Aos amigos Loyo (Wanessa) e Neiva (Saulo), que me apresentaram o texto de Eliane Brum



Reza a lenda que Santa Tereza D’Ávila certa ocasião precisou dos serviços de um especialista em construção. Este não se fez de rogado e desafiou-a: “Só faço a obra que o convento necessita se me deres um beijo na boca”. E D’Ávila não hesitou e beijou um dos beijos mais íntegros da história humana. Tereza se entregara tão inteiramente a Cristo que sabia que eram os lábios dele a beijar aquele homem. E, quando Cristo beija, nossos lábios são meros apêndices do ardor da vida. Era tão forte a vocação de Tereza, que achou uma forma de fazer da “traição” um grande gesto de lealdade.

A psicóloga Debora quando não está em missão, pela organização Médicos Sem Fronteiras, passa alguns dias de folga no Espírito Santo, onde redescobre como é comer, dormir e tomar banho quando tem vontade. O restante do tempo, ela lida com dores de pessoas que, de tão vitimadas pela vida, confundem os gritos com o chamado de uma vocação para cair nos cárceres da liberdade. Depois de perderem tudo e descobrirem que o risco da perda mesmo assim continua, estas pessoas, com ajuda de Debora, conseguem ouvir o chamado de uma forma minimamente mais suave. A vocação de Debora não está na grandeza do sagrado, mas no elogio ao profano. Debora ajuda, por exemplo, mulheres da África a esquecerem a sacralitude da vida dos parentes que perderam, dos seus corpos que sofreram o estupro dezenas de vezes.

Se estes bens fossem o tempo inteiro considerados sagrados, estas mulheres enlouqueceriam. Elas precisam, mesmo que por poucos instantes, aprender a dessacralizá-los, esquecê-los: precisam mandar o sagrado se danar e se entregar à memória das danças que dançavam quando a vida ainda ensaiava o ritmo da paz. Debora tem a vocação de fazer as vítimas dos piores tipos de catástrofe permitirem que suas dores sejam profanadas por migalhas de chama de alegria forjadas do que não sobrou.

Ano passado – ou retrasado – foi divulgada internacionalmente a mais valiosa vaga de emprego do mundo. Um salário de dezenas de milhares de dólares para se trabalhar durante pouco tempo num lugar paradisíaco. Desconfiado da engrenagem dessa esmola, fui sondar a notícia mais a fundo. Descubro que o “paraíso” é uma ilha australiana, que traz em suas águas cristalinas crocodilos king-size, trincheiras de corais afiadíssimos, além de águas vivas capazes de nos perder dentro de seus abraços. Houve uma pessoa que topou o “trampo de férias”. Percebi, então, que até para amansar a vida é preciso se ter vocação... Mais do que se ter dinheiro...

Quando lançou as bases para a Reforma Protestante, Martinho Lutero fez uma reconstituição do significado da palavra vocação, que deixou de ser encarada como restrita ao chamado para a vida religiosa e passou a abrigar o sentido de chamado para as atividades da vida “profana”, a exemplo do trabalho.

Esta identidade dividida entre sagrado e profano acompanha o chamado vocacional. Uma das hipóteses sobre a origem da palavra vocação refere-se à história do profeta Samuel. Nela, logo se percebe que a vocação não é sinônimo de mergulho incontornável no sonho. Samuel, como relata a Bíblia, teve o sono perturbado insistentemente por Deus até compreender que deveria aceitar o convite (ou a intimação) para ser mensageiro dos planos divinos.

Já o profeta Jeremias quis várias vezes abrir mão de tudo, até mesmo de comer, tamanho o desânimo em dar continuidade ao caminho inaugurado pelo chamado vocacional. Diante das desilusões, perseguições e falta de recompensa, ele lembrava como a vocação significava um tipo de deslealdade praticada por Deus que, com seu rosto e voz invisíveis, seduz inapelavelmente os seres humanos a se deixarem seduzir pelo beijo mais doce de descaminhos que antes de beijar deram uma boa golada em alguma taça amarga.

Engana-se quem pensa que a principal razão de ser da vocação é o nosso encontro com o que há de mais eu em nós. Neste caso, não seria bem vocação, mas sim conformismo. Quando acho que meu eu foi plenamente colonizado, resumo-me a ensaiar a caligrafia da hipocrisia nas beiras comidas de um epitáfio rascunhado.

A vocação diz desrespeito ao eu. Tudo o que eu não espero e o que eu desespero dá o tom do chamado vocacional. E, por mais dura que pareça a realidade, o prazer da vocação só se revela com efeito retardado, como a agradável surpresa de uma visita inesperada. E este prazer, como praticamente sempre, traz mais demandas para o dono da casa do que para o vampiro visitante.

Há quem diga que o vocacionado tem de conviver com o eterno adiamento do eu, isto é, com o sacrifício. A vocação é um dia de chuva nublado pelo sol. Chego a pensar que a vocação é me reconhecer num espelho que me desconhece


Conheça a fundo a história da psicóloga Debora, na coluna da jornalista Eliane Brum.


Vocação - Padre Zezinho

3 de agosto de 2012

O aeroporto que pediu passagem para fotografar o sol




Miró ao nascer do sol - by Mário Sérgio Teixeira de Freitas




O sol esperou ser fotografado por Alguém para poder nascer
E a foto foi revelada no laboratório dos céus de Barcelona

Para fixar a imagem foi utilizada uma mistura de sentimentos contraditórios,
Humanos como o dos anjos que se esquecem de suas granadas na Espanha
Para que a explosão se lembre de falhar,
(A menos que seja a explosão de luzes da aurora boreal catalã

E los Angeles trocam o olé pelo respeito à vida dos touros
E utilizam as tintas da França Ártica para sua escrita de luz
Colhida do sonho de um aeroporto desabrigado que pediu guarita
Num coração trilíngue e silencioso e inflexível e feito da voz de muitas águas divididas
Entre o hemisfério da doçura feroz e o da delicada amargura

Mas quem sou para analisar tal’imagem
Nesse processo, fui somente o negativo da foto
Onde um desalento mouro se esforça para revelar o amor
Que luta para atravessar o estreito ibérico da saudade
E que pede licença ao carinho primeiro para esperar pelo abraço único.

1 de agosto de 2012

O lugar do impoçível numa fatia de gota d'água

Charlie Riedel (em Olho Mágico/UOL)



Trecho de carta expressando o desejo de fazer as pazes
Por Aida Lejos (1938 e ss.)

Sab...ia
eu
q'sou a nesga de uma gota d’água
Nesse enxame de fogo que se chama possível

A maior parte do território da gota d’água
É um oceano de impossibilidade compactada
Que não tira meu nome de seus lábios
Assim como as ondas não tiram dos seus o nome do trovão
Que usurpou o nome do estrondo do terremoto
Que imita o suspiro do escapamento de uma biga puxada por
Sem mil corcéis, todos invisíveis

Só minha ambição pequena   -
Em cuja alma cabem os buracos negros
Que se escondem nos núcleos explodidos dos á-
tomos –
Para desejar que o impossível que habita tua gota d’água
Vire deserto
E, assim,
O que sobra
tenha o desejo de não so...çobrar
E falar comigo de novo
Antes que as ondas de silêncio do amar evaporem  .:.
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