14 de abril de 2012

Hitler pintou um quadro de Nossa Senhora

Mutter Maria, pintura a óleo de Adolf Hitler em 1913



Na disciplina Estudos Comparados, da pós em Literatura na Universidade Federal de Pernambuco, estamos debatendo o conteúdo de livros que historicamente adquirem a aura de raridade por motivos diversos, dentre os quais o fato de o livro ser considerado uma espécie de armadilha para Pandora, isto é, de ser encarado pela sociedade como algo maldito .

Entre os livros que estamos estudando, está Minha Luta, escrito por Hitler. Inspirada nos debates da disciplina, esta postagem não tem por objetivo tecer juízos de valor em torno da figura de Hitler. O objetivo é expor uma curiosa contradição (dentre muitas) na vida do idealizador do terceiro Reich. Contradição expressa por meio de uma das atividades mais caras ao ditador nazista: a pintura.

Hitler era antissemita, mas, em 1913, isto é, aos 24 anos, fez uma pintura da Virgem Maria, que, como se sabe, era judia. Neste período, ele já havia se tornado adepto do antissemitismo, conforme afirma em Minha Luta.

Uma hipótese é a de que o imaginário da Virgem Maria possa ter sido utilizado como vestimenta para a saudade que ele tinha de sua mãe. Em Minha Luta, Hitler afirma: “Eu respeitava meu pai, mas por minha mãe tinha verdadeiro amor”. 

A seguir, um poema feito por Hitler para Klara, sua mãe:


CONSIDERA ISTO !

Quando a tua mãe for ficando mais velha,
quando os seus lindos queridos fieis olhos
não estiverem a ver mais vida como outrora faziam,
quando os seus pés, forem ficando cansados,
não mais querendo carregá-la enquanto caminha,
então empresta-lhe o teu braço como suporte,
escolta-a com feliz prazer,
a hora virá quando, em lágrimas, tu
terás de acompanhá-la no seu passeio final.
E se ela te perguntar algo,
então dá-lhe uma resposta.
E se ela te perguntar outra vez, então fala!
E se ela te voltar a perguntar, responde-lhe,
não impacientemente, mas com gentil calma.
E se ela não te conseguir entender devidamente,
explica-lhe, tudo com felicidade.
A hora virá, a hora amarga.
Quando a sua boca nada mais perguntar. "

Adolf Hitler
Maio,1923



12 de abril de 2012

Primeiro esboço de uma receita para se desapaixonar

Praça da Igreja da Consolação - Venezuela
Por raguilera2010



Acostuma-te a abraçar a distância e o não-me-toques de quem amas
Porque se só sabes abraçar o carinho e a receptividade, qual a tua recompensa?
Rouba 70 vezes 12 hectogramas de da mais bela palavra que couber na indizibilidade
E dá de presente ao silêncio de quem amaste-e-amas
Divida a solidão pelo tédio
E descubra que o resto desta conta é a vontade de estar pra sempre com quem amas
Quando este quem te virar as costas, lembra-te de quão maravilhoso é saber
Que o rosto mais lindo permanece ali no verso da página da indiferença
Aproveita que ele te virou as costas e atenta para a nuca
Acredita, a nuca tem um sabor lindo para paladares refinados,
Que sabem experimentar os detalhes sórdidos

Dá carta de alforria ao tempo e ao espaço
Também é lindo experimentar quem amas degustando despreocupadamente
Sua solidão e seu não estar nem aí nem aqui nem lá nem au delà
Acrescenta verde-esperança e gris-enigma brotados do joelho distraído de Deus
Solta um pássaro, pois a receita só estará no ponto quando este ponto for a busca da liberdade

Abre o pote-sentimento de quem amaste-amas-e-amarás
E pega doçura escondida na chatice,
Cafuné escondido na amargura,
Cheiro-verde escondido no chulé
Sal de algum sorriso
Consolo de alguma lágrima
E uma pérola guardada no abraço-concha
Mistura tudo com a colher da boa-vontade
Usa do gesto de se dar as mãos
Usa-o a gosto, setembro, outubro, enfim
Sem fim, aleluia!

Pronto, depois de fazer tudo isso, estarás desapaixonado!
Lava-te ao forno e espera até que a despaixão se doure d’amour
Sirva-se quente e gelado
Pois, o amor em si mesmo
Traz uma pitada de falta de lógica
Come e é comido
Essa receita rende e rende-se.



Love, thy will be done - Martika


8 de abril de 2012

O amor escondido de Martinho Lutero por Nossa Senhora

Photography by Boza Ivanovic



Martinho Lutero cantava diariamente o Magnificat, poema-cântico no qual a Virgem Maria celebra o fato de ter sido a escolhida para gerar o filho de Deus, em cumprimento à promessa feita por Ele e reiterada ao longo das gerações desde o tempo de Abraão.

Na obra Maria, o caminho da Mãe do Senhor, escrita em 1960, a também protestante M. Basilea Schlink, demonstra que este foi apenas um dos gestos que demonstram a afeição nutrida pelo idealizador da Reforma Protestante com relação a Nossa Senhora.

Atualmente, o senso comum entre as religiões protestantes é o de que não deve haver intermediadores entre Deus e o ser humano. Mas no texto Comentário do Magnificat, Lutero parece contrariar esta ideia: “Peçamos a Deus que nos faça compreender bem as palavras do Magnificat… Oxalá Cristo nos conceda esta graça por intercessão de sua Santa Mãe! Amém.”.

Lutero também reconhecia as festas em homenagem a Nossa Senhora e identifica Isabel, sua prima, como a primeira pessoa a ter uma atitude de louvor com relação a Maria quando, ao ser visitada, perguntou-se como seria digna de receber em sua casa a mãe do Salvador.

No artigo IX da Apologia da Confissão de fé de Augsburg – um dos documentos principais da Reforma - Martinho Lutero dirá: “Maria é digna de suprema honra na maior medida”. Já, nos Deutsche Schriften , afirmará: “Não há honra, nem beatitude, que se aproxime sequer, por sua elevação, da incomparável prerrogativa, superior a todas as outras, de ser a única pessoa humana que teve um Filho em comum com o Pai Celeste”.

A “história de amor” entre Lutero e Nossa Senhora comprova a teoria de Walter Benjamin segundo a qual não se pode apagar algo da história, mas, no máximo, ocultar. Além disso, o que está oculto conspira para ser redimido e vir à tona em algum futuro que consiga escapar à pressão das verdades institucionalizadas.

Maria foi excluída da lista de amigos de Martinho Lutero. Contudo, se a linha do tempo dele for investigada com atenção e respeito, vai-se verificar que descaminhos históricos - ungidos por interesses institucionais, medo e desconhecimento – ocultaram, mas não apagaram o amor que Lutero sentia e expressou no Comentário do Magnificat:

“Quem são todas as mulheres, servos, senhores, príncipes, reis, monarcas da Terra comparados com a Virgem Maria que, nascida de descendência real (descendente do rei Davi) é, além disso, Mãe de Deus, a mulher mais sublime da Terra? Ela é, na cristandade inteira, o mais nobre tesouro depois de Cristo, a quem nunca poderemos exaltar bastante (nunca poderemos exaltar o suficiente), a mais nobre imperatriz e rainha, exaltada e bendita acima de toda a nobreza, com sabedoria e santidade”.

Agradeço, nessa postagem, pelo auxílio do blog Repórter de Cristo.

Amor escondido - Fagner 

Maria, vogliamo amarti - Gen

5 de abril de 2012

O dia em que a flor virou ré de morte

Anti-Guerra do Vietnã” – Jan Rose Kasmir confronta a Guarda Nacional fora do Pentágono durante em 1967
Fotografia de Marc Riboud





POLKA Galerie : Décrochage Marc Riboud "Liberté. Egalité. Féminité."




A hipocrisia eleva ao status de crime um gesto de amor
E transforma em vaso insigne de devoção a cordialidade falsa,
Desde que ela venha calçada pelo politicamente correto
E vestida em convenções esclerosadas tecidas em dinheiro vivo ou morto

Hipócritas, que ameaçam transformar em réu a “vítima” de um gesto de amor
E preferem dar descarga nas flores a desovar seus pensamentos vis e precipitados
Tragam a guilhotina para tirar fora o pescoço das flores
Tirem as flores do mundo, porque elas são armas perigosíssimas, de grosso calibre
Deixem as dores no mundo e deem a elas indulto porque elas são normais...
... Anormais mesmo sempre foram as flores

O protesto de Jan Rose Kasmir na versão em lego, feita pelo artista plástico britânico Mike Stimpson

Afinal, a flor não é capaz de respeitar ninguém
Ela causa imenso temor
Fechem as portas que as flores vêm aí!
Os dentes-de-leão vão devorar os vivos e os mortos
As rosas vão invadir os rios e escravizar as piranhas,
Incapazes de contrapor seus dentes aos espinhos

A flor aonde chega comete grave atentado ao pudor
Ela chega, obrigando os desavisados a se tornarem reféns da ternura
E diz: roupas ao alto, isso é um estupro!
Corram das flores, garotos
Pois o homem deixa de ser homem quando entra em contato imediato de terceiro grau
Com uma flor
A flor prostitui qualquer mulher que se preze
A flor é inclusive uma doença contagiosa,
Que contamina todos ao redor num raio de megatômetros
A menos que estes todos tenham tomado a vacina da hipocrisia
Porque é bem sabido que os hipócritas estão sempre imunes
Às flores e aos gestos de amor
E preferem ganhar de presente o vírus atenuado da normalidade morna

A flor também está sendo procurada, viva ou morta,
Por causar danos graves ao bem público: é que ela foi pega pichando de carinho
A parede caiada de um sepulcro
A flor foi até acusada de conspirar para o reerguimento do muro de Berlim:
Impedindo amigos, irmãos e amantes de se verem
Também, como seria possível suportar olhar para alguém que te entrega uma flor?
A flor é tão miserável de ruim que falsificou todas as versões do mito,
Mentindo que eram serpentes, e não flores, que brotavam da cabeça da medusa
Cheire uma flor e vire pedra!

Mas o maior crime, o mais inafiançável e hediondo, cometido pela flor
É deixar os hipócritas com vontade de tê-la ganhado,
De ter sido visitados por um gesto de amor cujo maior pecado
É não ter vergonha de seu remetente
E ter apreço sem preço por seu destinatário.


Françoise Hardy - Mon amie, la rose

Mon amie, la rose - Natacha Atlas

4 de abril de 2012

Quando o cartório errou ao registrar o nome do não-existir

Imagem do blog Twizy: The world is yours
Fragmento de um poema de Robert Burton
Tal qual o amor
Que de tanta tensão acumulada por seu não existir
Precipita-se,,, como um raio que cai de ponta a cabeça
E não existe
O amor não existe
Assim igual à respiração,
Que de tão presente, nunca está lá
E da qual ninguém se lembra
- Defina respiração, por favor!
- É a corrida inútil da angústia em busca do alívio ou
A tentativa inútil de o alívio escapar à angústia
E quando saio de casa, quando me acordo,
Vou vendo que à minha frente se erguem tantos não-existires
E atrás de mim também
Luto por vitórias que não existem
Venço por lutas que não existem
Sonho por realidades que não existem
Lembro por passados que não mais existem
Lembro-me de futuros que não existirão,,,
Talvez

O chão nem existe, mas já é necessário caminhar
E se surpreender quando a não-existência
Começa a estremecer
A pedra que a tampa,,, chamada "tentativa inútil",,,
Começa a se mover sozinha e a ficar corada de vergonha, tingida de luz
E a mera e fútil existência fica com medo e corre
Ao assistir à esperança pôr o pé pra fora
E desmentir o cartório que registrou o não-existir pelo nome “nada”
O não-existir não pode ser um nada
Assim igual aos órgãos mais vitais
Que ignoram nosso esquecimento, desdém e vontades
E nos presenteiam com os cinco sentidos
O não-existir é a esperança tímida
Mas, quando se despe da vergonha de estar nua
Essa esperança revela-se um sentido além de qualquer sentido
Além não por estar longe,
Mas por estar dentro de mim
Como o Coração que bate dentro do meu coração
Mesmo depois que este pára de bater
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